O grandioso funeral de Dona Leopoldina de Áustria, Imperatriz do Brasil

Dona Leopoldina de Áustria, por artista anônimo, em 1817. © Wikimedia Commons

Após dias de agonia a Imperatriz Dona Leopoldina de Áustria (1797-1826) morreu na Quinta da Boa Vista em 11 dezembro de 1826. Deixava um viúvo e cinco crianças órfãs e uma população inteira desesperada. Diante do desaparecimento da imperatriz o Rio de Janeiro se viu envolto em um luto profundo.

Apesar de ser algo esperado, devido ao seu estado clínico, a morte de Dona Leopoldina de Áustria deixou todos entristecidos. O choro pela partida da primeira esposa de Dom Pedro I do Brasil (1798-1834) pode ser observado desde o povo até os nobres da corte. As primeiras medidas que foram tomadas após a morte da imperatriz incluíram o içamento a meio mastro de todas as bandeiras e o disparo de canhões de terra e mar a cada dez minutos. Os tribunais também foram fechados por oito dias.

Logo depois de a imperatriz dar o último suspiro coube aos ministros e aos funcionários de alto escalão da corte imperial decidir o que fazer com o corpo. Como era de se esperar ordens para os preparativos de seu funeral foram então emitidas. É interessante notarmos que o corpo da imperatriz Dona Leopoldina não foi embalsamado, mas, em contrapartida, foi emergido em “espírito de vinho e cal” e preparado com aromas pelos médicos diante de suas damas de companhia.

Após passar por esse procedimento, no dia 12, o cadáver de Dona Leopoldina foi depositado em um rico leito. A imperatriz trajava um rico vestido, um toucado de plumas, uma faixa peitoral e um manto, a semelhança de como ela posava para as suas pinturas oficiais. Também é importante citarmos que Dona Leopoldina não foi sepultada com nenhuma joia valiosa, pois as mesmas ficaram de herança para os filhos.

Ao meio dia teve início a cerimônia de beija-mão pós-mortem. O primeiro indivíduo a fazer o ritual foi o futuro Dom Pedro II (1825-1891), que contava com 1 ano de idade. Ele foi seguido pelas Princesas Dona Maria da Glória (1819-1853), Dona Januária (1822-1901), Dona Paula Mariana (1823-1833) e Dona Francisca (1824-1898). Logo depois todas as pessoas que se encontravam na Quinta da Boa Vista beijaram a mão do cadáver da imperatriz. Era o seu último beija-mão, cerimônia tradicional da corte portuguesa que teve início ainda na Idade Média.

Para o dia seguinte estava agendado um beija-mão público que contaria com a presença da população carioca, porém a cerimônia teve de ser cancelada devido a rápida decomposição do corpo de Dona Leopoldina. No dia 13 de dezembro, dois dias após o óbito, o corpo finalmente foi depositado num caixão de cedro, logo depois foi posto num caixão de chumbo e ambos caixões foram depositados dentro de um terceiro caixão, que foi forrado com seda branca.

A partir de então teve início o velório imperial na Sala do Trono da Quinta da Boa Vista. Foi um verdadeiro funeral imperial. Aos pés do caixão estavam depositadas a Coroa e o Cetro Imperial. Na manhã do dia seguinte, 14 de dezembro, teve lugar o ofício de defuntos. Às 20:00 horas do mesmo dia teve início o cortejo fúnebre. Todos, incluindo as damas de Dona Leopoldina, políticos, senadores e deputados, funcionários da Casa Imperial e autoridades eclesiásticas vestiam preto em sinal de luto.

Numa comovente cena a Princesa Dona Maria da Glória, com apenas 7 anos de idade, se despediu em prantos do caixão da mãe no último degrau da escadaria da Quinta da Boa Vista. Quando o caixão saiu da Quinta da Boa Vista houve três salvas compostas por vinte e um tiros, que fora alternadas com três descargas da infantaria. Todo o trajeto percorrido pelo cortejo fúnebre esteve marcado por uma forte presença militar. Até mesmo o cortejo era encabeçado pelo Chefe de Estado-Maior do Exército e encerrado com um piquete de cavalaria.

Às 23:00 horas do mesmo dia o cortejo finalmente chegou a Igreja do Convento da Ajuda. Após a celebração de uma missa Dona Leopoldina finalmente foi sepultada ao som de disparos de canhão de fortes e embarcações próximas do local. Em 1954 seus restos mortais foram transferidos para o Monumento do Ipiranga, em São Paulo, e descansam próximos dos de seu marido, Dom Pedro I do Brasil e IV de Portugal.

Fontes:

Monumento e cortejo fúnebre da Imperatriz Leopoldina no Rio de Janeiro. Disponível em: <https://reficio.cc/publicacoes/viagem-pitoresca-e-historica-ao-brasil/monumento-e-cortejo-funebre-da-imperatriz-leopoldina-no-rio-de-janeiro/>. Acesso em: 7. dez. 2019.

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: a história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2015.

AMBIEL, Valdine do Carmo. Estudos de Arqueologia Forense aplicados aos remanescentes humanos dos primeiros imperadores do Brasil depositados no monumento à Independência. (Dissertação em Pós-Graduação em Arqueologia) – Universidade de São Paulo. São Paulo, p. 253, 2013.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

4 comentários em “O grandioso funeral de Dona Leopoldina de Áustria, Imperatriz do Brasil

  1. Achei excelente! Joga a luz da verdade sobre os fatos e mostra o carinho que a população brasileira tinha para com a nossa grande imperatriz. Com apenas 29 anos, grávida, doente e deprimida. A imperatriz Maria Leopoldina morreu só enquanto D. Pedro lutava pela região da Cisplatina contra a Argentina. Vivia abandonada, com uma vida de privações e as traições do marido, nem as preces, nem os remédios conseguiam deter as febres e os tremores que levaram a imperatriz ao aborto e por fim à morte em 11 de dezembro de 1826. A população sentia que perdera uma Impera wetriz gentil , virtuosa e bondosa. Fato é que a nossa grande imperatriz acabou morrendo vítima de uma forte depressão.

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