Resenha (com spoiler) de Virgindade anti-higiênica

Retrato de mulher lendo um livro, de Ivan Kramskoi, depois de 1866. © Wikimedia Commons

O livro ‘Virgindade anti-higiênica’, escrito na década de 1920 pela paulista Ercília Nogueira Cobra (1891-?), foi um dos marcos da literatura feminista do Brasil. A obra, impactante e direta, defendeu a liberdade sexual das mulheres e a igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho numa época onde a sociedade brasileira era marcada pelo patriarcalismo deixando a maioria dos leitores escandalizados.

Apesar de ser desconhecido pela maioria dos brasileiros atualmente atualmente ‘Virgindade anti-higiênica’ foi uma das obras de maior impacto do século XX. O livro, apesar de ser considerado curto, aborda diversos temas relevantes para o empoderamento feminino ontem e hoje. Uma das principais ideias de Cobra é que a negação de uma educação formal à mulher e a imposição de um rigoroso código comportamental, severo no tocante a sua sexualidade, é resultado de regras defendidas pelos homens e que beneficiam somente a eles.

Tamanho foi o impacto do livro que sua primeira edição teve a sua circulação proibida pela polícia, sob pretexto de tratar-se de uma escrita imoral, descrita como quase pornográfica. Num apelo aos leitores e numa tentativa desesperada de tentar ser ouvida Cobra afirma: “Peço as criaturas intelligentess que não façam côro com idiotas que dizem que o livro é immoral”.

A autora ainda advoga pelo fim da prostituição. Cobra afirma que a grande mola propulsora da prostituição é a falta de qualificação das mulheres para o mercado de trabalho. “Não têm officio, eis a grande questão.” Tal situação tornaria as mulheres economicamente reféns de pais e maridos, os detentores do capital. Cobra ainda tenta desfazer alguns mitos que cercam as profissionais do sexo: “Muita gente pensa que todas as mulheres que se encontram nesses logares de infamia são deprevadas. É um puro engano. Ha alli optimas mães.”

Porém, o cenário não é positivo nem mesmo para as mulheres que conseguem uma vaga no mercado de trabalho. Sobre isso Cobra alerta que as jornadas de trabalho são demasiado longas e as remunerações extremamente baixas. Ela afirma: “No meio operario é horrivel o que se vê. A mulher, além de ir à fabrica, tem que cuidar da casa e dos filhos […] na fabrica o ordenado da mulher é inferior ao do homem…”

O outro tópico abordado por Cobra é o modelo de educação ao qual as meninas – ricas e pobres – são submetidas. “Cuida-se de tudo quanto diz respeito à elevação moral do homem e ao seu preparo para a luta pela existencia; á mulher, quando se lhe escolhe um collegio, é um convento.” Nesta perspectiva a educação ofertada em centros religiosos, católicos em sua grande maioria, não prepararia as jovens para o enfrentar o mundo real e não oferecia o que Cobra chama de “tino pratico” e capacidade de “comprehender a engrenagem […] complicadissima da vida”.

A situação era difícil em princípios do século XX: a falta de instrução da mulher a tornava um ser imbecilizado, de acordo com Cobra. Como se estivesse prevendo um argumento contrário a fomentação da educação feminina Cobra lança a mão de dados científicos para respaldar suas afirmações: “já está mais que provado que o cerebro não tem sexo e que o individuo humano é um producto do meio e da educação”.

Cobra também aborda a alegada fragilidade física do sexo feminino, que não se alinhava com as dores que as mulheres suportavam durante o trabalho de parto de seus filhos. Além de frisar o potencial físico das mulheres Cobra também relembra o leitor das inúmeras amostras de valentia das enfermeiras na Primeira Guerra Mundial, que se deslocaram para os campos de batalha atuando em hospitais de campanha afim de salvar a vida de seus compatriotas.

Direta e sincera Cobra também não poupa as próprias mulheres de críticas. Ela pede conscientização: “A mulher precisa aprender a trabalhar em coisas rendosas. Precisa comprehender que a collocação de um individuo no mundo é cousa muito seria. Não se trata só de satisfazer um prazer.” Logo depois nos deparamos com o tema planejamento familiar. De maneira muito lúcida a autora afirma que “a mulher que não tem meios de vida não deve ter filhos”. Além de pregar o controle de natalidade Cobra também estimula a mulher adotar métodos contraceptivos afirmando: “sirva-se do homem com cautela”.

Sem atacar a monogamia Cobra também dá o seu parecer sobre casamentos baseados em mero interesse econômico e faz uma comparação entre mulheres ricas e pobres: “um engodo para os homens alcançarem altas posições quando são ricas; carne para os homens cevarem seus appetites bestiaes, quando pobres”. Ato seguido Cobra aborda o espinhoso tema da virgindade feminina, que dá título a sua obra. Segundo a autora os homens “no afan de conseguirem um meio pratico de dominar a mulher, collocam-lhe a honra entre as pernas”, ao mesmo tempo que não se atentam para o seu potencial físico e intelectual.

Nem mesmo a religião é deixada de fora das críticas de Cobra. Segundo a mesma a Virgem Maria, apesar de seu papel relevante no Catolicismo, continua sendo “a serva do Senhor”. Nem mesmo o Islã é poupado. Sem cerimônias ela afirma: “Mahomet, mais descarado, não poude resistir ao seu sensualismo e decretou audazmente a polygamia”. Questões políticas como o direito ao voto feminino também são abordadas. Usando a França como exemplo a autora espera que o Brasil incluía as mulheres no processo democrático que envolve a escolha de representantes políticos e lhe conceda o sufrágio. Algo que aconteceu oito anos após a publicação de sua obra, em 1932.

Por fim, mas não menos importante, para Cobra a “virgindade, é anti-physiologica”. Citando diversos médicos e professores e apoiando-se em suas citações, em sua grande maioria em francês, a autoria acredita que a abstinência sexual cause nas mulheres uma série de males como alucinações e irritabilidade. De maneira vivaz e brilhante Cobra não trepida em dizer verdades duras que chocam até mesmo os leitores mis cientes dos dias de hoje devido a dureza de suas palavras. O seu discurso é direto e impactante. Seu livro, que quase chegou a ser dado como perdido, é inquietante. Por fim para Cobra “o despertar da mulher é um facto”.


Deixo aqui o meu agradecimento ao site Cobra Pages que disponibilizou o livro na íntegra, respeitando a sua gráfica original.


Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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