A incrível vida da Princesa Dona Isabel (1846-1921)

Retrato da Princesa Imperial Dona Isabel de Bragança, por Vicente Mallio, 1874. © Google Arts & Culture

Dona Isabel de Bragança (1846-1921) é uma das personagens mais célebres da história do Brasil. Foi herdeira do trono imperial por mais de quarenta anos e protagonizou a Assinatura da Lei Áurea, libertando milhares de escravizados do Brasil. Conheça sua história a seguir.

Nascimento e educação

Mulher e candidata ao posto político mais alto do Brasil, o de Imperatriz, Dona Isabel de Bragança era vista com espanto e desconfiança em um mundo masculino e conservador. Ela nasceu no no final da tarde de 29 de julho de 1846, no Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, após um doloroso trabalho de parto.

Seu pai era o Imperador Dom Pedro II do Brasil (1825-1891) e sua mãe a italiana Dona Teresa Cristina (1822-1889), Princesa do Reino das Duas Sicílias. Longe de mostrar insatisfação pelo sexo da criança o casal imperial recebeu a mesma de braços abertos e logo se empenharia na tarefa de lhe ministrar a melhor educação possível.

No princípio Dona Isabel não era a herdeira do trono. Em 1845 nasceu o Príncipe Dom Afonso Pedro (1845-1847), mas após a sua morte dois anos depois Dona Isabel passou a ocupar o seu posto. Em 1847 a pequena princesa ganhou outro irmão, mas como este era uma menina Dona Isabel manteve sua posição. Ela brevemente perderia o posto de herdeira imperial com o nascimento do Príncipe Dom Pedro Afonso em 1848, mas este acabou morrendo em 9 de janeiro de 1850. Sendo assim Dona Isabel se tornou definitivamente a herdeira do Trono Imperial.

Para prepará-la para a árdua tarefa durante a infância Dona Isabel se submeteu com a irmã, a Princesa Dona Leopoldina, a um formidável programa educacional concebido pelo pai, o Imperador Dom Pedro II, e coordenado por Luisa Margarida de Barros Portugal, Condessa de Barral (1816-1891). A rotina de estudos era de nove horas e meia por dias, exercida seis dias por semana contando com diversos tutores.

De acordo com Laurentino Gomes em seu livro 1889, Dona Isabel estudava matérias como: latim, inglês, francês e alemão, história de Portugal, de França e de Inglaterra, literatura portuguesa e francesa, geografia e geologia, astronomia, química, física, geometria e aritmética, desenho, piano e dança.

Juramento a Constituição e casamento

Quando Dona Isabel completou 14 anos de idade, em 1860, ela foi oficialmente apresentada à corte em uma grande cerimônia pública. No prédio do Senado, no centro do Rio de Janeiro, foi recebida por uma comissão de parlamentares e jurou a Constituição Imperial de 1824. Quatro anos depois, aos 18 anos, ela casou-se com Gastão de Orleans, Conde d’Eu (1842-1922), que era neto do Rei dos Franceses Luís Filipe I (1773-1850).

A pomposa cerimônia de casamento foi realizada em 15 de outubro de 1864 na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no Rio de Janeiro, e contou com a presença de toda a corte imperial. Para comemorar o evento a princesa pediu ao pai que libertasse dez escravos do Palácio de São Cristóvão.

Dona Isabel e Gastão de Orleans se deram bem desde o início e protagonizavam um casamento feliz e harmonioso em todos os aspectos possíveis. Nem sequer temos notícias de que o Conde D’Eu tenha tido amantes. Mas apesar de toda a felicidade uma coisa assombrou o casal durante dez anos: a falta de filhos.

Enquanto a Princesa Dona Leopoldina dava à luz a crianças fortes e saudáveis Dona Isabel – ou Gastão de Orleans – se mostrava infértil. Sabemos que ela submeteu-se a diversos tipos de tratamentos medicinais da época, e finalmente em 15 de outubro de 1875 nasceu Dom Pedro de Alcântara, Príncipe do Grão-Pará (1875-1940). O segundo filho, o Príncipe Luís de Orleans e Bragança (1878-1920), viria ao mundo em 26 de janeiro de 1878. Uma terceira criança, Dom Antônio de Orleans e Bragança (1881-1918), completaria a família em 9 de agosto de 1881.

Regências e assinatura da Leia Áurea

Dona Isabel assumiu a regência do Império do Brasil em três ocasiões. Sem sombra de dúvidas seus feitos governamentais mais célebres são aqueles relacionados aos escravizados do país. Pore exemplo, em 28 de setembro de 1871 a Princesa Imperial sancionou a Lei do Ventre Livre, que impedia que crianças nascidas na condição de escravizadas herdassem a condição de seus pais. Alem disso entre os anos de 1876 e 1877 Dona Isabel enfrentou problemas de ordem política, como uma forte seca no nordeste do Brasil e o embate político-religioso entre maçons e católicos.

Porém, é quase certo dizer que a Princesa Imperial é mais lembrada por ter assinado a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, durante sua terceira regência iniciada em junho de 1887. Na ocasião Dona Isabel colocou fim a quase quatro séculos de escravidão no Brasil libertando cerca de 700 mil negros.

A Assinatura da Lei Áurea só foi possível devido ao Movimento Abolicionista que contou com a participação de grandes nomes como Joaquim Nabuco (1849-1910), André Rebouças (1838-1898), Francisco de Paula Brito (1809-1861), Luís Gama (1830-1882) e dezenas de outros milhares de brasileiros comuns e iletrados que defenderam a causa por compaixão dos escravizados.

Apesar da popularidade que a Lei Áurea proporcionou a coroa o evento deu o empurrão que faltava para a queda da monarquia. Até então a escravidão era uma sólida instituição nacional e seu desaparecimento colocou em xeque os grandes latifundiários. Sem o apoio dos fazendeiros e dos militares, que haviam se contaminado com ideias positivistas, a República foi proclamado no país.

Golpe Republicano

Na manhã de 15 de novembro de 1889 Dona Isabel e o marido, que viviam no Palácio Guanabara, foram surpreendidos pela chegada de Francisco Pereira Pinto, Barão de Ivinhema (1817-1911) e de João de Sousa da Fonseca Costa, Visconde da Penha (1823-1902). Eles traziam notícias alarmantes: José da Costa Azevedo (1823-1904), o Barão de Ladário, então Ministro da Marinha, se encontrava baleado por ter resistido a uma ordem de prisão por parte dos republicanos e uma revolta militar, arquitetada pelo Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), pelo Tenente-coronel Benjamin Constant (1836-1891) e pelo jornalista Quintino Bocaiúva (1836-1912), se desenrolava no Campo de Santana.

Novas informações iam chegando a todo momento criando um clima de confusão. Dizia-se que o ministério da Marinha havia sido derrubado e que o Presidente do Conselho de Ministro Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto (1836-1912), estava preso por ordem de Deodoro da Fonseca. Para saber o que realmente estava se passando Dom Pedro II decidiu deixar a cidade de Petrópolis e foi para o Rio de Janeiro.

Em dentro de pouco tempo Dona Isabel e o marido se juntaram ao imperador no Paço da Cidade, na atual Praça XV. Lá dentro Alfredo d’Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay (1843-1899), expôs o plano que André Rebouças havia arquitetado para combater a revolta: era preciso recrutar o maior número possível de aliados, retornar a Petrópolis e, seguir para Minas Gerais, a fim de organizar uma resistência.

Porém Dom Pedro II parecia impassível. Após se reunir com o visconde de Ouro Preto o monarca decidiu formar um novo ministério para governar o Brasil. Outro equivoco fatal se seguiria: o senador gaúcho Gaspar Silveira Martins (1835-1901), antigo desafeto político de Deodoro da Fonseca, foi indicado para ocupar o cargo de Presidente do Conselho de Minsitro, posição que equivaleria atualmente a Primeiro-Ministro da nação.

A nomeação acabou sendo a gota d’água para o marechal, que diante da notícia decidiu definitivamente levar o golpe adiante. Com a República proclamada e com um novo governo provisório constituído a toque de caixa a Família Imperial Brasileira foi informada, em 17 de novembro, que deveria deixa o Brasil o mais rápido possível para evitar levantes populares em prol da monarquia.

As últimas horas de Dona Isabel e da Família Imperial no Brasil foram marcadas por um clima de tensão e expectativa. O Paço da Cidade foi cercado por cordões de isolamento e as ruas foram bloqueadas pelos soldados da cavalaria com armas em punho. Ninguém entrava e ninguém saia sem autorização dos republicanos.

Exílio e morte

Após a morte do Imperador Dom Pedro II, em 5 de dezembro de 1891, Dona Isabel passou a ser considerada imperatriz pelos monarquistas. Entretanto, ela preferiu não interferir em assuntos políticos de maneira direta e prestou um apoio discreto ao movimento monarquista.

Sabemos que ela viveu seus últimos dias na França, no litoral normando, no Castelo d’Eu, propriedade comprada por seu marido em 1905, em relativa tranquilidade, se retirando para o campo, como era comum entre os aristocratas da época.

Algo que poucos sabem é que Dona Isabel durante a Primeira Guerra Mundial, assumiu as chamadas “cozinhas econômicas” que alimentavam os soldados, enquanto o marido, Gastão de Orleans, com a faixa da Cruz Vermelha no braço, atendia a dezenas de feridos.

Após o fim do conflito Dona Isabel teve as suas próprias perdas. Seu filho caçula Dom Antônio viria a falecer num acidente área enquanto servia na Marinha Real Britânica, em 29 de novembro de 1918. Dois anos depois, em 26 de março de 1920, faleceu seu outro filho o Príncipe Dom Luís devido a um câncer ósseo decorrente dos esforços de guerra.

Dona Isabel finalmente faleceu em 14 de novembro de 1921, aos 75 anos de idade. Ela nunca mais voltou a pisar no Brasil desde a Proclamação da República de 15 de novembro de 1889. Seus restos mortais, que foram transferidos para o Brasil em 1953, repousam atualmente na Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Fontes:

GOMES, Laurentino. 1889. Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil. In: A redentora. 1° ed. São Paulo: Globo, 2013. cap. 13, p. 231-249.

Isabel, uma Princesa de Carne e Osso. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Maio de 2012. Ano 7. N° 80.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

2 comentários em “A incrível vida da Princesa Dona Isabel (1846-1921)

    1. Olá, muito obrigada por deixar seu comentário. Fico muito feliz que aprecie o meu trabalho. Sempre me esforço para produzir um conteúdo de qualidade. Abraços, estamos sempre a disposição!

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