A lenda macabra de Bárbara dos Prazeres

Detalhe de “O Círculo Mágico”, de John William Waterhouse, 1866. © Wikimedia Commons

No começo do século XIX o Rio de Janeiro, então capital do Brasil, viveu uma onda de terror causada pelo rapto de crianças. Uma mulher que havia exercido a profissão de prostituta era a acusada. Nos registros polícias ela apareceu como Bárbara dos Prazeres ou Bárbara Onça e sua história causa terror e curiosidade até os dias de hoje.

Vinda para o Brasil e assassinatos

A história de Bárbara dos Prazeres mescla lenda e realidade. Na verdade sabemos muitos pouco sobre a sua verdadeira história. Apenas que ela nasceu em Portugal possivelmente no ano de 1761. Também não temos conhecimento da cidade onde ela nasceu, a identidade de seus pais ou de pormenores de sua infância. Em 1779, aos 18 anos de idade, em busca de melhores condições de vida Bárbara e seu marido chegaram ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

Segundo a lenda, apesar de ser uma mulher casada, Bárbara se apaixonou por um mulato livre e decidiu matar o marido para viver livremente o seu caso amoroso. Porém, a união de ambos acabou sendo curta. Em dentro de pouco tempo Bárbara se desencantou com o amante que se mostrou um homem mulherengo e esbanjador de suas economias. Ele também acabou morto com punhaladas durante uma discussão.

Jovem e bonita, mas sem dinheiro Bárbara decidiu se prostituir para pode sobreviver. No começo do século XIX as mulheres, de modo geral, tinham poucas oportunidades no mercado de trabalho, e se conseguiam oportunidades, as numerações eram extremamente baixas. A vista disso o caminho mais lógico a ser seguido por Bárbara foi a prostituição, que lhe rendeu alguns lucros. Durante os próximos vinte anos a jovem portuguesa exerceria a profissão no Rio de Janeiro.

Prostituição e doenças

Durante o seu período de atuação como profissional do sexo Bárbara ganhou o apelido de “Dos Prazeres”, não apenas pela qualidade de seus serviços, mas por causa de uma imagem de Nossa Senhora dos Prazeres, que ficava no Arco do Teles, na atual Praça XV, onde ela atendia seus clientes de classe média e alta ao lado de outras mulheres, que também se prostituíam.

Na virada do século XVII para o século XIX Bárbara trabalhou como cantoneira na província da Cisplatina (atual Uruguai). Provavelmente, ela assim como outras prostitutas do Rio de Janeiro, seguiu os soldados brasileiros que lutariam na Guerra da Cisplatina. Durante a sua estadia no país Bárbara contraiu varíola. Ela sobreviveu a doença, mas ficou deformada. Após sair da Santa Casa de Caridade regressou ao Rio de Janeiro e tempos depois contraiu lepra, uma doença muito pior que a varíola e extremamente estigmatizada no período.

Busca desesperada pela cura e raptos

Sem clientes, e consequentemente sem dinheiro, Bárbara se transformou em mendiga e acabou indo parar definitivamente no Arco do Teles, que na época não passava de um amontoado de escombros repleto de vagabundos, prostitutas e mendigos devido a um incêndio ocorrido no prédio acima em 1790, que acabou por desvalorizar a região.

Porém, Bárbara estava desesperada e inconformada com o seu destino decidiu procurar uma cura para as suas enfermidades entre ciganos e feiticeiros do Morro do Nheco, atual Morro do Pinto. A princípio ela se banhou em sangue de cães, gatos, cabritos e outros animais degolados. Como isso não surgiu efeito passou a ingerir carne de cobras, sapos, lagartixas.

Os feiticeiros ainda teriam instruído Bárbara a se chicotear com feixes e ervas das sete sangrias só encontráveis nos mangais. Mas como esse tratamento também não surtiu o resultado desejado Bárbara se viu obrigada a adotar um método mais radical em busca da cura: passaria a usar sangue fresco de crianças em suas poções.

Em busca de potências vítimas, segundo a lenda, Bárbara dos Prazeres ficaria a espreita da Roda dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro onde as crianças não desejadas pelas mães, que ou eram solteiras ou não tinham condições financeiras de cuidar da prole, eram deixadas para serem acolhidas pelas freiras. Posteriormente seriam adotadas por famílias que não podiam ter filhos.

Porém, essas crianças tinham um destino menos sortudo ao se tornarem vítimas de Bárbara. Antes que as freiras chegassem a Roda dos Expostos Bárbara se apressava para pegar os bebês. Logo depois se afastava do local em silêncio enquanto amordaçava os pequenos. Após chegar a sua residência ou nos mangais próximas os pendurava de cabeça para baixo e cortava suas gargantas enquanto se banhava em seu sangue, ao mesmo tempo que cantava cânticos e rezas.

Ninguém jamais soube onde Bárbara enterrava os corpos de suas pequenas vítimas. Alguns especulam que os rituais macabros tenham ocorrido em sua casa na extinta Praça Onze ou nos próprios mangais próximas da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, como mencionamos acima. Conta-se ainda que as freiras notaram que o número de crianças abandonadas diminuiu drasticamente e passaram a ficar em alerta.

Caçada pela bruxa

A polícia da época teria sido alertada dos estranhos eventos em torno da Roda dos Expostos mas não teve êxito em suas tentativas de capturar Bárbara, que aparece nos registros policiais da época como Bárbara dos Prazeres e Bárbara Onça – devido a aparência de felina que a lepra lhe deu, repuxando seus lábios fazendo com que os seus dentes caninos ficassem ressaltados lhe conferindo uma aparência feroz.

Não se sabe exatamente quando Bárbara dos Prazeres morreu. Alguns boatos afirmam que ela partiu desse mundo no ano de 1830 quando o corpo de um mulher deformada teria sido achado boiando num rio, mas a identificação do cadáver não foi possível devido ao estado avançado de decomposição do mesmo. Sendo assim além da lenda de bruxa e vampira paira sobre Bárbara dos Prazeres a lenda que afirma que ela viveria até os dias de hoje.

Conta-se também que a expressão “A onça vai te pegar” começou a ser usada nessa época por mães que tentavam impedir que seus filhos saíssem as ruas para não serem capturados por Bárbara. Alguns também dizem que a expressão “cuidado que a bruxa está solta” se refere a figura de Bárbara quando a mesma buscava crianças para fazer seus rituais em busca de cura e beleza.


Bárbara dos Prazeres no Cena do Crime:


Fontes:

REZZUTTI, Paulo. Mulheres do Brasil: A história não contada. 1° ed. Rio de Janeiro: Leya, 2018.

ENGEL, Magali Gouveia. Os delírios da razão: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). – Rio de Janeiro, FrioCruz, 2001.

FILHO, Alexandre José Melo Morais. Chronica geral e minuciosa do Imperio do Brazil desde a descoberta do Novo Mundo ou America ate o anno de 1879. – Rio de Janeiro: Typographia-Carioca, 1879.

RIBEIRO, Fernando Barata. Crônicas da Polícia e da Vida do Rio de Janeiro. – Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1958.

SCHUMA, Schumaher. RIBEIRO, Sandra. Bárbara dos Prazeres: uma história curiosa (século XVIII). Disponível em: <http://www.mulher500.org.br/wp-content/uploads/2017/06/247_Barbara_dos_Prazeres.pdf>. Acesso em: 11 jun. 2018.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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