Fatos chocantes sobre a prostituição na Era Vitoriana

Detalhe de “No salão da rue des Moulins”, de Henri de Toulouse-Lautrec, 1894. © Wikimedia Commons

Tida como a profissão mais antiga do mundo a prostituição esteve presente nas mais diversas culturas e civilizações ao longo dos tempos. Poucos sabem, mas na Inglaterra do século XIX grande parte das mulheres de classe baixa ofereciam serviços sexuais para sobreviver, enquanto trabalhavam em empregos secundários durante o dia levando uma espécie de vida dupla.

A prostituição na Inglaterra do século XIX

Um censo feito na Inglaterra no ano de 1851, na metade do século XIX, demostrou que havia 4% mais mulheres do que homens no país. O senso também estimou que 30% de toda a força de trabalho era composta por mulheres, porém elas ocupavam os piores postos de trabalho e em muitas ocasiões suas remunerações eram mais baixas do que aquelas recebidas pelos homens, mesmo se os dois gêneros se ocupassem das mesmas atividades.

Como resultado da disparidade salarial muitas mulheres viram na prostituição a única maneira para sobreviver. De acordo com uma edição do Lancet Medical Journal de 1887 havia cerca de 80.000 prostitutas em Londres, que era de 3% da população total de 2.360.000 milhões de pessoas. A maioria das prostitutas era de família pobre e metade eram órfãs e tinham uma idade média de 18 a 22 anos, mas muitas começaram a vender seus corpos ainda muitos cedo, por volta dos 12 anos de idade.

Nesse mercado sexual obscuro as virgens eram as mais apreciadas. Devido à falta de atividade sexual se relacionar com uma virgem, apesar de ser mais caro, significava para um homem uma maneira segura de se prevenir de doenças venéreas, num período onde as curas para tais enfermidades eram inexistentes e os tratamentos, na maioria das vezes, sofridos e ineficazes.

Para entendemos melhor esse quadro de oferta e procura tempos que tem em mente que no século XIX as doenças venéreas eram tão letais que matavam uma parte considerável dos homens. Por vezes aqueles que sobreviviam as enfermidades sofriam com sequelas terríveis ao ponto de se tornarem incapazes de se alistarem no exército ou marinha. Em 1864 o Parlamento aprovou a Lei de Doenças Contagiosas que permitia que policiais prendessem mulheres suspeitas de serem prostituta em locais próximas a postos do exército e bases navais.

Sendo assim qualquer mulher suspeita de ter uma infecção sexualmente transmissível que estava próxima dos locais citados era forçada a passar por um exame vaginal. Os exames se tornaram tão comuns que as mulheres passaram a chamar o espéculo, instrumento usado no procedimento, de pênis do governo. Se a mulher estivesse infectada, ela seria forçada a ficar hospitalizada por até três meses.

Mas para a surpresa de muitos a saúde das prostitutas (fora as doenças venéreas) era geralmente melhor do que a saúde de outras mulheres de sua classe, em especial às operarias, devido as jornadas mais curtas de trabalho. Porém, havia também aquelas mulheres que transitavam entre os dois mundos. Devido aos baixos salários muitas mulheres que trabalhavam durante o dia em fábricas saiam às ruas à noite para se prostituírem. Normalmente se pintavam com pó e vestiam roupas ousadas para melhorar seus “atrativos” físicos. Algumas operárias se prostituíam de boa vontade, pois era uma maneira rápida de complementar a renda. Em outros casos, o marido atuava como um cafetão, pressionando ou até obrigando sua esposa a sair as ruas em busca de clientes.

Ideias em torno da sexualidade

No século XIX as mulheres eram vistas como uma espécie de “Anjo da Casa” e não deveriam realizar atos que fossem sexualmente gratificantes. O ideal de uma mulher perfeita na concepção vitoriana era que a mesma fosse assexuada. Na mentalidade da época o sexo estava essencialmente destinado a procriação e deveria ser feito com pouca frequência. Qualquer tipo de desejo por sexo ou excitação feminina era vista como antinatural e até mesmo como alguma perturbação psiquiátrica.

Condições socioeconômicas

Na Inglaterra vitoriana as normas sociais e legais estimularam a proliferação da prostituição como único meio de subsistência feminina numa situação de crise econômica extrema. Isso acontecia porque os homens eram os receptores legais dos bens de parentes falecidos. Além disso as leis de herança declaravam que a mulher só podia herdar o dinheiro que lhe fora destinado por meio do casamento.

Sendo assim maioria das mulheres de classe baixa se viam em maus lençóis quando seus maridos morriam inesperadamente e as dividas começavam a crescer. Com pouco dinheiro e sem qualificação profissional que as tornassem aptas para o mercado de trabalho ela acabavam se tornando prostitutas. Em contrapartida as mulheres de classe alta que ficavam viúvas e com dividas se tornaram amantes de homens abastados que conhecerem durante os seus matrimônios. Se dessem sorte podiam continuar desfrutando de seus estilos de vida anteriores ou no mínimo sobreviverem dignamente.

A mulher no mercado de trabalho

Como já citamos as condições das trabalhadoras inglesas do século XIX eram realmente difíceis. Quando uma mulher dava a sorte de arranjar um emprego eles eram repletos de armadilhas e perigos. Basicamente haviam oito cargos que elas podiam ocupar: guarda-livros; tutora, costureira, operária, cozinheira, empregada doméstica e vendedora ambulante e por fim governanta.

O pagamento, na maioria das vezes, era muito baixo em todas as profissões e no caso das governantes as vezes não haveria salário algum. As mulheres apenas tinham um pequeno quarto para dormir e recebiam alimentação. Mesmo algumas mulheres instruídas que aprenderam habilidades de alto nível na época como digitação e taquigrafia não poderiam ganhar o suficiente para criar seus filhos na ausência de seus companheiros.

As prostitutas voluntárias

Embora se tenha em mente que a necessidade econômica extrema tenha sido uma das principais razões pelas quais as mulheres se prostituíam no século XIX também houveram aquelas que entraram na profissão devido a remuneração comparativamente lucrativa por pouco trabalho. A prostituição era a única profissão na qual as mulheres podiam receber uma boa quantia em dinheiro e as horas de trabalho eram mais baixas. Se a trabalhadora em questão fosse bonita e talentosa poderia ganhar a independência financeira total.

Hierarquia

Assim como tudo na Inglaterra vitoriana a prostituição também pode ser dividida em classes. As mais conhecidas são:

Prostitutas de classe baixa:

Mulheres que eram forçadas a dormir com os homens que a madame, a dona do bordel onde trabalhavam, selecionava para elas. As condições de trabalho e de vida também eram pobres.

Prostitutas de classe média:

Mulheres independentes e que tinham seus próprios apartamentos. Não compartilhavam seus lucros com nenhuma madame. Em contrapartida não recebiam a proteção da comunidade de bordéis ou os exames disponíveis nos mesmos.

Prostitutas de classe alta:

Mulheres bonitas que prestavam serviços para homens da alta sociedade como aristocratas, industriais e políticos. Tinham conhecimento de etiqueta, desenho, dança e tocavam piano. Eram alfabetizadas sabendo ler e escrever.

Centros de reabilitação

Embora a prostituição fosse legal prisões eram efetuadas por causa da concentração de prostitutas nas ruas afim de evitar desordem pública. As prostitutas eram enviadas para prisões ou reformatórios que, por sua vez, eram projetados para reabilitá-las. Os reformatórios eram dirigidos por religiosos e tinham regras rígidas. No local as mulheres eram encorajadas a pedir perdão a Deus pelos seus pecados e tinham que seguir uma rotina rígida acompanhada de trabalho duro.

O mais famoso reformatório foi o Urania Cottage. Criado em 1874 pelo escritor Charles Dickens (1812-1870) e pela filantropa Angela Georgina Burdett-Coutts (1814-1906), 1° Baronesa de Burdett-Coutts, ele tinha por missão ensinar para as ex-prostitutas atividades que elas poderiam usar no mercado de trabalho. Vale também ressaltar que Charles Dickens, através de suas obras ‘David Copperfield’ (1850) e ‘Oliver Twist’ (1839), ajudou o público vitoriano a simpatizar com as prostitutas em um nível humano as representando como vítimas das circunstâncias nas quais se encontravam.

Por mais incrível que pareça muitos vitorianos acreditavam que a maioria das prostitutas se encontravam na profissão por suas libidos serem descontroladas. Segundo a sua visão as trabalhadoras sexuais estavam atrás de apenas satisfazerem os seus desejos sexuais, sendo assim não seriam dignas de receberem empatia ou qualquer assistência governamental, porém para as centenas de prostitutas que morreram antes ou depois das atividades macabras de Jack não houve justiça.

Durante grande parte do século XIX corpos de prostitutas frequentemente eram encontrados boiando no Rio Tâmisa. Às vezes os cadáveres eram identificados, mas com frequência permaneciam sem identificação e as circunstâncias de suas mortes não eram nunca esclarecidas. Rechaçadas pela sociedade, esquecidas pelos familiares e vistas como imorais as mortes dessas mulheres não eram lamentadas e ninguém realmente sentia falta delas. De qualquer forma sua existência lamentável chegara ao fim.

Esta matéria deu origem ao seguinte vídeo:

Fontes:

Prostitution in Victorian England – Presentation Page. Disponível em: <https://revisitingdickens.wordpress.com/prostitution-victorian/>. Acesso em: 3. abr. 2019.

Victorian Prostitution. Disponível em: <https://sites.udel.edu/britlitwiki/victorian-prostitution/>. Acesso em: 3. abr. 2019.

WINTERS, Riley. The Fallen Women: Were Victorian Prostitutes Really Fallen?. Disponível em: <https://www.ancient-origins.net/history-ancient-traditions/fallen-women-were-victorian-prostitutes-really-fallen-006803>. Acesso em: 4. abr. 2019.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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