A verdadeira história da Marquesa de Santos a “vilã” de ‘Novo Mundo’

Marquesa de Santos por Francisco Pedro do Amaral, 1820-29. Agatha Moreira como Domitila de Castro em Novo Mundo. © Google Arts and Culture/Rede Globo

Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867) foi por sete anos amante do imperador D. Pedro I do Brasil. O caso era de conhecimento público no Brasil e repercutiu a nível internacional, tornando Domitila de Castro (1797-1867) uma das principais personagens do Primeiro Reinado (1822-1831). Porém, sua vida não se resume a esse período. Conheça a sua história completa a seguir.

Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867) nasceu em 27 de dezembro de 1797, quando a cidade de São Paulo tinha pouco mais de vinte mil habitantes e nem cogitava ser uma grande metrópole. Ela era a filha caçula do coronel João de Castro Canto e Melo (1740-1826) e de Escolástica Bonifácia de Oliveira Toledo Ribas (1765-1859). Ambos pertenciam a ilustres famílias portuguesas.

Pouco sabemos sobre a infância de Domitila de Castro (1797-1867). Provavelmente ela não teve uma educação formal e completa aprendendo apenas a ler e escrever e fazer cálculos matemáticos básicos, pois o acesso a educação era bastante limitado na época para grande parte da população brasileira e especialmente para as mulheres.

Em 13 de janeiro de 1813, aos 15 anos de idade, Domitila de Castro (1797-1867) contraiu matrimônio com Felício Pinto Coelho de Mendonça (1790-1833) de 23 anos. O jovem era natural de Minas Gerais e havia chegado a São Paulo há seis meses. Felício de Mendonça (1790-1833) era alferes e fazia parte do Primeiro Esquadrão do Corpo de Dragões de Vila Rica, e prometia ter um futuro brilhante no exército.

Após o casamento Domitila (1797-1867) e seu marido passaram a viver em Vila Rica, em Minas Gerais. Os filhos não tardaram em chegar. Uma menina chamada Francisca nasceu no final do ano de 1813 e em novembro de 1816 nasceu um menino que recebeu o mesmo nome do pai. Porém, a vida de Domitila (1897-1867) em Minas Gerais não foi um conto de fadas.

Felício (1790-1833) logo se mostrou um homem violento e abusivo e Domitila (1797-1867) cansada dos abusos tomou uma atitude audaciosa: retornou a São Paulo com os filhos. Todavia, reconciliou-se com o marido tempos depois e voltou para casa. Em 1818 nasceu o terceiro e último filho do casal, João, que faleceu ainda criança.

Porém, engana-se quem pensa que as coisas pararam por aí. A paz entre o casal durou pouco. Após a morte da mãe, o alferes herdou suas terras e falsificou a assinatura de Domitila (1797-1867) para vendê-la e assim ganhar dinheiro. Como se isso não fosse suficiente na tarde de 6 de março de 1819, Felício (1790-1833) tentou assassinar Domitila (1797-1867) a esfaqueando duas vezes.

Domitila (1797-1867) conseguiu sobreviver ao atentado, mas o marido acabou preso. Felício de Mendonça (1790-1833) alegava que Domitila (1797-1867) estava tendo um caso amoroso com um oficial chamado Francisco de Lorena. Ela negou tudo. Para entender o cenário temos que ter em mente que os maridos no século XIX (19) eram autorizados a matar as esposas em casos de adultério. Porém, Felício (1790-1833) não tinha provas para respaldar as suas acusações.

Mesmo assim ele foi libertado, possivelmente graças as suas conexões. Porém, Felício (1790-1833) queria a guarda dos filhos e procurava falar diretamente com o rei D. João VI de Portugal (1767-1826) para resolver a questão. Todavia, quem resolveria o impasse seria o príncipe regente D. Pedro de Bragança (1798-1834) que foi deixado no comando do Brasil, após a partida da Família Real Portugues em abril de 1821.

D. Pedro (1798-1834) encontrou-se com Domitila de Castro (1797-1867) pela primeira vez em agosto de 1822. Na ocasião ele estava visitando São Paulo em razão da Bernarda de Francisco Inácio e tentava apaziguar a revolta. Ele tinha 23 anos de idade e estava casado com a princesa D. Leopoldina da Áustria (1797-1826). Era descrito pelos contemporâneos como bonito, vaidoso e de personalidade difícil, mas também encantadora. Já havia tido diversas amantes, nunca fora discreto.

Segundo o historiador Laurentino Gomes em seu livro 1822 “o príncipe passava a cavalo quando cruzou com Domitila sendo transportada por dois escravos numa cadeirinha de arruar”. Exaltando a sua beleza ele decidiu a transportar até a sua casa. A paixão entre ambos foi fulminante. Em dentro de pouco tempo teve início uma caso amoroso que iria abalar o Brasil.

Em 7 de setembro de 1822 D. Pedro (1797-1834) proclamou a Independência do Brasil as margens do Rio Ipiranga. Quando o jovem foi aclamado “o primeiro rei dos brasileiros” no Teatro da Ópera é muito provável que Domitila de Castro (1797-1867), já grávida de um filho seu, e sua família estivessem presentes e entoando o Hino da Independência. Um ano depois ela e os familiares passaram a viver no Rio de Janeiro.

Quando Domitila (1797-1867) chegou ao Rio de Janeiro ela ainda estava grávida. Porém, não sabemos qual foi o destino da criança, ela pode não ter nascido viva ou pode ter morrido logo depois do partido. A hipótese de um aborto espontâneo também não pode ser descartada. Mas o que sabemos , com certeza absoluta, é que a presença da amante do imperador na capital não foi bem vista.

Domitila de Castro (1797-1867) passou por diversos vexames e humilhações. Em setembro de 1824, cinco meses depois de ter dado à luz uma menina chamada Isabel Maria de Alcântara (1824-1898) a favorita real foi impedida de entrar no Teatrinho Constitucional. Um ano depois, na Semana Santa de 1825, foi obrigada a assistir a missa sozinha na Capela Imperial, quando as demais damas da corte imperial se retiraram devido a presença de uma mulher de “moral duvidosa”.

As coisas melhoraram em abril de 1825 Domitila (1797-1867) foi nomeada dama camarista da imperatriz D. Leopoldina (1797-1826). Este é o ponto de virada de sua história. Até então a jovem paulista era apenas mais uma amante do imperador sendo alvo de fofocas e olhares furtivos, mas com o título passou a ter o direito – e o dever – de conviver com os soberanos, trabalhando e morando alguns dias da semana na Quinta da Boa Vista, a residência oficial do casal imperial na Rio de Janeiro.

Domitila de Castro (1797-1867) que na altura já estava divorciada formalmente do marido, graças a interferência do imperador, tornou-se então uma figura de notoriedade nacional, sendo mencionada em relatos de diversos embaixadores estrangeiros.

Devido a sua proximidade com o imperador Domitila de Castro (1797-1867) logo passou a receber em sua residência, atual do Museu da Moda Brasileira, a visita de servidores e damas do paço. Políticos também figuravam entre os visitantes. Porém, as figuras mais proeminentes deste último grupo, ou seja, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) e seus dois irmãos Martim Francisco Ribeiro de Andrada (1775-1844) e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845) não eram simpáticos com a favorita.

Os irmãos Andrada, os mais influentes membros do governo, responsabilizaram Domitila (1797-1867) pelo fim das investigações em torno dos envolvidos na Bernarda de Francisco Inácio. Não sabemos se ela interviu no caso ou se recebeu subornos para convencer o imperador a decretar anistia geral em favor dos envolvidos na contestada pelo controle do governo da província de São Paulo, mas sabemos que ela sempre foi acusada de tais atos.

Cinco dias depois do nascimento do futuro D. Pedro II do Brasil (1825-1891), em dezembro de 1825, Domitila de Castro (1797-1867) deu à luz um menino, que também se chamava de Pedro. O imperador ficou tão animado que até cogitou a possibilidade de dar ao menino o título de duque de São Paulo, mas tudo veio água abaixo quando o menino faleceu em seguida. Para o consolo de D. Pedro I (1798-1834) pelo menos o seu herdeiro legítimo seguia vivo.

Após a morte de D. Leopoldina (1797-1826) em dezembro de 1826 Domitila (1797-1867), que vai se tornado marquesa de Santos em outubro de 1825, pode ter cogitado a possibilidade de tornar-se a nova esposa do imperador. Porém, a relação iria esfriar.

O Atentado da Glória, evento onde Maria Benedita de Castro Canto e Melo (1792-1757), a baronesa de Sorocaba, foi quase alvejada por um tiro desfavoreceu muito a marquesa de Santos na corte. O imperador que era ciente da rivalidade entre as duas irmãs acreditou que Domitila (1797-1867) fosse a responsável pelo atentado, porém, acabou se convencendo que ela era inocente.

Finalmente em 1829 Domitila de Castro (1797-1867) foi enviada de volta para São Paulo sob as ordens do imperador. Mas longe de chorar pelo leite derramado Domitila (1797-1867) decidiu reconstruir sua vida com força e coragem. Em fevereiro de 1830 ela deu à luz a outra menina chamada Maria Isabel de Alcântara (1830-1896).

“Não sabemos como teve início o romance entre eles, mas seus nomes aparecem juntos, como padrinhos de uma menina, em janeiro de 1833” (REZZUTTI, P. 204, 2019).

Em junho de 1842 Domitila de Castro (1797-1867) contraiu matrimônio com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar (1794-1857), com quem já tinha seis filhos. A cerimônia foi feita em meio ao caos em Sorocaba, São Paulo. Era um período de revolução. Tobias de Aguiar (1794-1857), que era chefe do Partido Liberal Paulista, e seus apoiadores haviam se rebelado contra José da Costa Carvalho (1796-1860), marquês de Monte Alegre, e os conservadores que comandavam São Paulo.

Os liberais também haviam levantando armas em Minas Gerais. Os revoltosos tinham cerca de 1.500 homens, enquanto os chamados legalistas haviam enviado para o combate 700 soldados sob o comando de Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), o futuro duque de Caxias. Fugindo da perseguição Domitila (1797-1867), os filhos e a sogra acabaram se refugiando no convento de Santa Clara.

Diante da iminência de uma invasão de Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), a marquesa de Santos com um enxada em mãos cavou a terra a fim de salvaguardar caixas de ouro e de prata da pilhagem. Tudo foi em vão! Os inimigos não pilharam o local. Ao contrário forneceram uma escolta para acompanhar todos de volta a São Paulo.

Em dezembro do mesmo ano Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880) capturou Tobias de Aguiar (1794-1857) em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, onde ele havia se refugiado. O brigadeiro acabou preso no Forte Tamandaré da Laje, na Bahia de Guanaraba. Em fevereiro do ano seguinte foi transferido para a Fortaleza de Villegaignon. Domitila (1797-1867) na ocasião solicitou permissão do governo imperial para visitar o marido e cuidar de sua saúde. A sua presença foi permitida em Villegaignon.

Um ano depois Tobias de Aguiar (1794-1857) foi libertado após a publicação de uma anistia geral por parte do imperador D. Pedro II (1825-1891). Tanto Tobias de Aguiar (1794-1857) quanto os liberais foram recebidos sob aclamação popular em São Paulo. Parecia que não haviam sido derrotados. Tobias de Aguiar (1794-1857) seguiria atuando na política até faleceu em 7 de outubro de 1857.

Assim aos 60 anos de idade, Domitila de Castro (1797-1867) tornou-se uma viúva. Como uma das pessoas mais ricas de São Paulo decidiu dedicar seu tempo a inúmeras obras de caridade. Ela fez doações para a Guerra do Paraguai e para a Guerra da Cisplatina. Auxiliou na construção de hospitais e enfermarias para os pobres e até ajudou a combater a fome em Cabo Verde. Também custeou a construção da capela do Cemitério da Consolação.

Conta-se que apesar da idade avançada era uma mulher enérgica e ativa. Adorava bailes, saraus e foi patrona de acadêmicos de direito. Domitila de Castro (1797-1867) também fazia apostas em corridas de cavalo, recolhendo o dinheiro em sua bolsa. Foi uma liberal convicta até o fim de sua vida e influenciou diversas decisões políticas em São Paulo.

Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867) finalmente faleceu em 3 de novembro de 1867. A velha marquesa de Santos, como irmã leiga da Ordem Terceira do Carmo, partiu trajando apenas uma túnica marrom e uma capa amarelo-clara. Foi vítima de enterocolite aguda. Ela foi sepultada no Cemitério da Consolação, num túmulo que recebe preregrinos até os dias de hoje.

Fontes:

REZZUTTI, Paulo. Domitila: a verdadeira história da marquesa de Santos. 2° ed. São Paulo: Geração Editorial, 2017.

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.

GOMES, Laurentino. 1822. Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para não errado. 1° ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

4 comentários em “A verdadeira história da Marquesa de Santos a “vilã” de ‘Novo Mundo’

    1. Olá Douglas, eu fico muito feliz ao saber que você gostou da matéria. Sim, d. Pedro teve um caso amoroso com Maria Benedita. Obrigada pela audiência.

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