A trágica morte de Dona Leopoldina de Áustria, Imperatriz do Brasil

Dona Leopoldina de Áustria, por Josef Kreutzinger, 1815. © Wikimedia Commons

A morte de Dona Leopoldina de Áustria (1797-1826), Imperatriz do Brasil, foi um dos acontecimentos mais dramáticos do Primeiro Reinado. Com apenas 29 anos de idade a primeira esposa de Dom Pedro I do Brasil (1798-1834) morreu em dezembro de 1826, em meio a convulsões e delírios, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

O começo de tudo

Quando Dona Leopoldina chegou a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, em 5 de novembro de 1817, estava iludida com as informações transmitidas por Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho (1775-1823), Marquês de Marialva, o encarregado diplomático por Dom João VI de Portugal (1767-1826) de negociar o casamento real. Em terras tupiniquins a jovem austríaca encontrou uma realidade bem diferente aquela que lhe fora pintada em Viena. Longe de ser um ambiente tranquilo e familiar a Corte Portuguesa era um ambiente cheio de intrigas e com costumes antiquados, se fosse comparada as cortes europeias daquele período.

Após receberem a bênção nupcial na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé Dona Leopoldina e Dom Pedro se instalaram na Quinta da Boa Vista e passaram a ocupar uma ala do palácio, onde em 4 de abril de 1819 nasceu o primeiro dos nove filhos do casal, a Princesa Dona Maria da Glória (1819-1853). Como se não bastasse isso, nesse período, Dona Leopoldina também tomou conhecimento dos casos extraconjugais do marido, mas decidiu ignorar a situação.

Em 21 de abril de 1821 a Família Real Portuguesa partiu do Brasil em direção a Lisboa com exceção de Dom Pedro, que foi nomeado por Dom João VI regente do Reino do Brasil. Dona Leopoldina a partir de então passou a atuar como uma espécie de conselheira do marido. Ao lado de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) ela foi uma figura de peso no processo que culminou na Proclamação da Independência do Brasil em 7 de setembro de 1822. 

Após retornar de São Paulo, onde se deu a proclamação da Independência, Dom Pedro mandou trazer Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), sua mais nova amante, para a capital em princípios de 1823. Tinha assim início o caso amoroso mais notório do imperador. Em dentro de três anos Domitila de Castro Canto e Melo se tornou Marquesa de Santos e foi feita Primeira Dama Camarista da imperatriz. Foi precisamente a marquesa de Santos que tentou entrar nos aposentos de Dona Leopoldina quando está estava agonizando, prestes a morrer, em dezembro de 1826. Contudo, ela acabou sendo impedida por nobres da corte imperial.

Mas como Dona Leopoldina chegou a esse estado?

De acordo com Maria Graham (1785-1842), viajante britânica que passou uma temporada no Brasil durante a primeira metade do século XIX, na altura de sua morte a Imperatriz Dona Leopoldina nessa altura já sofria de melancolia, algo que hoje chamaríamos de depressão. Mas algo marcante aconteceu em 23 de outubro de 1826. De acordo com Philippe Leopold Wenzel, o Barão de Mareschal (1784-1851), nesta data Dona Leopoldina finalmente externou sua frustração ao marido quando os dois discutiram após o imperador passar várias noites no palacete da amante, no Rio de Janeiro.

Em 5 de novembro do mesmo ano Dom Pedro I compareceu sozinho ao evento de inauguração da Academia Imperial de Belas-Artes. Nesta data cumpriam-se nove anos da chegada da imperatriz ao Brasil, mas não ela não esteve presente no local para o assombro de todos. De acordo com o relato fornecido pelo Barão de Mareschal, agente diplomático da Áustria no Brasil, dois dias antes, ou seja em 3 de novembro, a imperatriz havia padecido de um acesso de febre.

De acordo com os boletins médicos expedidos pelo Doutor Vicente Navarro de Andrade (1776-1850), Barão de Inhomirim, que foi responsável por atender a imperatriz durante seus últimos meses de vida, Dona Leopoldina passou a sofrer de dores nos quadris e teve sangramento vaginal logo depois, mais precisamente no dia 19 do mesmo mês.

Durante esse mal-estar físico de Dona Leopoldina se conta que mais uma briga teria acontecido entre o casal imperial quando Dom Pedro I decidiu exibir Dona Leopoldina e a marquesa de Santos juntas, lado a lado, perante a corte durante uma cerimônia de beija-mão com o intuito de aparentar que tudo estava bem e desfazer os rumores de que Dona Leopoldina pretendia partir do Brasil.

Porém, Dona Leopoldina teria se oposto a participar da encenação. Segundo o plenipotenciário francês, o marquês de Gabriac, Dom Pedro I então teria perdido a cabeça acabando por agredir a esposa durante uma discussão. Surgia assim a lenda afirmando que Dom Pedro teria chutado o ventre de Dona Leopoldina causando assim um aborto e consequentemente a sua morte. Mas isso é verdade?

Se analisarmos o quadro clínico de Dona Leopoldina com atenção é mais provável que ela tenha morrido de uma infecção generalizada. Seus sintomas incluíam febre, tosse, diarreia e dores pelo corpo. De acordo com resultados das tomografias computadorizadas feitas na ossada da Imperatriz Dona Leopoldina por um equipe de pesquisadores liderada pela arqueóloga Valdirene Ambiel do Carmo, da Universidade de São Paulo, não existem sinais de ossos quebrados no corpo de Dona Leopoldina, que poderiam ser a causa de sua morte.

Últimos momentos

Mesmo com o mal-estar da consorte no dia 23 de novembro de 1826 Dom Pedro I partiu para o Rio Grande do Sul com a finalidade de averiguar os progressos envolvendo a Guerra da Cisplatina. Dona Leopoldina então foi nomeada regente do Brasil e no dia 29 de novembro teve uma melhora significativa ao ponto de conseguir receber os ministros em conselho. Porém, logo teve uma recaída. A partir de então o seu quadro clínico se agravou. Dona Leopoldina sofria de sono inquieto, espasmos, tosse e febres altas e fortes delírios. Em 2 de dezembro ela abortou um feto de cerca de três meses do sexo masculino.

A pedido do barão de Mareschal boletins médicos informando o estado de saúde da imperatriz passaram a ser publicados para informar os brasileiros do estado de saúde de sua soberana. Paradoxalmente enquanto a população do Rio de Janeiro orava pela melhora de Dona Leopoldina o seu estado ia piorando e se tornou tão grave que as comemorações em razão do aniversario do Príncipe Herdeiro Dom Pedro de Alcântara (1825-1891) foram canceladas.

Finalmente às 10:00 da manhã de 11 de dezembro de 1826, após receber a extrema unção e de despedir dos filhos e dos criados, Dona Leopoldina de Habsburgo faleceu aos 29 anos de idade. De acordo com o barão de Mareschal sua feição era serena como se por fim descansasse.

Fontes:

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: a história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2015.

AMBIEL, Valdine do Carmo. Estudos de Arqueologia Forense aplicados aos remanescentes humanos dos primeiros imperadores do Brasil depositados no monumento à Independência. (Dissertação em Pós-Graduação em Arqueologia) – Universidade de São Paulo. São Paulo, p. 253, 2013.

OBERACKER JR., Carlos H. A biografia da imperatriz Leopoldina e a história do Brasil. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/download/76257/79994/>. Acesso em: 9 de dez. 2019.

RODRIGUES, Maria Regina da Cunha. A morte da imperatriz Leopoldina (11-XII-1826) (1). Disponível em: <http://revistas.usp.br/revhistoria/article/download/131107/127542>. Acesso em: 9 de dez. 2019.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

21 comentários em “A trágica morte de Dona Leopoldina de Áustria, Imperatriz do Brasil

    1. Olá Lucas, fico muito feliz em ler o seu comentário. Fico feliz que tenha gostado de conhecer a história envolvendo a morte de d. Leopoldina. Ela é uma das minhas imperatrizes favoritas.

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  1. D. Leopoldina foi uma mulher que se deu por inteiro à terra à qual a chegou. Incentivou seu esposo, o futuro Imperador D. Pedro I, e com ele teve filhos. Tomou parte nos passos e decisões que resultaram na nossa independência. Deixou a sua marca na história do nosso país.
    Foi justamente uma carta sua, com o relato das últimas notícias do Rio de Janeiro e da Corte portuguesa, que levou o Príncipe Regente ao histórico grito do 7 de setembro. Acho que hoje deveriam existir mais mulheres como D. Leopoldina. Mais mulheres que fazem a diferença!
    Um grande abraço e parabéns pela postagem!

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    1. Fico imensamente feliz ao ler o seu comentário amigo. D. Leopoldina, de fato, foi uma grande mulher e com certeza deveriam existir mais mulheres que seguissem seu exemplo de garra e coragem.

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  2. O sofrimento da princesa Leopoldina é realmente assombroso. Sempre tive uma visão mais romântica de dom Pedro e Leopoldina porém a insensibilidade do imperador com sua esposa é perturbadora.

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  3. Achei excelente! Joga a luz da verdade sobre os fatos e mostra o carinho que a população brasileira tinha para com a nossa grande imperatriz. Com apenas 29 anos, grávida, doente e deprimida. A imperatriz Maria Leopoldina morreu só enquanto D. Pedro lutava pela região da Cisplatina contra a Argentina. Vivia abandonada, com uma vida de privações e as traições do marido, nem as preces, nem os remédios conseguiam deter as febres e os tremores que levaram a imperatriz ao aborto e por fim à morte em 11 de dezembro de 1826. A população sentia que perdera uma Imperatriz gentil , virtuosa e bondosa. Fato é que a nossa grande imperatriz acabou morrendo vítima de uma forte depressão.

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