Novo Mundo: a verdadeira história de d. Pedro I

D. Pedro I, por Benedito Calixto, 1902. Caio Castro em Novo Mundo como o primeiro imperador do Brasil.

Com a reprise da novela Novo Mundo da Rede Globo d. Pedro I voltou a ser o centro das atenções de muitas discussões online. Conheça dados biográficos do homem que foi o primeiro imperador do Brasil.

D. Pedro de Bragança nasceu em 12 de outubro de 1798 no Palácio de Queluz, em Lisboa, após um longo trabalho de parto. Ele foi o quarto dos nove filhos de d. João VI e sua esposa d. Carlota Joaquina. Em junho de 1801, após a morte do príncipe Francisco Antônio d. Pedro se tornou o herdeiro imediato de seu pai.

O pequeno príncipe não teve uma infância feliz em Queluz. Ele seus irmãos só tinham a companhia um dos outros e da avó, a rainha d. Maria I, que padecia de problemas mentais. Seus pais, por sua vez, viviam em residências separadas. D. João se instalou em Mafra e d. Carlota na Quinta do Ramalhão.

D. João VI e d. Carlota Joaquina, por Manuel Dias de Oliveira, c. 1810-20. Carlota Joaquina (Débora Olivieri) e seu esposo (Lei Jaime) em Novo Mundo.

Aos 5 anos d. Pedro teve o primeiro professor, José Monteiro da Rocha, catedrático de matemática de Coimbra. Frei Antônio da Nossa Senhora de Salete seria seu professor de latim, o cônego René Pierre Boiret, seu professor de francês, e o padre Guilherme Paulo Tilbury, seu professor de inglês.

Com apenas 10 anos d. Pedro e a corte portuguesa se transladaram ao Brasil diante da ameaça de invasão dos exércitos de Napoleão Bonaparte. Após uma partida turbulenta, em 22 de janeiro de 1808 a Família Real chegou a Salvador. O pequeno príncipe, seu pai, e seu irmão menor d. Miguel, ficaram dois meses e partiram para a capital da colônia.

Na capital da colônia d. Pedro deu prosseguimento a sua educação, mas não era muito dedicado aos estudos. Ele tinha dificuldades de concentração e se impacientava muito rápido deixando os seus tutores falando sozinho. Ele preferia trabalhos manuais. D. Pedro amava praticar equitação e compunha músicas.

Aos 19 anos, em 13 de maio de 1817, d. Pedro foi casado por procuração, com a arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria. Tratava-se um acordo político que pretendia tirar Portugal da esfera de influência britânica. A cerimônia foi celebrada na Igreja Augustina, e o noivo foi representado pelo arquiduque Carlos.

Em 6 de novembro do mesmo ano d. Leopoldina desembarcou no Rio de Janeiro. Para receber a noiva d. Pedro rompeu o relacionamento amoroso que mantinha com a atriz francesa Noemi Thierry, que ficou, de fato, ficou grávida dele. Noemi Thierry foi casada as presas e passou a viver em Pernambuco. A criança morreu logo depois de nascer.

Em questões políticas, o príncipe era preterido por sua irmã mais velha, a princesa d. Maria Teresa, compartilhava das ideias conservadoras do pai, o rei d. João VI. Somente o conde dos Arcos dava atenção a d. Pedro e discutia política com ele, que ao ler Benjamim Constant e Caetano Filangieri se tornou um liberal convicto.

D. Leopoldina, por Joseph Kreutzinger, c. 1815. Letícia Colin como a primeira esposa de d. Pedro I em Novo Mundo. (Fotos de Wikipedia Commons e TV Globo)

Em 25 de abril de 1821 a Família Real Portuguesa se viu obrigada a retornar a Lisboa devido as pressões das Cortes Portuguesas. D. Pedro e sua esposa permanecerem no Rio de Janeiro, como regentes do Brasil, que havia se tornado um reino em 1816. Assim teve início a atuação política de d. Pedro.

Porém, não demorou muito para as relações entre Brasil e Portugal azedarem. As Cortes Portuguesas, que passaram a comandar virtualmente Portugal, tentaram de todas as maneiras diminuir o poder de d. Pedro. A primeira medida tomada foi a redução de todas as províncias brasileiras em territórios ultramarinos portugueses, extinguindo a figura jurídico do Reino do Brasil.

As Cortes Portuguesas se revelaram inimigos ferozes da independência do Brasil. Mas ao que tudo indica d. Pedro aparentemente estava inclinado cumprir a ordem de retornar à Portugal. Neste momento entra em cena o santista José Bonifácio, que em nome dos paulistas escreveu uma carta pedindo a permanência de d. Pedro no Brasil.

À resolução paulista, juntaram-se os fluminenses, com uma representação assinada por mais de oito mil pessoas desejosas da permanência do príncipe. A elas, somou-se a dos mineiros: das cidades de Barbacena e Mariana, chegaram novos pedidos pela permanência. (REZZUTTI, P. 135, 2015).

A negativa de d. Leopoldina, que estava grávida novamente, em embarcar num navio rumo a Europa também contribuiu para a permanência do marido. Finalmente em 12 de janeiro de 1822 d. Pedro decidiu ficar no Brasil. A partir de então os acontecimentos tiveram um desenrolar vertiginoso.

Nem mesmo as pressões do General português Jorge Avilez foram capazes de fazer d. Pedro voltar atrás.  Em 7 de setembro, às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, província que visitava para apaziguar um conflito interno, d. Pedro deu o célebre grito “Independência ou Morte”.

General Jorge Avilez em retrato de artista desconhecido, séc. 19. Paulo Rocha como o general Avilez em Novo Mundo .(Foto Wikipedia Commons e TV Globo)

Em outubro e dezembro do mesmo ano d. Pedro seria respectivamente aclamado e coroado imperador do recém-criado império do Brasil.  Dois anos depois, em 1824, teve lugar a promulgação da primeira Constituição do Império. Neste mesmo ano também chegou ao fim a chamada Guerra de Independência.

Durante esse período d. Pedro também perdeu o apoio de José Bonifácio e seus irmãos Martim Francisco e Antônio Carlos, que foram exilados em França. Em março de 1826 d. João VI morreu subitamente em Portugal. O desaparecimento do monarca deu início a uma crise dinástica.

Apesar de ter proclamado a independência do Brasil d. Pedro continuava, conforme a força da tradição e das leis, o herdeiro do trono português. Porém, todos sabiam que ficaria inviável o governo de duas nações que outrora haviam protagonizado uma guerra. Também pairava no ar o medo do Brasil poder ser recolonizado pelo país europeu.

A saída encontrada pelo imperador foi a abdicação. Em 2 de maio de 1826 ele passou o trono para sua filha mais velha d. Maria da Glória. D. Pedro pretendia casá-la com o seu tio, d. Miguel, e nomeá-lo regente do país, devido à pouca idade da rainha, porém o plano veio água abaixo quando d. Miguel deu um golpe de Estado com o apoio dos conservadores.

Se as coisas não estavam boas na Europa na América o cenário não era melhor. O Rio de Janeiro estava sendo tomado por conflitos violentos nas ruas entre o chamado Partido Português e os nacionalistas. As frequentes quedas de ministros e formação de novos ministérios só pioravam as coisas.

Marquesa de Santos, por Francisco Pedro do Amaral, c. 1820-29. Agatha Moreira como Marquesa de Santos em Novo Mundo. (Fotos de Recífcio e TV Globo)

Nem mesmo a partida da amante, a marquesa de Santos, e um novo casamento com a princesa bávara d. Amélia de Leuchtenberg foram suficientes para melhorar a imagem do imperador. Sob forte pressão e acuado pelos protestos populares na madrugada de 7 de abril de 1831 d. Pedro decidiu abdicar de mais um trono.

Na Europa, sob o título de duque de Bragança, d. Pedro lançaria uma expedição contra seu irmão reunindo os poucos fundos que possuía e fazendo empréstimos com banqueiros. Enquanto d. Amélia, a pequena rainha portuguesa e sua mais nova filha, a princesa Maria Amélia ficavam em França, d. Pedro partiu para a batalha.

A expedição tinha poucas chances de triunfar: os soldados eram constituídos por um pequeno grupo: iriam combater um exército de 75 mil homens, que teria a vantagem de apenas se defender. Mas o impossível aconteceu: as tropas liberais conseguiram dominar Ponte Ferreira. Após um ano de cerco a cidade do Porto se rendeu as suas tropas. Com a conquista do Algarve o caminho para tomar Lisboa ficou livre.

D. Pedro foi duramente criticado por aceitar a rendição de d. Miguel e por ser brando com ele. Anistia geral foi estabelecida, através da Concessão de Évora Monte, além disso d. Miguel pode deixar Portugal e além disso recebeu uma pensão de 60 contos de réis por ano.

Retrato de d. Pedro como regente da filha d. Maria da Glória, artista anônimo, séc. 19. Traslado do corpo do imperador I para o Brasil, em 1972. (Fotos de Pinterest e Wikipedia Commons)

Finalmente, em 24 de setembro de 1834, d. Pedro faleceu aos 35 anos, no Palácio de Queluz. Estava de cama há dias. Foi vítima de tuberculose. Especula-se que ele tenha contraído a doença enquanto combatia nas trincheiras. Seus restos mortais foram depositados no Panteão da Dinastia de Bragança, em Lisboa.

Em 1972, o corpo de d. Pedro foi transportado para o Brasil e depositado no recém-construído Monumento à Independência do Brasil, em São Paulo. O seu cortejo foi recebido com grande entusiasmo pela população. D. Pedro recebeu as honras dignas de um chefe de estado.

Fontes:

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: A história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. São Paulo: Leya, 2017.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° ed. São Paulo: Leya, 2015.

COSTA, Pedro Pereira da Silva. D. Pedro I. Coleção A vida dos grandes brasileiros, vol. IX. 1° ed. São Paulo: Três, 1974.

LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I: Um herói sem nenhum caráter. Coleção Perfis brasileiros. 1° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

10 comentários em “Novo Mundo: a verdadeira história de d. Pedro I

  1. Eu estou encantado com a gama de detalhes apresentados em seu artigo é uma excelente leitura tanto para alguém que já possui um conhecido sobre Dom Pedro I e extremamente indicado para as pessoas que estão a procura de um artigo de linguajar descomplicada e estranhamente objetivo como alunos por exemplo eu concerteza indicarei seu artigo para os meus professores e colegas de escola

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Delcio Bellini, fico muito emocionada, e também lisonjeada, ao ler o seu comentário. Agradeço a divulgação voluntária do meu trabalho em seu escola. Obrigada pela audiência. Siga acompanhando o blog. Tenho diversas matérias sobre o Brasil Imperial.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: