‘Novo Mundo’: a verdadeira história de Dom Pedro I do Brasil

D. Pedro I do Brasil (Caio Castro) em Novo Mundo. O monarca como duque de Bragança, por John Simpson, 1834. © Rede Globo/Wikimedia Commons

Com a reprise da novela Novo Mundo da Rede Globo o governo e a vida pessoal do Imperador Dom Pedro I do Brasil (1798-1834) voltou a ser o centro das atenções de muitas discussões online e presenciais. Conheça dados biográficos do homem que foi o primeiro Imperador do Brasil.

Nascimento e infância

Dom Pedro de Bragança nasceu em 12 de outubro de 1798 no Palácio de Queluz, em Lisboa, após um longo trabalho de parto. Ele foi o quarto dos nove filhos de Dom João VI de Portugal (1767-1826) e sua esposa Dona Carlota Joaquina de Espanha (1775-1830). Em junho de 1801, após a morte do Príncipe Dom Francisco Antônio (1795-1801) o pequeno príncipe se tornou o herdeiro imediato de seu pai.

Dom Pedro não teve uma infância feliz no Palácio de Queluz. Ele seus irmãos só tinham a companhia um dos outros e da avó, a rainha Dona Maria I de Portugal (173r-1816), que padecia de problemas mentais. Seus pais, por sua vez, viviam em residências separadas devido a problemas de relacionamento. Dom João se instalou em Mafra e Dona Carlota Joaquina na Quinta do Ramalhão.

Aos 5 anos de idade Dom Pedro teve o primeiro professor, José Monteiro da Rocha (1775-1819), catedrático de matemática da Universidade de Coimbra. Frei Antônio da Nossa Senhora de Salete seria seu professor de latim, o cônego René Pierre Boiret, seu professor de francês, e o padre Guilherme Paulo Tilbury seu professor de inglês.

Partida para o Brasil, casamento e atuação política

Porém, a vida de Dom Pedro I mudou radicalmente quando ele tinha 9 anos de idade qundo a Corte Portuguesa se transladou para o Rio de Janeiro diante da invasão dos exércitos do Imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821).

Na capital da mais vasta colônia portuguesa Dom Pedro deu prosseguimento a sua educação, mas não era muito dedicado aos estudos. Ele tinha dificuldades de concentração e se impacientava muito rápido deixando os seus tutores falando sozinho.

Aos 19 anos, em 13 de maio de 1817, Dom Pedro foi casado por procuração, com a arquiduquesa Dona Leopoldina de Áustria (1797-1826). Tratava-se um acordo político que pretendia tirar Portugal da esfera de influência britânica.

Em 6 de novembro do mesmo ano Dona Leopoldina desembarcou na Baía de Guanabarra, no Rio de Janeiro. Para receber a noiva o jovem príncipe se viu obrigado a romper o relacionamento amoroso que mantinha com a atriz francesa Noemi Thierry.

Durante esse período em questões políticas o príncipe era preterido por sua irmã mais velha, a Princesa Dona Maria Teresa de Bragança (1793-1874) que compartilhava das ideias conservadoras do pai, o rei Dom João VI. Somente Marcos Noronha e Brito, o Conde dos Arcos (1771-1828) dava atenção a Dom Pedro e discutia política com ele. Porém, isso logo mudaria.

Em 25 de abril de 1821 a Família Real Portuguesa se viu obrigada a retornar a Lisboa devido as pressões das Cortes Portuguesas. Dom Pedro e sua esposa foram designados para permanecerem no Rio de Janeiro, como regentes do Brasil, que havia se tornado um reino em 1816. Assim teve início a atuação política de Dom Pedro.

Independência do Brasil

Porém, não demorou muito para as relações entre Brasil e Portugal azedarem. As Cortes Portuguesas, que passaram a comandar virtualmente Portugal, tentaram de todas as maneiras diminuir o poder de Dom Pedro. A primeira medida tomada foi a redução de todas as províncias brasileiras em territórios ultramarinos portugueses, extinguindo a figura jurídico do Reino do Brasil.

As Cortes Portuguesas se revelaram inimigos ferozes da independência do Brasil. Mas ao que tudo indica Dom Pedro aparentemente estava inclinado cumprir as suas ordens e retornar à Portugal. Neste momento entrou em cena o naturalista José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), que em nome dos paulistas escreveu uma carta pedindo a permanência do príncipe no Brasil.

À resolução paulista, juntaram-se os fluminenses, com uma representação assinada por mais de oito mil pessoas desejosas da permanência do príncipe. A elas, somou-se a dos mineiros: das cidades de Barbacena e Mariana, chegaram novos pedidos pela permanência. (REZZUTTI, P. 135, 2015).

A recusa de Dona Leopoldina, que estava grávida novamente, em embarcar num navio rumo a Europa também contribuiu para a permanência do marido na América Latina. Finalmente em 12 de janeiro de 1822 Dom Pedro decidiu ficar no Brasil. A partir de então os acontecimentos tiveram um desenrolar vertiginoso.

Nem mesmo as pressões do General português Jorge de Avilez Zuzarte de Sousa Tavares (1785-1845) foram capazes de fazer Dom Pedro voltar atrás.  Em 7 de setembro, às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, província que visitava para apaziguar um conflito interno, Dom Pedro deu o célebre grito “Independência ou Morte”.

Em 12 de outubro e 1 dezembro do mesmo ano Dom Pedro seria respectivamente aclamado e coroado imperador do recém-criado Império do Brasil. Dois anos depois, em 1824, teve lugar a promulgação da primeira Constituição do Império. Neste mesmo ano também chegou ao fim a chamada Guerra de Independência.

Durante esse período Dom Pedro também perdeu o apoio de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) e seus irmãos Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845) e Martim Francisco Ribeiro de Andrada (1775-1844), que acabaram exilados em França.

Problemas em Portugal e abdicação do trono do Brasil

Para piorar situação em 10 de março de 1826 o rei Dom João VI de Portugal morreu subitamente no Palácio da Bemposta, em Lisboa. O desaparecimento do monarca deu início a uma crise dinástica no país europeu, cujo os protagonistas seriam Dom Pedro e seu irmão Dom Miguel de Bragança (1801-1866).

Apesar de governar o Brasil Dom Pedro continuava sendo o herdeiro do trono português. Porém, todos sabiam que se tornaria inviável o governo de duas nações, que outrora haviam protagonizado uma guerra, por uma única pessoa. Também pairava no ar o temor da possibilidade do Brasil ser recolonizado por Portugal durante esse período.

A saída encontrada por Dom Pedro I do Brasil foi abdicar do trono português. Em 2 de maio de 1826 ele passou a coroa portuguesa para sua filha mais velha a Princesa Dona Maria da Glória (1819-1853). Dom Pedro também pretendia casá-la com o seu tio, Dom Miguel e nomeá-lo regente de Portugal, devido à pouca idade da rainha. Todavia, o plano veio água abaixo quando o príncipe deu um golpe de Estado com o apoio dos conservadores.

Se as coisas não estavam boas na Europa na América o cenário não era melhor. O Rio de Janeiro estava sendo tomado por conflitos violentos nas ruas entre o chamado Partido Português e o Partido Naciolista. As frequentes quedas de ministros e formação de novos gabinetes só pioravam as coisas.

Nem mesmo a partida da polêmica amante do imperador Domitila de Castro e Melo, a Marquesa de Santos (1797-1867), e um novo casamento com a princesa bávara Dona Amélia de Leuchtenberg (1812-1873) foram suficientes para melhorar a imagem pública de Dom Pedro. Sob forte pressão e acuado pelos protestos populares, que estavam insatisfeitos com o governo, na madrugada de 7 de abril de 1831 Dom Pedro I decidiu abdicar de mais um trono, desta vez do trono do Brasil.

Luta na Europa e morte

Na Europa, sob o título de Duque de Bragança, Dom Pedro lançaria uma expedição contra seu irmão reunindo os poucos fundos que possuía e fazendo empréstimos com banqueiros. Enquanto Dona Amélia, Dona Maria da Glória e sua mais nova filha, a Princesa Maria Amélia de Bragança (1831-1853) ficavam hospedadas numa casa em França Dom Pedro partiu para a batalha.

A expedição tinha poucas chances de triunfar: os soldados eram constituídos por um pequeno grupo enquanto iriam combater um exército de 75 mil homens, que teria a vantagem de apenas se defender. Mas o impossível aconteceu: as tropas liberais conseguiram dominar Ponte Ferreira. Após um ano de cerco a cidade do Porto se rendeu as tropas de Dom Pedro. Com a conquista do Algarve o caminho para tomar Lisboa ficou livre.

Dom Pedro foi duramente criticado por aceitar a rendição de Dom Miguel e por ser brando com ele. Anistia geral foi estabelecida, através da Concessão de Évora Monte. Além disso Dom Miguel pode deixar Portugal recebendo uma pensão de 60 contos de réis por ano.

Finalmente, em 24 de setembro de 1834, Dom Pedro faleceu aos 35 anos, no Palácio de Queluz. Estava de cama há dias. Foi vítima de tuberculose. Especula-se que ele tenha contraído a doença enquanto combatia nas trincheiras. Seus restos mortais foram depositados no Panteão da Dinastia de Bragança, em Lisboa.

Em 1972 o corpo de Dom Pedro I do Brasil e IV de Portugal foi transportado para o Brasil e depositado no recém-construído Monumento à Independência do Brasil, em São Paulo. O seu cortejo foi recebido com grande entusiasmo pela população. Dom Pedro recebeu honras dignas de um chefe de Estado na ocasião.

Fontes:

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: A história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. São Paulo: Leya, 2017.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° ed. São Paulo: Leya, 2015.

COSTA, Pedro Pereira da Silva. D. Pedro I. Coleção A vida dos grandes brasileiros, vol. IX. 1° ed. São Paulo: Três, 1974.

LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I: Um herói sem nenhum caráter. Coleção Perfis brasileiros. 1° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

10 comentários em “‘Novo Mundo’: a verdadeira história de Dom Pedro I do Brasil

  1. Eu estou encantado com a gama de detalhes apresentados em seu artigo é uma excelente leitura tanto para alguém que já possui um conhecido sobre Dom Pedro I e extremamente indicado para as pessoas que estão a procura de um artigo de linguajar descomplicada e estranhamente objetivo como alunos por exemplo eu concerteza indicarei seu artigo para os meus professores e colegas de escola

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Delcio Bellini, fico muito emocionada, e também lisonjeada, ao ler o seu comentário. Agradeço a divulgação voluntária do meu trabalho em seu escola. Obrigada pela audiência. Siga acompanhando o blog. Tenho diversas matérias sobre o Brasil Imperial.

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