Dona Teresa Cristina, a imperatriz exilada (1822-1889)

Retrato de Teresa Cristina das Duas Sicílias, por Victor Meirelles, 1864. © Wikimedia Commons

Dona Teresa Cristina foi imperatriz consorte do Brasil por quase 50 anos, mas segue sendo uma das grandes incógnitas de nossa história devido a excessiva publicidade dada a seu marido Dom Pedro II do Brasil. Ao longo de sua vida Dona Teresa Cristina foi imperatriz, mãe, esposa, incentivadora das artes e acima de tudo uma mulher persistente. Acabou seus dias exilada.

Dona Teresa Cristina (1822-1889) nasceu em 14 de março de 1822, meses antes da Proclamação da Independência do Brasil, no seio de um dos diversos ramos da família Bourbon em Nápoles, Itália. Seu pai, Francisco I das Duas Sicílias (1777-1830), morreu quando Dona Teresa Cristina tinha apenas 8 anos de idade, e seu irmão Fernando II (1810-1859) ascendeu ao trono de Nápoles.

A partir de então Dona Teresa Cristina foi criada por sua mãe, a infanta espanhola Maria Isabel de Bourbon (1789-1848), que se mostrou pouco disposta a dar atenção aos seus filhos. Em 1829 Maria Isabel voltou a se casar, desta vez com um oficial do exército.

Com o pai morto e com uma mãe pouco disposta a lhe dar atenção Dona Teresa acabou por desenvolver uma personalidade reservada. Segundo o que se diz a jovem princesa também não era particularmente graciosa, mas dedicou-se muitos aos estudos tornando-se uma mulher de grande inteligência.

Sabemos que Dona Teresa Cristina tinha um interesse particular em arqueologia e participou e contribuiu para as escavações da cidade de Pompeia, que foi destruída por uma erupção vulcânica em 79 d.C.

Enquanto isso Dom Pedro II do Brasil (1825-1891), aos 15 anos, após sua suntuosa coroação iniciou buscas por uma esposa que pudesse lhe dar um sucessor ao trono. No entanto, a tarefa não foi fácil. Seu enviado, Bento da Silva Lisboa, 2° barão de Cairu (1793-1863), recebeu várias recusas após fazer propostas de casamento nas cortes europeias.

Essa resistência às propostas matrimoniais por parte do imperador do Brasil se deviam essencialmente a recordação das dificuldades passadas pela imperatriz Dona Leopoldina de Áustria (1797-1826) que morreu jovem e foi humilhada pelo marido, e pelo exílio de Dona Amélia de Leuchtenberg (1812-1873) do Brasil a partir de 1831.

Porém, quando tudo parecia perdido uma reunião aconteceu. Vincenzo Ramírez, representante diplomático das Duas Sicílias em Viena, se reuniu com o barão de Cairu, que há dois anos esperava uma reposta do imperador austríaco. Ramírez apontou uma das três irmãs de Fernando II das Duas Sicílias como uma potencial noiva para Dom Pedro II.

De acordo com Sebastião Costa Teixeira de Freitas, autor do livro D. Pedro II, Cairu não aguardou a prévia autorização de Dom Pedro II para selar a aliança. Excitado pela possibilidade de ter êxito em sua missão e avaliando as vantagens do enlace assinou o acordo matrimonial em 20 de maio de 1842.

Ainda de acordo com Teixeira de Freitas Dom Pedro II “tomou conhecimento do retrato daquela que seria sua companheira até o fim do reinado” em 23 de julho daquele ano. Tratava-se de uma pintura de José Correia de Lima (1814-1857) que representa uma jovem de grande beleza e elegante. Ao fundo pode-se ver a silhueta do vulcão Vesúvio. Seduzido pelo retrato o imperador acabou por aceitar a mão de Dona Teresa Cristina.

A cerimônia de casamento teve lugar em 30 de maio ano seguinte. O imperador foi representado pelo irmão da noiva, o príncipe Leopoldo, conde de Siracusa (1813-1860). Um grande baile seguiu-se. Logo depois Dona Teresa Cristina arrumou as malas e deixou sua terra natal, já sob os cuidados das autoridades brasileiras. Ela chegaria ao Rio de Janeiro em 5 setembro do mesmo ano a bordo da fragata Imperatriz.

Dom Pedro II conheceu a esposa sob os aplausos da multidão de súditos reunida na Baía de Guanabara e dos canhões que disparavam saudações em honra a sua nova soberana. A mulher que Dom Pedro II encontrou a bordo da fragata não era bem quem ele esperava. Pessoalmente a imperatriz não se assemelhava a mulher representada na obra de José Correia de Lima.

Embora muitos exagerem ao falar da reação de Dom Pedro sabemos que, de fato, ele sentiu-se decepcionado e surpreso. Talvez isso se deva ao fato dele ser muito jovem e estivesse ansiosa demais para conhecer a esposa. A reação do marido não passou despercebida a Dona Teresa Cristina, que, por sua vez, também sentiu-se desgostosa e relatou isso as duas damas.

O rosto redondo emoldurava um olhar inexpressivo, no qual se destacava o nariz comprido e pontiagudo. Os cabelos negros e lisos partiam-se ao meio e ficavam presos em forma de coque à moda usada na época pelas matronas italianas” (GOMES, 2013, p. 119).

Apesar do primeiro encontro ter sido um pouco desastroso tudo seguiu como o planejado e o casal recebeu as bênçãos núpcias na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé diante de toda a corte. Um jantar com baile seguiu-se no Palácio de São Cristóvão. Apesar de Dona Teresa Cristina parecer um pouco aborrecida Dom Pedro II não deixou transparecer nenhuma emoção. Tudo parecia bem.

Após um breve período de rejeição a esposa Dom Pedro II tornou-se mais amável e atencioso para com ela devido a convivência. Interesses mútuos também foram descobertos. Os filhos não demoraram em chegar. O casal teria quatro crianças, dos quais dois seriam varões e duas meninas para grande alegria de todos.

O príncipe Dom Afonso Pedro (1845-1847) nasceu em 23 de fevereiro de 1845 e outro menino chamado Dom Pedro Afonso (1848-1850) viria ao mundo em 19 de julho de 1848. Dom Pedro Afonso foi precedido pelas princesas Dona Isabel (1846-1921) e Dona Leopoldina (1847-1871) nascidas em 29 de julho de 1846 e 13 de julho de 1847. Infelizmente os meninos morreriam vítimas de febres e convulsões, de modo que restou ao imperador e sua esposa apenas uma descendência de mulheres.

Longe de lamentar o fato de não possuir um herdeiro homem para herdar o trono imperial Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina decidiram se dedicar a educação das duas princesas. Durante a infâncias de Dona Isabel e Dona Leopoldina a imperatriz mostrou-se uma mãe bastante carinhosa, mas ao mesmo tempo exigente.

Dona Teresa Cristina foi uma grande dama da sociedade durante o Segundo Reinado. Como incentivadora das artes intercambiou cerâmica indígena com o Reino das Duas Sicílias em troca de peças arqueológicas de arte etrusca de inestimável valor. Ela também foi uma grande patrona das artes. Graças a sua intervenção o famoso compositor de ópera Carlos Gomes (1836-1896), autor de O Guarani, completou seus estudos de música na Itália.

Durante a maturidade e velhice Dona Teresa Cristina acompanhou o marido em três viagens a Europa. Juntos conheceram diversos países da Europa e do Oriente Médio. Estivem até mesmo no continente africano, no Egito, visitando as Pirâmides do Planalto de Gizé.

Mas com certeza uma das maiores tristeza da vida da imperatriz foi a morte de sua filha caçula. Em 7 de fevereiro de 1871 no auge da juventude a princesa Dona Leopoldina morreu, com apenas 23 anos, em meio a dores atrozes em Viena, durante uma viagem a Europa. Foi vítima de febre tifoide.

Dona Teresa Cristina encontrou consolo na criação dos dois netos, os príncipes Dom Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança (1866-1934) e Dom Augusto Leopoldo de Saxe-Coburgo e Bragança (1867-1922), que desembarcam no Rio de Janeiro, ainda meninos, após a morte da mãe.

Em 15 de novembro de 1889 o Brasil foi sacudido por um golpe republicano por parte do Exército. Sob ameaça de fuzilamento Dom Pedro II e seus familiares se viram acuados na Quinta da Boa Vista. Nesta altura a monarquia já havia perdido suas bases de apoio como os grandes latifundiários, que se sentiram afetados pela perda de seus escravos, após a abolição da escravatura em 1888, e os militares que estavam impregnados pelo positivismo.

Dom Pedro II decidiu não reagir ao golpe para evitar um derramamento de sangue e partiu rumo ao exílio. Assim Dona Teresa Cristina de uma hora para outra se viu forçada a deixar o Brasil e viver na Europa. Velha e doente dos ossos a imperatriz veio a falecer no Hotel do Porto, em Portugal, em 28 de dezembro de 1889, aos 67 anos.

Todos choraram a morte da mulher que havia sido imperatriz consorte do Brasil durante 41 anos. Ela foi sepultada no Panteão dos Bragança da Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa. Em 1939 seus restos mortais foram transladados ao Brasil e foram depositados em Petrópolis, na Catedral São Pedro de Alcântara, ao lado do marido.

Fontes:

BARMAN, Roderick J. Imperador cidadão. (Tradução de Sonia Midori Yamamoto) 1° ed. São Paulo: Unesp, 2012.

FREITAS, Sebastião Costa Teixeira de. D. Pedro II. – . São Paulo, Três, 2003.

GOMES, Laurentino. 1889. Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil.  In: O Imperador Cansado.  1° ed. São Paulo: Globo, 2013. cap. 14, p. 251-259.

Teresa Cristina de Borbón-Dos Sicilias, la última emperatriz de Brasil. Disponível em: < https://tuotrodiario.hola.com/noticia/20141007120138/teresa-cristina-de-borbon-dos-sicilias-la-ultima-emperatriz-de-brasil/ >. Acesso em: 24 jan. 2019.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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