‘Novo Mundo’: quem foi Dona Carlota Joaquina na vida real?

D. Carlota Joaquina de Espanha (Débora Olivieri) em Novo Mundo. Retrato de D. Carlota Joaquina, por Domingos António de Sequeira, c. 1802-06. © MASP/Rede Globo

Poucas mulheres marcaram tanto o seu tempo quanto Dona Carlota Joaquina de Espanha (1775-1830). Inteligente, briguenta e teimosa ela foi uma das figuras femininas mais difamadas da história moderna. Personagem da telenovela ‘Novo Mundo’, produzida e exibida pela Rede Globo, saiba quem foi Dona Carlota Joaquina na vida real.

Primeiros anos e infância

Dona Carlota Joaquina de Bourbon nasceu em 25 de abril de 1775, no Palácio Real de Aranjuez, na Espanha. Ela foi a primogênita dos inúmeros filhos de Carlos IV de Espanha (1748-1819) com sua esposa Maria Luísa de Parma (1751-1819). Dona Carlota Carlota foi a neta preferida de seu avô, o Rei Carlos III de Espanha (1716-1788), que a encheu de mimos.

Dona Carlota recebeu uma rigorosa educação aos moldes católicos. Na qualidade de Infanta de Espanha, título do qual ela se orgulhava imensamente, foi preparada para o ambiente o cortesão na mesma medida que seu intelecto era fomentado.

A infância da neta preferida do Rei Carlos III foi curta devido ao seu matrimônio. Aos 10 anos de idade, em 8 de maio de 1785, Dona Carlota foi casada por procuração, com Dom João de Bragança (1767-1826), como era hábito nas cortes europeias. A infanta espanhola tinha 10 anos, enquanto o príncipe português contava com 17. O casamento era uma aliança política cujo o objetivo era manter a estabilidade na Península Ibérica e evitar uma nova união entre Portugal e Espanha.

Contudo, antes de partir Dona Carlota Joaquina foi submetida a uma série de exames públicos diante dos embaixadores portugueses para comprovar o seu grau de preparo educacional. Foram feitas a infanta perguntas sobre religião, geografia, história, gramática e demais assuntos. O seu grau de conhecimento foi dito como pródigo impressionando a todos.

Casamento e vida na corte portuguesa

Dona Carlota se saiu muito bem nos exames teóricos e suas habilidades em dança, canto, etiqueta, equitação e pintura foram postas em prática e deixam todos assombrados. Conteúdo, o povo português se mostrou pouco alegre durante as comemorações do casamento e a pequena infanta e sua comitiva foram recebidos com receio.

A pequena infanta espanhola chegou a Portugal em maio de 1785. Devido a sua escassa idade o casamento só foi consumado seis anos mais tarde, quando a princesa completou 15 anos. Enquanto isso ela dividiu o seu tempo entre estudos e brincadeiras no Palácio de Queluz.

Dom João VI se torna regente de Portugal e conspirações

A nova princesa de Portugal logo revelou-se uma criança impossível. A única pessoa que conseguia impor algum limite ao seu comportamento impertinente era a sua sogra, a Rainha Dona Maria I de Portugal (1734-1816) que, em 1751, foi declarada insana. A partir de então Dom João assumiu a direção dos assuntos do Estado, mesmo não se sentindo preparado para isso.

Com a chegada oficial de Dom João à regência a relação entre ele e sua esposa se deteriorou. A primeira conspiração que Dona Carlota Joaquina participou se deu em 1805, quando ela tentou destronar o marido e assumir ela própria a regência de Portugal. O plano era ela ser aclamada regente durante um beija-mão no dia de seu aniversário em Queluz.

Neste período circulavam boatos de que Dom João VI estaria enlouquecendo da mesma maneira que sua mãe. O regente, que estava recolhido em Samora Correia, descobriu o golpe a tempo, graças ao frade de Mafra Gregório de Nossa Senhora, que recebeu notícias da capital e alertou o regente.

Apesar de sua fama imerecida de bonachão e indeciso Dom João agiu rápido nesse episódio. Ele puniu o grupo de nobres envolvidos e passou a viver separado da mulher, que fixou residência no Palácio de Queluz, enquanto ele vivia em Mafra. Na ocasião Dona Carlota Joaquina somente não foi presa e condenada por alta traição porque o cônjuge desejava evitar um escândalo público.

Mesmo com o fracasso da primeira conspiração Dona Carlota Joaquina voltou a tramar contra o marido tempos depois. Sabemos, que por meio de cartas dirigidas ao seu pai, ela também incitou a Espanha a invadir Portugal coma  finalidade de anexar o país. No entanto, isso não chegou a se concretizar.

Vida no Brasil

Se a Espanha não anexou Portugal a França o faria. Em novembro de 1808 as tropas do Imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821) invadiram o país pelo fato do mesmo ano ter abandonada a sua aliança com a Inglaterra e aderido o Bloqueio Continental imposto pela França.

Sem possibilidade defesa militar imediata Dom João tomou uma decisão radical. Ele decidiu se refugiar, com sua corte inteira, no Brasil a sua mais rica colônia. Na época Dona Carlota não aprovou a ideia, mas embarcou em novembro de 1807, na frota que a levaria ao Novo Mundo.

Mesmo em terras tupiniquins Dona Carlota não parou de tramar e tentou viajar para Buenos Aires, a capital da atual Argentina, onde pretendia ser aclamada regente das colônias espanholas na América Latina após a deposição de seu irmão, o Rei Fernando VII de Espanha (1784-1833). Porém, mais uma vez Dom João VI abortou os seus planos impedindo que ela viajasse até a região.

Também correram boatos que, em 1816, Dona Carlota Joaquina teria tentando voltar para a Europa a bordo do navio que transportava duas filhas suas, as Princesas Dona Maria Isabel de Bragança (1797-1818) e Dona Maria Francisca de Assis de Bragança (1800-1834), para Madrid, onde elas iriam contrair matrimônio. Não sabemos se isso, de fato, procede, mas sabemos que neste mesmo ano, em 20 de março, ela se tornou Rainha Consorte de Portugal, após a morte de sua sogra.

Rainha de Portugal e mais mazelas

Em abril de 1821 Dona Carlota Joaquina finalmente viu o seu grande desejo se cumprir. Ela retornou a Portugal com a família, mas apenas para ser confinada no Palácio do Ramalhão, distante de Lisboa e do poder. Absolutista convicta a rainha contrariando a exigência das Cortes Portuguesas, que governavam Portugal, e as orientações do marido, se recusou assinar a Constituição de 1822 que estabelecia um governo liberal e  democrático no país.

Mesmo estando isolada, privada do título de rainha e com pouco recursos, Dona Carlota Joaquina não se deu por vencida e em 1824 entrou em ação novamente. Ela conspirou com os absolutistas para fazer o seu filho predileto, o Príncipe Dom Miguel (1801-1866), rei de Portugal no lugar do marido. À frente de um grupo de militares o príncipe tentou dar um golpe de Estado, mas fracassou.

Tudo veio água abaixo quando Dom João com a ajuda de diplomatas e com o apoio dos britânicos emitiu uma série de medidas, a bordo do navio “HMS Windsor Castle”, que desbarataram a conspiração.

Dois anos depois, em 10 de março de 1826, o monarca português faleceu em meio a acessos de náuseas e vômitos. Rumores na época falavam em envenenamento por arsênico ordenado pela rainha, que havia sido recluída em Queluz, enquanto Dom Miguel vivia exilado em Viena, na Áustria.

Não sabemos se Dona Carlota Joaquina realmente envenenou Dom João porém, sabemos que ela esteve envolvida em mais uma conspiração após a morte do marido. Contrariando o testamento do falecido rei ela tentou aclamar Dom Miguel como regente em detrimento de sua filha, a Princesa Dona Isabel Maria de Bragança (1801-1876). A rainha viúva perdeu a batalha mais uma vez.

Finalmente em 7 de janeiro de 1830, a mestre da intriga e amante do poder faleceu, aos 54 anos de idade, no Palácio de Queluz. Segundo a versão oficial Dona Carlota Joaquina foi vítima, em seus últimos meses de vida, de um câncer de útero. Porém, há uma lenda que afirma que devido ao isolamento ela teria cometido suicídio depositando arsênico em seu chá.

Filhos e legado

Num período de treze anos Dona Carlota Joaquina deu à luz nove filhos. Há suspeitas de que ela teria mantido casos extraconjugais, mas não existe, de fato, nenhuma comprovação de que a rainha teria sido infiel ao marido. Atualmente pensa-se que tais rumores tenham sido espalhados por inimigos políticos para manchar a sua reputação.

Os restos mortais da rainha, que morreu esquecida por todos e atolada em dívidas, descansam no Panteão Real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Mesmo estando morta há mais de cem anos D. Carlota Joaquina segue sendo uma das personagens mais controversas do Brasil e de Portugal não deixando ninguém indiferente.

Fontes:

Carlota Joaquina de Borbón, infanta, reina y emperatriz. Disponível em: <https://www.hola.com/realeza/2015031077333/carlota-joaquina-de-borbon-infanta-reina-emperatriz/>. Acesso em: 30 mar. 2019.

PEDREIRA, Jorge. COSTA, Fernando Dores. D. João VI: um príncipe entre dois continentes. 1° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

GOMES, Laurentino. 1808. Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil é um livro de história do Brasil e Portugal. 1° ed. São Paulo: Globo, 2007.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° ed. São Paulo: Leya Brasil, 2015.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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