A apavorante história das mulheres de Henrique VIII

Catarina de Aragão, Ana Bolena e Jane Seymour foram as três primeiras esposas do monarca inglês. © Wikimedia Commons

O Rei Henrique VIII de Inglaterra (1491-1547) pode ser descrito como um legítimo garanhão renascentista. Em sua incansável busca pelo amor – e principalmente por um herdeiro homem – ele chegou a se casar seis vezes. O destino de suas mulheres foi, na maiorias da vezes, trágico.

Henrique VIII de Inglaterra nasceu em 1491 no Palácio de Placentia, em Greenwich, Londres, nas margens do rio Tâmisa. Ele foi o segundo filho varão do Rei Henrique VII de Inglaterra (1457-1509) e sua esposa Elizabeth de York (1466-1503) e devido ao fato de ser o segundo na linha de sucessão ao trono foi educado para seguir uma carreira eclesiástica dentro da Igreja.

No entanto, os planos mudaram após a morte inesperada de seu irmão, o Príncipe Arthur Tudor (1486-1502), em abril de 1502. Na época Henrique tinha apenas 10 anos de idade, mas já começou a sentir o peço dos deveres reais e, principalmente, o fato de ser o único filho varão remanescente de Henrique VIII.

Visto a partir de então como uma joia preciosa, a vida cotidiana de Henrique passou a ser altamente regulada por ordens de seu pai. Como todos na corte temiam que o menino tivesse o mesmo destino que seu irmão mais velho, que faleceu vítima da Doença do Suor, ele foi proibido de fazer qualquer exercício físico ou de se expor a riscos.

Henrique também não era autorizado a participar de justas, um esporte popular entre a nobreza da época. Ele também não foi enviado para as fronteiras do país de Gales para aprender a arte de governar, mas foi mantido na corte, perto de seu pai, que faleceu em 21 de abril de 1509, de tuberculose.

Somente a partir dessa data Henrique agora Henrique VIII de Inglaterra passou a sentir o gosto da liberdade e não hesitou em usá-la como bem entendesse. Uma de suas primeiras atitudes como novo rei foi casar-se com a sua ex-cunhada, a Infanta espanhola Catarina de Aragão (1485-1536).

Catarina de Aragão

Catarina era seis anos mais velha que o novo rei e havia sido esposa de seu irmão Artur por seis meses, residindo com ele no Castelo de Ludlow, em Gales. Após a morte do marido Catarina amargou um destino incerto e viveu na pobreza durante sete anos até que Henrique VIII a desposou numa cerimônia discreta no Palácio de Greenwich em 11 de junho de 1509.

Após uma magnífica cerimônia de coroação conjunta, no dia 24 de junho, na Abadia de Westminster Catarina de Aragão anunciou que estava grávida. Está primeira criança foi uma menina que nasceu morta em janeiro de 1510. Em 1 de janeiro de 1511 nasceu Henrique Tudor, Duque da Cornualha, que faleceu após cinquenta e dois dias de vida.

Após duas crianças mortas o cenário para Henrique e Catarina era desanimador, mas mesmo assim o casal real não desistiu. Em 1512 Catarina engravidou novamente, mas teve um aborto em setembro de 1513. No ano seguinte, em 1514, Catarina estava novamente grávida, mas foi vítima de mais um aborto.

Porém, o reinado de rainha consorte de Catarina de Aragão não foi marcado apenas por perdas. Em 1512 Henrique VIII liderou uma campanha militar na França e deixou Catarina encarregada da regência da Inglaterra. Em 9 de setembro de 1513 teve lugar a Batalha de Flodden, que causou a morte do Rei Jaime IV da Escócia (1473-1513) e resultou numa retumbante vitória inglesa.

Após esse grande triunfo militar, em 18 de fevereiro de 1516, Catarina deu à luz uma filha chamada Maria Tudor (1516-1558). O nascimento de uma criança viva e saudável serviu para mostrar para todos na corte que a rainha ainda era capaz de completar uma gestação e dar à luz a uma criança, mas o relógio biológico estava contra ela.

Nesta altura Catarina já contava com 31 anos de idade, uma soma considerada avançada para a época. Provavelmente a rainha teve mais duas gestações, sendo a última registrada em 1518. Já em 1526 quando Henrique VIII se mostrava abertamente preocupado com a falta de filhos varões ele conheceu a jovem Ana Bolena (c. 1500-1536)

Ana Bolena

Ana Bolena era filha do embaixador Thomas Bolena (c. 1477-1539), 1.º Conde de Wiltshire e sua esposa Elizabeth Howard (C. 1480-1538), Condessa de Wiltshire, que era membro de uma das famílias mais proeminentes do reino inglês. Ana passou parte de sua infância no Países Baixos, na corte da Arquiduquesa Margarida de Áustria (1480-1530), Duquesa de Saboia, mas completou sua educação na corte francesa.

Quando Ana retornou a Inglaterra ela contava, provavelmente, com 25 anos de idade. Era inteligente, bonita, refinada e encantadora. Ao contrário de sua irmã, Maria Bolena (c. 1499-1543) , ela se negou a tornar-se amante do Rei Henrique VIII, o que provavelmente atiçou ainda mais o desejo do monarca.

A paixão de Henrique por Ana pode ser comprovada nas cartas de amor que ele escreveu para ela. Ao todo, existem 17 cartas, porém as mesmas carecem de datas, o que torna difícil a realização de uma cronologia. Apesar disso é explicito a paixão do rei pela jovem. Em 1527 o monarca solicitou ao Papa Clemente VII (1478-1534) o seu divórcio de Catarina de Aragão. Ele alegava que estava em pecado por haver se casado com a esposa de seu falecido irmão.

No entanto, Catarina não desistiria fácil de sua posição como rainha. Ela lutou o quanto pode para manter-se ao lado de Henrique, porém a situação se tornou insustentável em 1533 quando Ana anunciou que estava grávida. Para evitar questionamentos acerca da legitimidade da criança Henrique teve que agir. Ele rompeu relações com o Vaticano e estabeleceu a Igreja Anglicana da Inglaterra e declarou, através do Arcebispo Thomas Cranmer (1489-1556), o seu casamento com Catarina invalido.

Após se casar com Henrique VIII numa cerimônia privada em 1 de junho de 1533 Ana foi coroada rainha na Abadia de Westminster. Em 7 de setembro do mesmo ano ela deu à luz uma menina chamada Elizabeth (1533-1603) no Palácio de Greenwich. O nascimento de uma menina foi a primeira grande decepção que Ana proporcionou a Henrique.

Enquanto era amplamente repudiada pela população inglesa Ana padeceu do mesmo problema de sua antecessora: ela falhou em produzir um herdeiro varão ao trono. A rainha provavelmente sofreu mais três ou quatro abortos após o nascimento da Princesa Elizabeth. De acordo com o historiador Hester W. Chapman (1899-1979) Ana Bolena teve duas gravidezes no ano de 1534, que resultaram em abortos. É provável que ela tenha tido uma gravidez psicológica, fruto da pressão que sofria.

Enquanto isso Henrique VIII direcionava as suas atenções para uma dama de companhia de Ana, a dócil e agradável Jane Seymour (c. 1508-1537). Filha de nobres ingleses Jane nasceu provavelmente em 1508 e teve uma educação bastante modesta se for comparada a instrução de Catarina e Ana, mas teve êxito onde as mesmas fracassaram.

No ano de 1536 a vida das três primeiras esposas de Henrique VII estavam entrelaçadas. Em 7 de janeiro deste ano Catarina de Aragão faleceu no Castelo de Kimbolton, provavelmente vítima de um câncer de coração. No dia de seu funeral, em 29 de janeiro, Ana teve seu último aborto. Segundo alguns autores tratava-se de um filho do sexo masculino. Sendo isso verdade ou não o fato é que o evento selou o seu destino.

Em 2 de maio Ana foi presa sob a acusação de incesto, traição e adultério foi decapitada na Torre de Londres no dia 19. Apenas de 24 horas depois da execução da segunda esposa Henrique ficou noivo de Jane Seymour. No dia 30 de maio, eles se casaram no Palácio de Whitehall. Ao contrário das duas rainhas anteriores, Jane nunca teve uma coroação.

Jane Seymour

No início de 1537 Henrique recebeu uma notícia que esperava com ansiedade. Jane finalmente estava grávida. Conta-se que durante a gravidez, todos os caprichos da rainha foram atendidos menos a sua súplica para impedir que os envolvidos na Peregrinação da Graça fossem absolvidos de suas sentenças de morte.

A Peregrinação da Graça foi uma revolta popular que teve início em York que questionava as reformas religiosas reformistas impostas por Henrique, que por sua vez, não teve clemência de seu povo. Quase todos envolvidos foram massacrados e os lideres enforcados para a grande tristeza de Jane, que continuava em seu intimo uma católica fervorosa.

Em 12 de outubro do mesmo um menino chamado Eduardo Tudor (1437-1553) nasceu no Palácio de Hampton Court. Finamente o sonho de Henrique havia se concretizado. Três dias após o seu nascimento, em 15 de outubro, o bebê foi batizado numa esplendorosa cerimônia. Maria, filha de Catarina de Aragão, atuou como a madrinha enquanto Elizabeth, filha de Ana Bolena, também participou da cerimônia.

Segundo os relatos Jane Seymour era uma mulher altruísta que se preocupou com o destino das filhas de suas antecessoras. Ela conseguiu convenceu Henrique a trazer as filhas de volta para a corte, mas não teve muito tempo para desfrutar da companhia de seu próprio filho. Ela morreu de febre puerperal em 24 de outubro de 1537.

Fontes:

FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento E Silva. 2ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

EAKINS, Lara E. Catherine of Aragon. Humble and Loyal. Disponível em: <https://tudorhistory.org/aragon/>. Acesso em: 5 jan. 2019.

EAKINS, Lara E. Anne Boleyn. The Most Happy. Disponível em: <https://tudorhistory.org/boleyn/>. Acesso em: 5 jan. 2019.

EAKINS, Lara E. Jane Seymour. Bound to Obey and Serve. Disponível em: <https://tudorhistory.org/seymour/>. Acesso em: 4 jan. 2019

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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