Anita Garibaldi, paixão e luta (1821-1849)

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Detalhe do retrato de Anita Garibaldi, por artista desconhecido. Coleção privada. (Foto de Leemage/Getty Images)

Anita Garibaldi é uma das personagens mais expressivas da história do Brasil e ao longo de sua curta vida participou de três decisivos conflitos militares que mudaram o destino de povos e nações. Desafiando as convenções sociais impostas as mulheres de sua época Anita Garibaldi é até os dias de hoje tida como um ícone de valentia e ousadia.

Nascimento e primeiros anos

Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu no dia 30 de agosto de 1821. Segundo alguns pesquisadores teria nascido em Lages, segundo outros pesquisadores, teria nascido em Laguna, que é a opção mais provável. A própria Anita declarou-se natural de Laguna, quando oficializou sua união com Giuseppe Garibaldi em março de 1842 em Montevidéu, no Uruguai. O próprio Garibaldi afirmou em seu livro de memórias que “aquela incomparável mulher, filha de honesta família, nasceu na localidade de Morrinhos, pertencente a cidade de Laguna, na Província de Santa Catarina, no Brasil…

Essa polêmica acerca de seu local de nascimento se deu ao fato de que:

Todos os livros de atos da igreja de Santo Antonio dos Anjos da Laguna onde foram registrados os atos religiosos encontram-se arquivados e em perfeitas condições, faltando tão somente o que compreende os registros do período compreendido entre 1820 a 1824, abrangendo o ano que Anita nasceu, resultando perdido, portanto, o provável registro de seu batismo (CADORIN, 2000, P. 26).

178 anos após o nascimento de nossa biografada, a Justiça de Laguna reconheceu a naturalidade lagunense de Anita autorizando o seu registro tardio. Isso foi feito por iniciativa de Aldício Cadorin, cuja obra Anita, a guerreira das repúblicas, usamos para embasar o presente artigo. Essa medida foi tomada:

Para evitar a proliferação da deturpação do verdadeiro local e data de nascimento, associado ainda à necessidade de oficializar-se o fato histórico, que é admitido pela maioria dos mais importantes biógrafos e historiadores da epopéia garibaldina, e para encerrar a polêmica gestada pela imprensa e populares de cada uma das cidades que disputavam sua naturalidade (CADORIN, 2000, P. 30).

Anita foi a terceira dos dez filhos de Bento Ribeiro da Silva, que era tropeiro e sua esposa Maria Antônia de Jesus Antunes, e logo que veio ao mundo, foi carinhosamente chamada de “Aninha”. “Pode-se afirmar que, quer seja pelos sobrenomes de seus antepassados, quer seja pela conhecida origem lusa de sua mãe, Anita era descendente de portugueses que já estavam radicados desde muitos anos no Brasil” (CADORIN, 2000, P. 20).

Primeiro casamento

Pouco sabemos sobre a infância daquela que viria a se tornar a Heroína dos Dois Mundos. Mas temos conhecimento que Anita e sua família viveram em uma rústica residência, de pau-a-pique em Morrinhos e que seu pai estava ausente do lar na maior parte do tempo, em virtude de suas prolongadas viagens. Entre 1833 e 1835 deduz-se que Bento tenha falecido deixando a família, que já era pobre, em uma situação econômica bastante delicada.

Assim a mãe de Anita começou a buscar trabalho como empregada doméstica e transferiu-se com sua família para Carniça, localidade hoje conhecida como Campos Verdes, nos arredores de Laguna. Enquanto a mãe provia o sustento familiar, Anita como uma das irmãs mais velhas ainda sob os cuidados maternos se encarregava da tarefa de cuidar dos irmãos e da casa e de preparar as refeições. Essa situação se prolongou até 1835, quando contraiu matrimônio aos 14 anos de idade com o sapateiro Manuel Duarte de Aguiar.

Com quase o dobro da idade da pretendida esposa, possuía ele estatura bastante alta, era magro, de pouca conversa e introvertido, o que fez Aninha resistir a idéia do casamento, opondo-se, inicialmente. Mas a resistência findou quando a convenceram-na de que esta união também oferecia uma vida mais digna à sua mãe e irmãos, que também passariam a serem amparados, pondo fim a vida de privações (CADORIN, 2000, P. 49).

Algumas semanas após o casamento eclodiu a Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, o movimento armado logo tomou um caráter separatista republicano. Nessa altura Anita já demonstrava ser dona de um espírito intrépido, amava a natureza, a vida livre, gostava de conhecer lugares e tinha uma enorme curiosidade em relação a tudo. Anita tinha o costume de banhar-se no mar, o que não era permitido na época e cavalgava livremente, o que também não era comum por ser mulher e por isso foi alvo de fofocas e mexericos.

A semente republicana e liberal. Encontro com Garibaldi

Se Anita por si só era indômita em questões ideológicas e consequentemente políticas, tendo em vista que ideologia e política estão inexoravelmente ligadas, foi influenciada por seu tio paterno Antonio da Silva Ribeiro, que também era tropeiro. Antonio era uma espécie de ativista político, precursor das ideais de igualdades sociais e apoiava fortemente a República. Sem sombra de dúvida os sermões e pregações dele despertaram a vocação libertária e republicana da sobrinha.

Em 1839 o território de Santa Catarina foi assediado e controlado pelos rebeldes e Anita foi abandonada pelo marido que alistou-se no exército imperial. Giuseppe Garibaldi, um aventureiro italiano que era comandante da marinha Farroupilha logo ocuparia o seu lugar. Anita o conheceu enquanto assistia ao Te Deum, na Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos de Laguna. Por estranha coincidência aquele lugar foi palco da cerimônia de seu casamento.

Dias depois encontraram-se por acidente na casa do padrinho de Anita, na Barra da Laguna, onde hoje é um bairro conhecido como Ponta da Barra. Outros encontros sucederam-se. Estes eram respeitosos e discretos, mas logo o fogo da paixão tomou conta do casal. Nascia assim um grande amor. No dia 23 de agosto de 1839 Anita embarcou no navio Rio Pardo. A partir de então seguiria Garibaldi onde quer que ele fosse.

Luta na Revolução Farroupilha

A jovem de 18 anos não possuía treinamento militar, mas era movida por ideais e disposta a lutar. Ansiava pelos combates. Enquanto estava no mar, Garibaldi treinou a companheira. Aninha agora era Anita. Seu batismo de fogo aconteceu na Batalha Naval em Imbituba em 5 de novembro. Apenas dez dias depois Anita voltou a participar de outra batalha, a batalha naval de Laguna. Garibaldi pediu a Anita que ela desembarcasse para preservar sua integridade física, mas de nada adiantaram os seus argumentos. Anita na ocasião acabou sendo levemente atingida por um tiro de canhão ao lado de outros dois marinheiros, mas logo recuperou os sentidos e voltou a luta.

Em janeiro do ano seguinte a sorte abandonou a guerreira na Batalha de Curitibanos, na qual foi feita prisioneira. Na ocasião ela era responsável pela guarda e transporte da munição. Tentando evitar sua captura Anita defendeu-se bravamente ao ponto de um  tiro arrancar o seu chapéu e raspar sua cabeça. Tudo foi em vão, no entanto, Anita logo virou o jogo e conseguiu fugir aproveitando um momento de distração dos guardas. Ela encontrou-se com Garibaldi em Vacaria oito dias depois.

Nove meses depois, em 16 de setembro, Anita deu à luz a Menotti, o seu primeiro filho, no município de Mostardas. Doze dias após o parto ela se viu obrigada a fugir da casa da família Costa, onde estava abrigada, pois estava sendo caçada pelo exército imperial comandado por Francisco Pedro de Abreu, conhecido como Moringue. Anita embrenhou-se no matagal e ali permaneceu por quatro dias até ser encontrada por Giuseppe. Durante esse período alimentou seu filho com leite materno e a si própria com raízes e frutos silvestres.

A última façanha de Anita em terras brasileiras ao lado dos farrapos foi a travessia da Serra Geral. “Pelos seus acidentes geográficos, formadas por intermináveis sobe e desce de montanhas e vales com constantes travessias de riachos e de rios, acrescido com o intenso frio e chuvas que desciam copiosamente, a ousada travessia, que deveria levar três ou no máximo quatro dias, levou nove intermináveis dias” (CADORIN, 2000, P. 183).

Em 1841 Garibaldi deixou o exército republicano. A Revolução Farroupilha vivia um momento extremamente difícil. Nesta altura algumas conjecturas tendo em vista a assinatura de um tratado de paz honroso para ambas as partes já tinham sidos abordadas, mas a luta prosseguiria por mais quatro anos, dos quais Anita e Garibaldi não participariam. Partiram rumo a Montevidéu com 900 cabeças de bois, das quais apenas metade chegou.

Sete anos de calmaria

Anita e o marido viveram numa casa que foi alugada nas proximidades do Porto, hoje conhecida como rua 25 de Maio. Enquanto Anita se dedicava ao lar e ao trabalho informal de costureira Giuseppe se ocupou de prover o sustento de sua família. Foi lecionar história, caligrafia e matemática em um colégio particular. Também exerceu a atividade de contador no porto local.

Nos 6 anos e meio que residiu no Uruguai, Anita revelou-se mãe, expandiu e aprofundou seus conhecimentos sobre geografia, história, línguas e principalmente, teve oportunidades de ouvir e participar de inúmeros debates e colóquios sobre as doutrinas e os movimentos libertários que eclodiam no mundo inteiro, contra os regimes discricionários e despóticos. Confidente da esposa de Frutuoso Rivera, o Presidente do Uruguai, teve oportunidade de relacionar-se socialmente com as mais importantes e influentes famílias uruguaias, experiência que até então ainda não tinha tido (CADORIN, 2000, P. 217).

Neste período o Uruguai era país dividido em duas correntes, que digladiavam-se: uma era liderada pelo general Oribe, que tinha o apoio do ditador argentino Manuel de Rosas, que pretendia deter a hegemonia do estuário da Bacia do Prata, e a outra era liderada pelo General Frutuoso Rivera, que havia sido eleito presidente do Uruguai, e que detinha o domínio e o governo de Montevidéu.

Em fins de 1842, Bento Gonçalves, o líder farroupilha, até mesmo chegou a participar de uma reunião com os líderes da Banda Oriental. “A proposta discutida era a formação de uma confederação de estados livres e soberanos, dos quais participariam o Uruguai, o Rio Grande do Sul e as províncias argentinas de Corrientes e Santa Fé” (CADORIN, 2000, P. 195). Isso era péssimo para o Governo Imperial, pois fortaleceria a causa farroupilha.

Pelo fato de Garibaldi ter pego em armas contra o Império Brasileiro e pela possibilidade de ter os seus conhecimentos usadas na defesa naval de Montevidéu, seus passos passaram a ser seguidos. O inevitável acabou acontecendo. Garibaldi reconciliou-se com o Rio de Janeiro. Ele recebeu anistia mediante o compromisso de não mais envolver-se na rebelião do sul.

Isso, no entanto, não o impediu de envolver-se nos assuntos políticos uruguaios. Foi nomeado coronel do exército e comandante da Esquadra Oriental. O revolucionário voltava a ativa, mas Anita não. A responsabilidade materna a impedia. Os dois estreitaram os laços oficializando sua união em 26 de março de 1842 na Igreja de S. Bernardino, que foi demolida posteriormente. Em novembro do ano seguinte nasceu Rosita, a segunda filha do casal. Ela seria seguida por mais duas crianças: Teresa, nascida em fevereiro de 1845 e Ricciotti nascido em fevereiro de 1847.

Enquanto Giuseppe protagonizava grandes e perigosas batalhas, Anita vivia sozinha com seus filhos em sua casa em Montevidéu. A jovem vivia entre caos da guerra e a perigosa promiscuidade da cidade sem notícias do cônjuge. Sabemos que Anita não participou de nenhuma batalha nesse período, a não ser na de Salto, mas como enfermeira. Há pouco tempo Rosita havia falecido em decorrência de uma incontrolável infeção de garganta, que lhe causou falta de respiração.

Quer em água ou em terra, dentre as principais vitórias da Legião italiana, destacaram-se as empreendidas em Cerro, Martin Garcia, Rincon, Las Três Cruces, Vizcaino, Gualeguaichu, Paisandú, Colonia, Passo de la Boyada, Santo Antônio de Salto e outras mais. A mais significativa, porém, foi a de Salto, onde os minoritários 190 homens de Garibaldi, derrotaram 1500 adversários, numa proporção de um para cada sete inimigos […] (CADORIN, 2000, P. 208).

Anita no Velho Mundo encontra batalhas e … sua morte

Em dentro de pouco tempo chegaram a Montevidéu notícias da Itália. Os exilados já poderiam voltar e os que estavam proscritos por suas ideias, teriam, então a oportunidade de colocar-se à disposição da causa da Unificação Italiana, que estava ressurgindo. Era o fim de um ciclo para Anita: chegava a hora de  deixar o continente americano, e ir conhecer, finalmente, o continente europeu.

Em março de 1848, Anita desembarcou com os filhos em Gênova, onde foi recebida por um contingente popular de 3.000 pessoas, que a esperava no Porto. Anita e seus filhos  ficaram hospedados na casa de familiares de Stefano Antonini e de Napoleone Castellini. Logo depois ela instalou-se na casa de sua sogra, Rosa Raimondi Garibaldi, que localizava-se defronte ao mar da Ligúria.

Quando Anita soube que seu marido finalmente se aproximava tomou uma atitude intrépida, como era típico de sua personalidade. Ela não esperou o navio atracar. Tomou os filhos pelas mãos embarcou em um pequeno barco e receber Garibaldi com um abraço caloroso. O ato que se seguiu foi o sepultamento da urna contendo os restos mortais de Rosita no cemitério onde o pai de Giuseppe jazia.

A partir de então Giuseppe e Anita passaram a lutar pela Unificação Italiana. Participaram de passeatas, e receberam diversas solenidades e homenagens. Foram inúmeros os discursos que proferiram exortando  a população a colaborar e engajar-se no processo revolucionário.

Naquele exato tempo, a Itália era um retalho de possessões estrangeiras, com poucas cidades e regiões que detinham sua autonomia administrativa. Esta fragmentação do território, que havia-se iniciado logo após a falência do Império Romano, criou o clima propício ao sentimento popular pelas lutas em pról da unificação italiana. De fato, o território compreendido entre Roma e Bolonha pertencia ao Vaticano;O Vêneto e a Lombardia estavam dominados e pertenciam ao Império da Áustria. O Piemonte, a Sardenha, a Ligúria e a região da Riviera (ali incluído Nizza) pertenciam a Casa de Savóia;a região sul, desde Nápoli até a ilha da Sicília pertenciam ao Rei da Espanha. Finalmente, a região central da bota italiana tinha sido partilhada por três duques germânicos (CADORIN, 2000, P. 230).

Após ter seus serviços rejeitos pela coroa da Sardenha Garibaldi rumou para Milão, onde os mazzinistas já haviam formado um exército. Foi derrotado na Batalha de Luino, onde combateu com apenas 400 soldados. Anita participou desta batalha. Seu cavalo foi atingido por um tiro, jogando-a ao solo.

Anita e Giuseppe cavalgaram lado a lado sendo ovacionados nas diversas cidades e vilas por onde passaram. Algum tempo após, no entanto, diante da incerteza do momento, Garibaldi solicitou que Anita voltasse à Nizza. Se a República Italiana parecia coisa incerta, em 9 de fevereiro de 1849, todas as preocupações se dissiparam. Roma havia caído nas mãos dos mazzinistas, após a fuga do Papa IX. Um Governo Provisório constituído por um triunvirato composto por Giuseppe Mazzini, Carlo Armellini e Aurélio Saffi teve lugar.

Ao saber de tão excelsas notícias Anita partiu ao encontro de Giuseppe, ignorando qualquer tipo de aconselhamento ou de prudência. Aquele momento era importante e decisivo demais para ela manter-se distante. No entanto, em abril o exército francês, que atendia aos apelos de auxílio feito pelo Papa, atacou as forças de Giuseppe em Villa Corsini. A luta tornou-se encaniçada e arrastou-se por diversos dias.

Anita correu novamente em seu auxílio. Grávida de cinco meses, cavalgou sozinha durante três dias burlando todo o tipo de vigilância dos austríacos e franceses e penetrou em Roma. Durante o cerco de Roma, mesmo indisposta e sentindo-se mal combateu pela última vez. Aquelas sintomas provinham da malária que ceifaria sua vida apenas alguns dias depois.

Giuseppe e seus apoiadores foram derrotados e retiraram-se da capital aceitando um armistício que os obrigava a depor e entregar armas. Garibaldi, no entanto, não depôs as armas causando a ira das milícias invasoras que sentenciaram a morte quem o auxiliasse. Ele  levou consigo cerca de 4.700 soldados e legionários, dando início à histórica “Retirada de Roma”. Tropas inimigas compostas franceses, espanhóis e austríacos já estavam em seu encalço.

O inúmero de baixas durante o percurso em direção a Veneza foi alta, tanto pela desertassão, falta de comida e equipamentos. Durante todo este trajeto, Anita não sentia-se muito bem. Em Cetona foi vítima de febre, mas mesmo assim decidiu prosseguir ao lado do marido. Os próximos dias foram tortuosos e marcados por uma difícil e incrime cruzada nos montes Apeninos.

Em 31 de julho finalmente chegaram à República de San Marino, sem antes serem atacados pelos inimigos. Vendo a covardia com que fugiam seus soldados Anita tentou fazê-los voltar com palavras de ordem, mas como não era obedecida lançou mão de um chicote e o usou contra os fugitivos. Anita ficou sozinha, disparando sua arma e retendo momentaneamente o avanço da vanguarda austríaca até Giuseppe vir ao seu auxílio.

Rapidamente, o exército que os estava seguindo alcançou a pequena República. Os austríacos lhe deram um ultimatum deveriam entregar suas armas e retornarem aos seus lares, sob a promessa de que nunca mais levantariam armas contra os Habsburgos. Garibaldi concordou com as exigências e dissolveu seus legionários, mas não iria depor a sua espada. Fugiu na calada da noite acompanhado por uma doente e febril Anita e cerca de duzentos homens.

A partir de então todos seriam ferozmente caçados pelos austríacos. Garibaldi e seus homens passaram por diversos locais a medida que se encarregaram de espalhar falsas informações sobre seu paradeiro. Em 2 de agosto o bando tomaram um barco em direção a Veneza na cidade portuária de Cesenatico. A bordo do Passatempo Anita ficou deitada sobre algumas cordas e velames. Ardeu de febre, solicitando água a todo instante. Seu estado era tão grave que todos lhe doaram suas provisões de água.

Quando a flotilha dos pequenos barcos de Garibaldi foi emboscada os navios de guerra inimigos abriram a boca mortal de seus canhões. Numa tentativa desesperada de sobreviver Garibaldi ordenou que todos dispersassem. Entretanto, a tripulação de pescadores, encarregada de conduzir os barcos acabou rendendo-se. Diversos revolucionários assim foram presos e fuzilados, inclusive o Padre Ugo Bassi que havia se tornando amigo de Anita. A revolucionária ditou a ele sua última carta endereçada para seus familiares no Brasil.

Voltando ao cenário de fuga. Sabemos que apenas cinco barcos conseguiram evadir-se. Três barcos encalharam bem próximo a costa. Por sorte em um deles estava Anita e o marido. Em terra firme os revolucionários se dispensaram para dificultar a sua captura. Junto a Garibaldi e Anita ficou apenas o major Leggero, que se recusou a abandoná-los, oferecendo sua mão e braços para ajudar a transportar Anita para um local seguro. Adentrando pela densa vegetação encontraram uma  cabana de palha, habitada pela viúva Caterina Cavalieri que pouco pode fazer pela enferma.

Após cerca de uma hora entraram em contato com o Coronel Gioachino Bonet, um conhecido de Garibaldi, que os levou até a casa de Giovanni Feletti, onde permaneceram apenas uma hora e meia. Anita recebeu diversos remédios caseiros e muita atenção das mulheres da casa, mas seu estado não melhorava. Logo depois ela foi posta em um carro de boi e transportada para a Feitoria de Mandriole.

La ela veio a falecer. Eram 19:45 horas de um sábado, dia 4 de agosto de 1849. A resistência de Anita havia atingido os limites humanos e seu combalido corpo não havia resistido a tamanhas provações. A morte da esposa foi provavelmente a maior e mais triste de todas as derrotas de Garibaldi. Os compatriotas italianos, os liberais uruguaios e farrapos brasileiros ficaram profundamente entristecidos pela parte de uma mulher tão formidável. Anita teria sete sepultamentos.


Esta matéria foi escrita por Fernanda Flores. A autora permite a livre divulgação deste texto e a tradução do mesmo para outras línguas desde que seja citada a fonte e a autoria.


Esta matéria deu origem ao vídeo ANITA GARIBALDI – DOCUMENTÁRIO postado no canal Apaixonados por História – Sabrina Ribeiro no YouTube, assista clicando no link abaixo:


Fonte:

CADORIN, Adilcio. Anita, a guerreira das repúblicas. 1° ed. Florianópolis: Editado pela Assembléia Legislativa e Udesc, 1999.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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