A extraordinária vida de Dom Pedro II (1825-1891)

Estátua equestre de D. Pedro II do Brasil em exibição no Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, Brasil. © Flickr

Dom Pedro II do Brasil (1825-1891) é um dos maiores vultos da história brasileira, governando o país por quase cinquenta anos. É visto por muitos como um monarca perfeito e por outros como um homem que amava o conhecimento tanto quanto detestava as pompas do poder.

Primeiros anos

Durante os últimos anos de sua vida a Imperatriz Dona Leopoldina de Áustria (1797-1826) tinha uma preocupação: gerar um herdeiro varão que herdasse o trono do Império do Brasil. Para atingir esse objetivo a soberana recorreu a médicos franceses e a uma pessoa em especial, seu nome era Madame Goufferton de Chateauneuf.

Essa mulher teria ensinado a imperatriz métodos para gerar um filho homem. Seja isso verdade ou não, o fato é que em 2 de dezembro de 1825 após um parto de cinco horas de duração chegava ao mundo um belo menino robusto de olhos azuis e pele muito clara.

Dona Leopoldina finalmente havia cumprido a sua missão, mas infelizmente a imperatriz passou pouco tempo em companhia do filho. Apenas um ano depois, em 11 de dezembro de 1826, Dona Leopoldina faleceu provavelmente vítima de uma infecção generalizada.

Em 7 de abril de 1831, aos 6 anos de idade Dom Pedro II se tornou Imperador do Brasil após a abdicação de seu pai, Dom Pedro I (1798-1834), que partiu para a Europa em companhia de sua madrasta Dona Amélia de Leuchtenberg (1812-1873) e de sua irmã mais velha Dona Maria II de Portugal (1819-1853).

Iniciava-se assim um reinado de qquarenta e seis anos, entre altos e baixos, vitórias e derrotas, com responsabilidades e privilégios na mesma medida.

“A liberdade, só a conheceu como um direito dos outros. Nunca conseguiu ser, como o pai, homem somente, desgarrado dos compromissos do império” (FREITAS, 2003, p. 56).

Isolamento e educação

Recolhido no Palácio da Quinta da Boa Vista ao lado das irmãs as Princesas Dona Januária (1822-1901), Dona Francisca (1824-1898) e Dona Paula Mariana (1823-1833) o pequeno imperador teve uma infância solitária. Quase todos os aspectos de sua vida foram transformados em questões políticas devido a posição que ele ocupava.

Na Corte Imperial o tempo era rigorosamente controlado, a saúde de Dom Pedro II era constantemente verificada pelos médicos, suas amizades eram restritas a um circulo muito pequeno composto por filhos de nobres e relatórios de seus progressos educacionais eram constantemente enviados ao Parlamento para se tornarem de conhecimento público.

A ideia por trás de toda essa rigorosa e esmerada preparação era que todos tinham consciência de que era preciso tornar aquela criança um soberano consciente de suas obrigações para com a coroa imperial, pois aos 18 anos de idade o mesmo deveria assumir a governança do Brasil, na altura ainda um jovem país, cheio de contradições e marcado pelo sistema escravagista.

Ao contrário do que estava programado pela Constituição de 1824 Dom Pedro II assumiu o governo de maneira precoce em 23 de julho de 1840 através do Golpe da Maioridade com o apoio do Partido Liberal. O evento colocou o jovem no centro das ações políticas sepultando a Era Regencial.

Casamento e filhos

Após ser sagrado e coroado Imperador do Brasil numa pomposa na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé em 18 de julho de 1843 ficou claro que Dom Pedro II deveria se casar e produzir um herdeiro ao Trono Imperial o mais rápido possível.

Devido a má fama de seu pai na Europa, que havia mantido um escandaloso caso amoroso com Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos (1797-1867), a maioria dos reis europeus temiam enviar suas filhas para a América Latina receando que elas recebessem o mesmo tratamento da mãe de Dom Pedro II, a Imperatriz Dona Leopoldina, que se viu obrigada a aceitar a presença da favorita do marido na Corte Imperial.

A única princesa a aceitar a mão do monarca foi Dona Teresa Cristina das Duas Sicílias-Bourbon (1822-1889), com quem ele teve quatro filhos: Dom Afonso Pedro (1845-1847), Dona Isabel (1846-1921), Dona Leopoldina (1847-1871) e Dom Pedro Afonso (1848-1850). Infelizmente apenas as duas meninas sobreviveram a infância.

As princesas Dona Isabel e Dona Leopoldina acabaram sendo muito próximas da mãe, enquanto Dom Pedro II fez questão de se envolver pessoalmente em seu programa educacional. Se conta inclusive que o monarca chegou a dar aulas de latim e astronomia as filhas.

Viagens

Dom Pedro II também foi um viajante incansável. Embora muito se conte sobre as suas viagens ao exterior o imperador também viajou muito pelo interior do Brasil. Em 1845 ele conheceu o sul do Brasil e também visitou São Paulo. Entre os anos de 1859 e 1860 visitou algumas províncias da região nordeste e em 1881 conheceu a província de Minas Gerais. Em todos os lugares foi recebido com festa.

O imperador que herdou a aparência física da mãe, Dona Leopoldina, se destacando em meio a uma população composta em boa parte de mestiços e mulatos também herdou duas características muito marcantes do pai, Dom Pedro I: a impaciência e a fiscalização.

Tinha sempre pressa. Queria saber de tudo. Recebia embaixadores estrangeiros, cumpria visitas protocolares, fiscalizava repartições públicas, quartéis e frequentava escolas e universidades.

Fez sua primeira viagem ao exterior aos 46 anos, em 1871. O roteiro incluiu vários países da Europa, incluindo o Egito no norte da África. Cinco anos depois conheceu os Estados Unidos. Nesta ocasião também esteve na Turquia e Israel.

Sua última viagem à Europa aconteceu em 1888 e foi motivada por razões médicas. Devido a diabetes sofria muitas febres. Os médicos lhe recomendaram um clima mais ameno e tendo isso em vista o monarca partiu para a Europa conhecendo a Alemanha, Itália e França.

A coroa rola por terra

Em 1889 o monarca veterano se encontrava cansado. Na década anterior havia nascido o Movimento Republicano com a fundação do Partido Republicano em Itu, São Paulo. Logo depois os liberais fundaram um jornal, de grande circulação, intitulado A República.

Em maio de 1888, durante a sua terceira regência, a princesa Dona Isabel assinou a Lei Áurea, libertando milhares de escravizados. A ação foi resultado da árdua luta de milhares de brasileiros, integrantes do Movimento Abolicista, e atraiu muita simpatia pela monarquia.

Porém, o ato deixou os grandes fazendeiros descontentes. Sentindo-se lesados pela perda de sua mão de obra os grandes latifundiários decidiram se juntar ao Movimento Republicano, que se restringia a oficiais do exército e a um pequeno ciclo de intelectuais positivistas.

A força desses três grupos, suas articulações na calada da noite e a falta de contravir do imperador resultaram na queda do último império das Américas em 15 de novembro de 1889 quando um golpe liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892) teve lugar.

Sob a ameaça de fuzilamento a Família Imperial Brasileira se viu prisioneira no Paço Imperial, onde os assuntos governamentais eram discutidos e despachados. Alguns planos de reação foram apresentados ao imperador, mas o mesmo preferiu não reagir, frustrando todos ao seu redor.

Morte e sepultamento

Já exilado na Europa Dom Pedro II do Brasil morreria no quarto 18 do Hotel Bedford, em Paris, França. Foi vítima de pneumonia aos 66 anos de idade. Ele foi sepultado no Panteão da Dinastia de Bragança no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, em Portugal.

Na década de 1920 os restos mortais do último Imperador do Brasil foram repatriados e depositados na Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Até os dias de hoje os brasileiros se mantém apegados a figura de Dom Pedro II, a quem consideram um herói injustiçado e um exemplo de conduta pública.

Fontes:

GOMES, Laurentino. 1889. Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil. In: O imperador cansado. 1° ed. São Paulo: Globo, 2013.  cap. 14, p. 251-259.

FREITAS, Sebastião Costa Teixeira. D. Pedro II (Coleção A vida dos grandes brasileiros 12). – São Paulo: Três, 2003.

SCHWARCZ, Lilia. As barbas do imperador. 2° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

4 comentários em “A extraordinária vida de Dom Pedro II (1825-1891)

  1. Interessante observar que os dois Imperadores que tivemos (enquanto nação emancipada já do berço português), o luso D. Pedro I e o magnânimo brasileiro D. Pedro II cresceram sem a figura paterna a nortear-lhes o íntimo. Estaria aí talvez a raíz de aceitações nada conservadoras de ambas as majestades e o direcional da nação rumo o fatídico golpe de 1889?… especulações, porém se vermos a fundo, lúcidas. De todo modo, artigo excelente!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada Delcio Bellini por mais um comentário gentil e incentivador. Colocar a leitura ao alcance de todos é um dos meus maiores objetivos nesse blog. Abraços.

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