Herodes, o Grande e Mariana I: o amor que se transformou em obsessão

Detalhe de “Mariana deixando o tribunal de Herodes”, obra de John William Waterhouse, 1887. © Wikimedia Commons

Herodes, o Grande (74 a.C.-4 a.C.) é mais conhecido por ter ordenado o Massacre dos Inocentes, de acordo com o capítulo 2 do Evangelho de Mateus. Porém, ele executou outras pessoas além de bebês inocentes. Uma de suas vítimas foi sua própria esposa, a Rainha Mariana I, que ele dizia ser o grande amor de sua vida.

Herodes se torna rei da Judeia

O casamento de Herodes, o Grande com Mariana I aconteceu em 38 a.C. A herdeira hasmoneana de 14 anos de idade foi oferecida por sua mãe, Alexandra, a Maccabee, como noiva a Herodes numa tentativa de salvaguardar a Dinastia Hasmoneana em meios aos conflitos por poder na Judeia do século I a.C. Apenas dois anos antes uma guerra civil havia atingindo a região. Por volta de 40 a.C. o Rei Hircano II (a.C. 103 a.C.-30 a.C.) viu seu trono ser usurpado por Antígono II Matatias (?-37 a.C.). Herodes e seu irmão Phasael (?-40 a.C.), que eram generais, se posicionaram ao lado de Hircano II, mas quando Herodes foi buscar ajuda em Roma, em nome de seu líder, ele foi nomeado o novo rei da Judeia.

De acordo com a obra ‘A História dos Judeus’, escrita por Flávio Josefo (38-a.C. 100 a.C.), na ocasião Marco Valério Messala Corvino (64 a.C.–8 d.C) e Lúcio Semprônio Atratino (?-7 d.C.) convocaram o Senado Romano e apresentaram Herodes aos políticos como uma solução viável para pacificar a província elogiando “[…] grandemente os serviços que seu pai e ele haviam prestado ao povo romano […]”. O Segundo Triunvirato, composto por Augusto (63 a.C.-14 d.C.), Marco Antônio (83 a.C.-30 a.C.) e Marco Emílio Lépido (90 a.C.-13 a.C.), que guiava os destinos de Roma após o assassinato de Júlio César (100 a.C.-44 a.C.) também aceitaram a proposta e “[…] levaram Herodes em sua companhia e, seguidos pelos cônsules e senadores, foram ao Capitólio, onde ofereceram sacrifícios e colocaram como num sagrado depósito o decreto do senado.”

Apesar de Herodes ter se tornado rei dos judeus os problemas não haviam acabado. Quando Herodes contraiu matrimônio com Mariana, uma guerra civil entre ele e Antígono II Matatias estava em curso. Antígono liderou as forças judaicas contra Herodes em uma tentativa de diminuir a influência romana na província e recuperar seu trono. Apesar do casamento de Herodes e Mariana ser um movimento político estratégico para solidificar a posição do novo monarca, dada a importância da família de Mariana para o povo judeu, Herodes apaixonou-se profundamente pela esposa. Porém, o sentimento não foi recíproco.

Casamento conturbado com Mariana I

Segundo o que se conta Mariana I não simpatizava com o marido, mas o evento que sinalizou o começo do desprezo da jovem pelo rei foi quando o mesmo mandou matar afogado o seu irmão Aristóbulo (53a.C.-36 a.C.), que fora nomeado Sumo Sacerdote do Templo de Jerusalém. Herodes havia cedido o cargo ao jovem por pressão da sogra que havia requisitado a interseção de Cleópatra (69a.C.-30 a.C.), Rainha do Egito. Herodes ordenou a morte do cunhado porque temia que uma pessoa tão ilustre e amada pelo povo quanto Aristóbulo acabasse conspirando para tomar o seu trono.

Herodes ainda tentou disfarçar o assassinato fazendo o evento parecer um afogamento banal durante o banho, mas o cenário não convenceu ninguém. Alexandra então procurou secretamente Marco Antônio e Cleópatra, pedindo justiça pela morte do filho. Sendo assim, apesar de sua amizade ao longo da vida com Herodes o general romano convocou o rei da Judeia a Roma para um julgamento. Antes de partir Herodes nomeou José, seu cunhado e tesoureiro, como regente em sua ausência e lhe deu uma ordem: ele deveria vigiar Mariana e executá-la se ele fosse condenado à morte, pois não poderia suportar a ideia de Mariana casar-se com outro homem após sua morte.

Em dentro de pouco tempo a rainha acabou descobrindo a ordem. Não sabemos se José deixou a informação escapar de propósito ou não, mas de qualquer maneira a irmã de Herodes, Salomé I (65 a.C.-1o d.C.), e sua mãe Cypros, usaram essa revelação para convencer o rei que José e Mariana eram amantes. Salomé e Cypros nutriam uma profunda antipatia por Mariana pelo fato dela ser muito altiva. Também se conta que numa ocasião Mariana humilhou a sogra e a cunhada diante da corte devido ao seu “baixo nascimento”. Além disso Antígono II Matatias, que um membro da família de Mariana, ordenou, durante a guerra civil, a execução do irmão do rei.

Suspeitas de traição e execuções

Quando Herodes regressou de Roma José foi executado e a relação entre Herodes, o Grande e Mariana I se tornou tensa. Quando Mariana foi questionada por Herodes sobre a natureza de sua relação com o regente a rainha jurou que havia sido fiel ao marido, mas o recriminou pela ordem dada, de modo que Herodes teve um ataque de raiva. Tempos depois quando Herodes regressou de uma viagem ao Egito, acompanhando do agora Imperador Augusto, que havia vencido Marco Antônio e Cleópatra na Batalha Naval de Accio, foi recebido com frieza pela esposa, que havia ficando sob vigilância no palácio mais uma vez.

Com o passar do tempo Herodes, que não era um homem muito paciente, não era mais capaz de lidar com a aversão que Mariana demonstrava sentir por ele. Apesar de Mariana dar à luz cinco filhos, incluindo três varões e duas meninas, a rainha a partir de então se negou a manter relações sexuais com o marido. Diante de tal situação o rei não ocultava sua irritação e Mariana, talvez por excessiva autoconfiança, não dissimulava mais os seus sentimentos. As brigas entre o casal eram constantes e Mariana desprezava o marido e sua família pelo fato dos mesmos não pertencerem à realeza como ela.

Quando Salomé I foi informada das discussões decidiu tramar uma conspiração para tirar Mariana de cena. Ela enviou até o rei um criado que afirmou que a Mariana pretendia envenenar sua bebida. Herodes, que já era um homem desconfiado, ficou transtornado e ordenou que os criados da rainha fossem torturados. Apesar de não obter confissões que delatassem uma conspiração palaciana Herodes decidiu que já estava farto daquela situação e ordenou que Mariana fosse submetida a um julgamento. Durante todo o processo Mariana parecia calma e permaneceu a maior parte do tempo em silêncio. Ela foi considerada culpada de alta traição.

No início Herodes decretou uma prisão domiciliar, mas logo mudou de ideia, temendo uma revolta do povo, e a condenou à morte. Mariana foi decapitada aos 27 anos de idade. Por sua vez, Alexandra temendo o mesmo destino da filha a acusou de conspiração diante de todos, dizendo que ela era má, ingrata e indigna do amor que o rei lhe dedicara. Logo depois ela também foi executada. Apesar da partida de Mariana, seus dois filhos homens que sobreviveram a infância, os Príncipes Alexandre (35 a.C.-7 d.C.) e Aristóbulo  (31 a.C.-7 a.C.), desfrutaram de um tremendo apoio popular mas, por volta do ano 7 a.C., Herodes conseguiu que ambos fossem executados por estrangulamento. Ele suspeitava de outra conspiração para lhe tomar o trono.


Esta matéria deu origem ao seguinte vídeo:


Fontes:

The Virgin Birth (Part One): Joseph and Mariamne. Disponível em: <https://timsteppingout.wordpress.com/2016/12/14/joseph-and-mariamne-part-one/>. Acesso em: 23. mai. 2019.

JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus: De Abraão à queda de Jerusalém. Tradução de Vicente Pedroso. 4° ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2004.

Herodes el Grande, el rey que escandalizó a los judíos. Disponível em <https://www.nationalgeographic.com.es/historia/grandes-reportajes/herodes-el-grande-el-rey-que-escandalizo-a-los-judios_6311>. Acesso em: 16. mai. 2019.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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