A verdadeira história de Messalina e sua fama injusta

Estátua de Valéria Messalina com seu filho Britannicus, em exposição no Museu do Louvre. © Flickr

A Imperatriz Valéria Messalina (17 d.C.-48 d.C.) é uma das mais famosas consortes imperiais romanas. Porém, não é por bons motivos. Seu nome ecoa na história como sinônimo de mulher sexualmente devassa. No entanto, poucos sabem que os principais responsáveis por essa fama são os autores antigos, essencialmente homens, que não viam com bons olhos uma mulher influente sobre o marido.

Família e casamento

Valéria Messalina nasceu entre os anos 17 d.C. e 20 d.C. Ela era a única filha de Domitia Lepida, a Jovem (c. 5 a.C. – 54 d.C.) com seu primeiro marido, o senador Marco Valério Messala Barbato. Através da família de sua mãe Messalina era bisneta de Octavia (69 a.C.-11 a.C.), irmã do Imperador Augusto (63 a.C-14 d.C.) e quarta esposa do famoso general romano Marco Antônio (83 a.C.–30 a.C.), que se envolveu com Cleópatra VII (63 a.C.-30a.C.), Rainha do Egito.

Infelizmente não temos muitas informações sobre a infância de Messalina. Grande parte de sua vida antes de se tornar imperatriz consorte permanece um mistério, mas ela parece ter perdido seu pai muito cedo. No ano 37 d.C. quando o Imperador Calígula (12 d.C.-41 d.C.) ascendeu ao trono Messalina se casou com Cláudio (10 d.C.-54 d.C.) um parente próximo do novo monarca. Messalina seguiu o costume e se casou entre 12 ou 14 anos de idade com um homem que poderia ser seu pai. Ele já tinha sido casado duas vezes e tinha duas filhas.

Ao longo de seu casamento Messalina deu à luz duas crianças Cláudia Otávia (c. 40 d.C. – 62 d.C.) e Tibério Cláudio César Britânico (41 d.C. – 55 d.C.). O casamento aproximou Messalina dos círculos de poder, pois Cláudio era tio do Imperador Calígula e residia na Corte Imperial. Entretanto, a situação mudou em janeiro de 41 quando o monarca, que foi descrito como um monstro pelas fontes favoráveis ao Senado, foi morto com sua esposa e filha, pela Guarda Pretoriana. Os conspiradores pensaram em restabelecer a República, mas os soldados decidiram entregar o poder a Cláudio, em troca de dinheiro.

A escolha inesperada de Cláudio como imperador se deveu principalmente pelo fato dos soldados acreditarem que ele não representava um risco a ordem vigente. Cláudio também era tio de Calígula, pai de várias meninas, e era casado com uma jovem mulher que poderia gerar filhos homens representando uma possibilidade de  continuar com a Dinastia júlio-claudiana.

Messalina como imperatriz

Ao longo de seu reinado Messalina desbaratou várias conspirações que ameaçavam sua posição como imperatriz consorte. Conta-se que duas princesas imperiais, ligadas a Cláudio, o seduziram e tentarem a substituí-la. Messalina, no entanto, teve influência suficiente sobre o marido para convencê-lo do perigo que essa situação trazia para seus filhos. Mas nem só de preocupações foi feito o reinado de Messalina. Sabemos que ela recebeu várias honras, como esposa do imperador e mãe do herdeiro do trono. Seus bustos e estátuas foram espalhados pelo mundo romano, apresentando-a ao povo como esposa e mãe, valores fundamentais na sociedade romana.

Em 48 d.C. o reinado de Messalina chegou ao fim. Os eventos em torno do fim da imperatriz permanecem envoltos em mistério, mas podemos chegar a algumas conclusões. Nesse período Messalina vigiava uma princesa imperial chamada Agripina Menor (15 d.C. – 59 d.C.), que era ambiciosa e estava determinada a se casar com o imperador. Messalina então tomou uma atitude arriscada. Envolveu-se com um jovem senador chamado Caio Silio (13 d.C. – 48 d.C.). Eles logo se tornam amantes e conspiraram contra Cláudio. Messalina casou-se com Caio Silio que adotou o jovem Britânico como seu filho. Quando pensamos nos seguintes eventos, a alternativa de Messalina parece claramente política.

Tudo aconteceu quando Cláudio foi visitar a cidade de Ostia, a sudoeste de Roma. A tentativa de golpe acabou sendo delatada pelos escravos libertos de Cláudio. O imperador então deixou os mesmos organizarem o assassinato da imperatriz. Sabemos que quando Cláudio retornava de sua visita a Ostia Messalina foi ao encontro dele para tentar se justificar, porém não foi recebida. Ela acabou sendo executada nos Jardins de Luculo, por um soldado, pois não teve coragem de se suicidar.

Origem da lenda de promiscuidade

O início da má fama de Valéria Messalina teve início logo após a sua morte. Condenada por alta traição o Senado emitiu a lei Damnatio memoriae que tinha por objetivo apagar qualquer traço da existência de um indivíduo. Sendo assim o nome e as estátuas de Messalina foram removidos de todos os lugares. Porém, o ataque mais virulento a reputação da imperatriz foi o de Décimo Júnio Juvenal (c. 55 d.C. – c. 127 d.C.), autor de sátiras. Na Sátira VI ele descreve Messalina como uma mulher dominada pela luxúria que frequentava bordéis em busca de satisfação sexual enquanto seu marido estava dormindo no palácio.

A descrição escandalosa foi o suficiente para manchar para sempre a memória de Messalina. A partir de então, todos os autores que se propuseram a escrever sobre Messalina recolheram as denúncias de Juvenal, que carecem de embasamento, como legítimas e a tornaram a “cortesã imperial”. Outro autor responsável pela má fama de Messalina foi Públio Cornélio Tácito (c. 56 d.C. – 117 d.C.). Em sua obra célebre obra intitulada Anais, a imperatriz está próxima da loucura; ela não está interessada em política e em seus filhos, apenas em dinheiro e homens. Desde então os autores nunca se atentaram a analisar o contexto de seu reinado e se concentraram em sua suposta devassidão.

O momento político pelo qual Roma passava também favoreceu as descrições nada imparciais de Messalina. De fato, desde o final do século, a nova Dinastia dos Flavianos tornou os imperadores e imperatrizes da Dinastia júlio-claudiana indignos e incapazes e apresentou os seus próprios membros como excelentes governantes.

Sem sombra de dúvidas Messalina também foi vítima da misoginia dos autores antigos. Com frequência, assim como no mundo grego, a literatura romana condenava as mulheres que ousavam intrometer-se em assuntos políticos. Após sua morte seus dois filhos foram mortos por ordens de Nero, o filho de Agripina Menor, que se tornou imperador após a morte de Cláudio.

Fontes:

GUES, Estelle Berlaire. Mesalina y su injusta fama. Disponível em: <https://revistadehistoria.es/mesalina-injusta-fama/>. Acesso em: 9. jun. 2019.

FREISENBRUCH, Annelise. As primeiras-damas de Roma: as mulheres por trás dos Césares. Tradução de Andrea Gottlieb. 1° ed. Record: Rio de Janeiro, 2014.

SUETÔNIO. As vidas dos doze Césares. – Brasília : Senado Federal,
Conselho Editorial, 2012.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

7 comentários em “A verdadeira história de Messalina e sua fama injusta

  1. Gostei muito, achei que havia dois lados dessa história mesmo. Pois é muito fácil julga uma pessoa nestas circunstâncias. Em um texto vi julgamentos dizendo que ela era compulsiva sexual. Talvez era o que ela quis parecer, por ato político e não era caso de doença nem nada ou algo Obrigada

    Curtido por 1 pessoa

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