A apavorante história das mulheres de Henrique VIII (Parte 2)

Ana de Cleves, Catarina Howard e Catarina Parr foram as últimas consortes de Henrique VIII. © Wikimedia Commons

Mesmo após três casamentos fracassados Henrique VIII de Inglaterra (1491-1547) não desistiu de sua saga amorosa. Em 1537 sua terceira esposa Jane Seymour (c. 1508-1537) deu à luz um filho varão, mas mesmo assim isso não era uma garantia muito grande de estabilidade dinástica para a Inglaterra. Sendo assim Henrique se casaria mais três vezes.

Ana de Cleves

Alguns autores especulam que Henrique VIII de Inglaterra ficou dois anos viúvo após a morte de Jane Seymour pelo fato de verdadeiramente estar de luto por ela. Ele chorou com emoção a partida da mulher que considerava sua “verdadeira esposa”. Mas a vida continuou e por influência do Chanceler Thomas Cromwell (1485-1540) o rei começou a buscar uma nova consorte.

O novo casamento de Henrique tinha fins meramente políticos. Era essencial que a nova rainha da Inglaterra garantisse uma aliança política, diplomática e militar que deixasse o país menos isolado após o seu rompimento com o Vaticano. Neste contexto, o ducado de Cleves, na Alemanha, foi visto como um importante aliado no caso em que a França e o Sacro Império Romano decidissem atacar Henrique.

Entretanto, vaidoso e exigente Henrique também se preocupava com a aparência física da nova esposa. Para assegurar que estaria recebendo uma jovem desejável o rei enviou a Cleves o pintor Hans Holbein, o Jovem (1497-1543), para que o mesmo retratasse as suas potenciais noivas. Quando o retrato de Ana de Cleves (1515-1557) chegou a corte inglesa Henrique ficou satisfeito com o que viu e decidiu dar prosseguimento aos tramites legais para o casamento.

Porém, tudo veio por água abaixo em 1 de janeiro de 1540 quando o casal se viu pela primeira vez em Rochester. Conta-se que Henrique e os demais cavalheiros teriam abordado Ana de Cleves e suas damas de companhia surpresa. Porém, ela não demonstrou admiração pelo rei e sim espanto. Alguns questionam que isso tenha ferido o ego de Henrique impedindo que ele demonstrasse boa vontade com a nova esposa.

Para piorar a situação o estilo de vestimenta germânica era robusto e pouco lisonjeiro o que desgostava profundamente Henrique. Ana de Cleves também não possuía talentos como canto, dança e recitação de poesia. Por fim o sotaque áspero e gutural da jovem teria afastado ainda mais Henrique da esposa.

Catarina Howard

Aos 19 anos de idade Catarina Howard (c. 1523-1542) era a total antítese da rainha. A mulher a quem Henrique chamou de “joia de feminilidade” atraiu as atenções do monarca, de 49 anos, logo após a sua chegada à corte. Catarina Howard pertencia a uma das mais poderosas famílias do reino, porém havia crescido distante dos pais. Sua mãe Joyce Culpeper (c. 1480-c. 1528) faleceu quando Catarina ainda era muito jovem e seu pai Edmundo Howard (c. 1478-1539) residia mais tempo em Calais, na França, do que na Inglaterra. Desse modo Catarina cresceu sob os cuidados de Agnes Howard (c. 1477-1545), Duquesa de Norfolk, a madrasta de seu pai.

Enquanto Catarina se convertia na favorita real o seu tio, Thomas Howard (1473-1554), 3º Duque de Norfolk, aproveitava para tramar a queda de seu velho inimigo, o Chanceler Thomas Cromwell, que acabou decapitado na Torre de Londres em 28 de julho de 1540, no mesmo dia em que Henrique tomou Catarina como esposa. Nessa altura Ana de Cleves já havia se divorciado do rei. A princesa alemã era esperta o suficiente para saber que só criaria problemas para si se não cumprisse a vontade do rei.

Ana de Cleves pode ser descrita como a mais sortuda das seis esposas de Henrique VIII, pois ao contrário das demais mulheres do soberano ela saiu praticamente ilesa de seu casamento. Após o divórcio ficou acordado que ela receberia algumas propriedades, incluindo o Castelo de Hever, e o título honorífico de “Irmã do Rei”. Ela manteve contato com seus ex-enteados e fazia visitas ocasionais a corte, vivendo em tranquilidade.

Se o destino foi bondoso com Ana de Cleves ele foi cruel com Henrique VIII. Pouco depois do quinto casamento o rei descobriu que estava sendo traído por sua esposa. Inicialmente Henrique se negou a acreditar nos rumores, mas quando foi informado por Thomas Cranmer (1489-1556), Arcebispo da Cantuária, que havia ouvido testemunhos de que a rainha havia tido um comportamento inapropriado antes do casamento ficou perturbado.

Durante a investigação, que foi ordenada por Henrique, uma carta de amor escrita pelo punho de Catarina foi encontrada nos aposentos de Thomas Culpeper (c. 1514-1541), na altura o cortesão favorito do rei. Também foi descoberto que Catarina havia mantido relações sexuais com Francis Dereham (c. 1506/09-1541) durante sua estadia na casa da duquesa de Norfolk.

Tentando se defender Catarina afirmou que as relações não haviam sido consensuais. Segundo sua versão Dereham a estuprara. De nada serviu a sua defesa. Tanto Dereham quanto Culpeper foram decapitados em 10 de dezembro de 1541. Catarina recebeu a mesma sentença. Sua morte aconteceu em 13 de fevereiro de 1542. Ela foi decapitada na Torre de Londres antes de Jane Bolena (c. 1505-1542), Viscondessa de Rochford, sua dama de companhia que havia a ajudando em seus encontros amorosos.

Catarina Parr

Catarina Parr, a sexta e última esposa de Henrique VIII, não teve problemas em admitir que havia mantido relações sexuais antes de seu casamento com o rei. Afinal ela havia sido casada formalmente em duas ocasiões. A vida de Henrique VIII é cheia de contradições e Catarina Parr faz parte de uma delas. Nascida em 1512 ela recebeu este nome em homenagem a primeira esposa de Henrique, Catarina de Aragão.

Sua mãe Maud Green (1492-1531) era dama de companhia da rainha e era casada com Thomas Parr (1483-1517) que morreu de maneira precoce. Porém, Maud administrou a educação de seus filhos e as propriedades da família com competência deixando uma impressão positiva em Catarina. Também é creditado a Maud o amor pelo conhecimento que Catarina demonstrou ao longo da vida.

Aos 17 anos de idade Catarina se casou com Sir Edward Burgh (c. 1508-c. 1533), Barão de Gainsborough, ela ficou viúva logo depois e o casamento não gerou filhos. Em 1534 ela contraria segunda núpcias com John Neville, 3º Barão Latimer. Durante essa união, enquanto a Peregrinação da Graça se desenrolava, uma multidão rebelde sequestrou Catarina e seus enteados o fazendo de reféns. Felizmente Latimer conseguiu libertá-los e se livrou de qualquer associação com a rebelião.

Aos 31 anos, em 2 de março de 1543, Catarina se tornou viúva novamente. Inicialmente ela pretendia se casar com Thomas Seymour, 1º Barão Seymour de Sudeley (c. 1508-1549), irmão da falecida rainha Jane Seymour (c. 1508-1537), mas seus planos foram interrompidos pelo pedido de casamento do próprio rei, que já havia a notado. Catarina não teve outra escolha a não aceitar o pedido.

O sexto casamento de Henrique VIII teve lugar em 12 de julho no Palácio de Hampton Court. Porém, Catarina era profundamente protestante, algo que desgostava Henrique que apesar de ter promovido uma reforma na Igreja da Inglaterra ainda era, em grande parte, tradicional. A defesa violenta que Catarina fez dos dogmas reformistas quase custaram sua cabeça.

Estêvão Gardiner (1497-155), Bispo de Winchester, religioso com profundas inclinações católicas, que se tornaria chanceler durante o reinado de Maria I de Inglaterra (1516-1558), conseguiu reunir provas de que a rainha e suas damas de companhia possuíam livros considerado hereges na Inglaterra. Quando Catarina ficou sabendo do perigo que corria alegou que estava enferma e fez com que Henrique a visita-se em seus aposentos.

Durante a reunião Henrique afirmou que ela estava esquecendo o seu lugar como rainha consorte enquanto estava querendo o instruir em temas religiosos, que eram assuntos de Estado. Catarina, em resposta, disse que fomentava discussões sobre a religião reformada para adquirir conhecimento. O argumento salvou a vida de Catarina, que corria o risco de execução. Catarina finalmente pode respirar aliviada em 28 de janeiro de 1547 quando Henrique VIII finalmente faleceu.

Logo depois Catarina Parr pôs em prática os seus antigos planos e se casou com Thomas Seymour. Em dentro de pouco tempo ela estava grávida. Finalmente após muitos casamentos ela seria mãe. No dia 30 de agosto de 1548 ela deu à luz a Maria Seymour (1548-1550) no Castelo Sudeley em Gloucestershire. No entanto, a felicidade do casal durou pouco. Catarina morreu em 5 de setembro de 1548, com apenas 36 anos, de febre puerperal, decorrente do parto.

Fontes:

FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento E Silva. 2ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

EAKINS, Lara E. Anne of Cleves. God send me well to keep. Disponível em: <https://tudorhistory.org/cleves/>. Acesso em: 10 jan. 2019.

EAKINS, Lara E. Kathryn Howard. No other will than his. Disponível em: <https://tudorhistory.org/howard/>. Acesso em: 22. mai. 2019.

CR Chalmers, EJ Chaloner. 500 years later: Henry VIII, leg ulcers and the course of history. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2789029/>. Acesso em: 22. mai. 2019.

EAKINS, Lara E. Katherine Parr. To be useful in all that I do. Disponível em: <https://tudorhistory.org/parr/>. Acesso em: 22. mai. 2019.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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