O perigo de ser mulher no Iraque

Uma mulher iraquiana lança sua cédula de voto em local de votação em Rawah, Iraque, durante a primeira eleição parlamentar do país em 15 de dezembro de 2005. © Shane S. Keller/Wikimedia Commons

O Iraque é uma nação dilacerada por décadas de guerra. Os conflitos pioraram após a morte de Saddam Hussein em 2006. Como consequência a população se sente menos segura e as mulheres são as maiores vítimas. Em algumas regiões elas não tem seus direitos básicos assegurados.

No Iraque as mulheres são privadas de direitos básicos como o direito de votar, estudar ou se casar com quem quiser. A maioria é economicamente dependente dos homens, devido a falta de educação. De acordo com uma pesquisa da Intermón Oxfam 81% das mulheres não puderam continuar seus estudos a partir de 2003.

As consequências da invasão americana também foram devastadoras, deixando milhares de mulheres viúvas e como o Iraque carece de um sistema que forneça pensão por viuvez ou assistência social a sobrevivência dessas mulheres, e de seus filhos, se tornara um desafio diário.

Para mudar essa realidade e promover a igualdade é preciso garantir que as mulheres tenham visibilidade, atuação e poder de decisão na sociedade. Porém, existe uma forte oposição a ideia devido ao conservadorismo que domina a sociedade.

Apesar do Curdistão iraquiano estar livre da guerra, a situação da mulher também é desanimadora. Apesar de algumas ações de cunho feminista terem começado visando combater a desigualdade de gênero o território ainda tem uma cultura tribal.

Outra triste realidade é a Mutilação Genital Feminina, que ainda é uma prática comum na área. A prática consiste na retirada dos clitóris e dos grandes lábios da vagina feminina. O objetivo é preservar a castidade da mulher e inibir eventuais desejos sexuais fora do casamento.

A Constituição de 1970 estabeleceu direitos iguais entre homens e mulheres e foi complementada por leis relacionadas ao direito ao voto, educação, cargo político e propriedade privada. Porém, a Constituição, também estabelece que o Islã é a principal fonte de legislação dando espaço para a aplicação da Lei Sharia.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde – OMS – a prática viola os direitos humanos, e tem consequências devastadores a nível físico e psicológico. Muitas vezes levando as vítimas a morte por hemorragia ou infecção.

Além desses fatores também existe o problema da violência doméstica prevalente no país.

Praticamente toda vez que uma mulher é morta no Iraque as autoridades não estão interessadas em lidar com a situação e punir os agressores. Espancamentos, estupros maritais e outros delitos não são punidos sob pretexto de se tratarem de “assuntos familiares”.

De acordo com a Aljazeera o código penal iraquiano permite que os maridos disciplinem suas esposas, e não existe lei criminalizando a violência doméstica no país. Segundo a Human Rights Watch 7 em cada 5 mulheres está sujeita a violência física e 36% das mulheres casadas relataram sofrer abuso psicológico.

Como a sociedade iraquiana permanece em grande parte conservadora, ligada às tradições tribais e aos costumes religiosos, o casamento arranjado ainda é muito comum. Na maioria das vezes o poder de decisão cabe exclusivamente aos homens.

De acordo com France24 a província de Maysan e a cidade de Basra têm as maiores taxas de casamento infantil registradas no país. No local ainda existe o costume no qual mulheres são casadas como restituição pelo sangue derramado entre duas tribos que entraram em conflito anteriormente.

Como resultado muitas mulheres acabam cometendo suicídio, pois não aguentam as pressões, restrições e responsabilidades que a família e a sociedade as obrigam a aceitar e carregar.

Um dos métodos mais usados é a autoimolação. Existem poucos dados sobre o assunto pois o tema ainda é um tabu no Iraque. Também é difícil abordas temas relacionados à problemas de saúde mental, e os esforços para discuti-los com os líderes tribais tiveram pouco sucesso.

Uma mulher chamada Lena foi vítima do sistema legal desigual do Iraque. Ela contou sua história a Aljazeera. De acordo com o seu depoimento após denunciar o marido por agressão ela deixou sua casa e levou seu filho. Porém, após ser acusada de sequestro ficou 16 meses presa.

Temendo esse tipo de reviravoltas as mulheres iraquianas optam por não denunciar os abusos que sofrem. Tanto a Estratégia AntiViolência do Iraque contra as Mulheres quanto a Estratégia Nacional de Promoção das Mulheres no Iraque, pediram a promulgação de uma legislação contra a violência doméstica, mas não obtiveram êxito.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

13 comentários em “O perigo de ser mulher no Iraque

  1. Fico extremamente chateado ao saber desse tipo de situação. Infelizmente alguns governos europeus, à exemplo da França, estão importando milhões de muçulmanos violentos e falsos refugiados de guerra para dentro das suas fronteiras. Isso está causando muitos problemas. Devemos tomar cuidado.

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  2. Que pena que essa realidade ainda existe no Oriente Médio. Adorei saber mais sobre a triste realidade que as mulheres vivem nessa região e eu espero que as autoridades ajam para que esse sofrimento acabe de uma vez por todas.

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  3. Não há outra definição além de ridículas as acusações das feministas de que o Cristianismo oprime as mulheres. E pensar que um tempo desse vi matérias que mostravam feministas na Europa defendendo o Islã. A dúvida é: burrice? ignorância? ou as duas anteriores? Agradeço a Deus por não ter o destino destas mulheres. Adorei o blog.

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  4. No Iraque infelizmente também há muitos feminicídios de honra. Aquelas que eram presas políticas, por exemplo, muitas vezes saíram do cárcere apenas para morrer pela mão de seus familiares. Uma mulher presa, para a cultura patriarcal do país, significa a suspeita de que tenha sido estuprada pelos carcereiros e com isso famílias inteiras matam as mulheres e cortam sua mão para provar aos líderes religiosos que “lavaram” devidamente a honra da família. É preciso eliminar essas atrocidades que acontecem em tantos lugares, até mesmo na Europa. A mulher vítima de crimes de honra não está segura nem com a própria mãe, ou pai, ou irmãos!

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