Desilusões e traições: saiba como foi o casamento de Dona Leopoldina e Dom Pedro I do Brasil

D. Pedro I do Brasil (Caio Castro) e D. Leopoldina de Áustria (Letícia Colin) em Novo Mundo. O casal imperial visitando o orfanato Romão Duarte no Flamengo, Rio de Janeiro, pintura de Arnaud Pallière de 1826. © Rede Globo/Wikimedia Commons

Com a reprise da reprise da telenovela Novo Mundo pela Rede Globo o casamento de Dom Pedro I do Brasil e IV de Portugal (1798-1834) com sua primeira esposa Dona Leopoldina de Áustria (1797-1826) volta a ser o centro das atenções. Saiba tudo sobre o relacionamento íntimo dos primeiros imperadores do Brasil a seguir.

Um casamento político marcado por ilusões

O casamento de Dom Pedro I do Brasil e IV de Portugal com Dona Leopoldina de Áustria tinha como principal objetivo tirar a monarquia portuguesa da esfera de influência britânica no início do século XIX. Após ficar meses a bordo de um navio atravessando o Oceano Atlântico a arquiduquesa austríaca desembarcou em terras brasileiras em 5 de novembro de 1817.

Nas cartas que Dona Leopoldina escreveu a sua irmã Maria Luísa de Áustria (1791-1847) ela fala sobre sua paixão pelo marido que conheceu através de um medalhão enviado por seu sogro, o Rei Dom João VI de Portugal (1769-1826), por intermédio de Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho (c. 1775-1823), 6° Marquês de Marialva, o responsável diplomático pela negociação do casamento.

No mesmo dia do desembarque no Brasil, Dona Leopoldina e a Família Real Portuguesa se dirigiram a Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé onde ela e Dom Pedro recebeu as bênçãos nupciais. O casamento civil já havia sido celebrado em Viena. Na ocasião Dona Leopoldina usou um pesado vestido branco e o noivo foi representado pelo Arquiduque Carlos da Áustria-Teschen (1771-1847), tia de Dona Leopoldina.

Após o fim da cerimônia todos se dirigiram para Paço Imperial que não ficava muito distante da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé. O jovem casal então apareceu no balcão do Paço Imperial para ser saudado pelo povo e assistiu uma parada militar. Quando a noite chegou os noivos foram para o Palácio da Quinta da Boa Vista, onde foram lavados e preparados pelos membros da Família Real Portuguesa.

A partir de então Dona Leopoldina e Dom Pedro passaram a ocupar uma ala na Quinta da Boa Vista e em abril de 1819 nasceu, Dona Maria da Glória (1819-1853), o primeiro dos nove filhos do casal. O parto foi demorado se prolongando por seis horas. Dona Leopoldina em cartas enviadas a sua irmã Maria Clementina de Áustria (1798-1881) relatou que o cirurgião “quase me dilacerou”.

Somado ao trauma do primeiro parto nesta mesma época teve início o desencanto de Dona Leopoldina com Brasil e com o marido. Ela não conseguiu se habituar ao clima quente dos trópicos e aos mosquitos que a picavam. A gordurosa comida portuguesa também não era de seu agrado. Como se isso não fosse suficiente a Quinta da Boa Vista, se fosse comparada aos esplendorosos palácios austríacos, também não eram um lugar confortável.

Porém, o que deixou Dona Leopoldina mais desolada – um fato que a novela Novo Mundo não retrata – foi o regresso de suas damas austríacas e de sua baba Francisca Annony a Europa, em março de 1818, após a aclamação de Dom João VI de Portugal como rei no Rio de Janeiro. A partir de então a princesa se viu sozinha numa corte que era cheia de conflitos de interesses e intrigas políticas.

No Brasil Dona Leopoldina também não desfrutava da mesma liberdade que disfrutava em Viena. Na América Latina a livre circulação das mulheres de alta classe ainda era um tema tabu, de modo que Dona Leopoldina só tinha permissão para passear no Rio de Janeiro em ocasiões festivas. Além dos mais, segundo suas afirmações em cartas endereçadas aos parentes, a corte portuguesa carecia de distrações e saraus.

Mas talvez o que mais tenha afetado Dona Leopoldina foi a desilusão romântica. Aos poucos Dom Pedro foi mostrando a sua verdadeira face. O príncipe era impetuoso, inseguro e ciumento. Era difícil agradá-lo. Acostuma as lisonjas dos súditos portugueses o jovem acreditava que tudo deveria ser feito a seu gosto, mas quando percebia que havia passado dos limites sempre pedia desculpas à esposa.

Após a partida da Família Real Portuguesa do Brasil, em abril de 1821, Dom Pedro foi nomeado príncipe-regente do Brasil por Dom João VI. Dona Leopoldina permaneceu ao seu lado na América Latina e sua influência sobre o marido cresceu durante esse período ao ponto da mesma tornar-se uma figura de peso no processo que culminou na Proclamação da Independência do Brasil. Quando Dom Pedro deu o célebre Grito do Ipiranga ela atuava como regente na capital.

Traições discretas que se tornaram públicas

Desde o início do casamento Dona Leopoldina era ciente dos casos extraconjugais do marido, porém a mesma não contava com o aparecimento de Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867) na vida do monarca. Domitila era uma jovem mulher paulista descrita como alegre, cativante, dona de grandes olhos negros e longo cabelos lisos. Domitila seria a maior paixão de vida de Dom Pedro I que no primeiro semestre de 1823 a instalou no Rio de Janeiro.

No início o caso amoroso foi discreto, mas com o passar do tempo Domitila foi se tornando mais presente na vida do imperador sendo elevada pelo amante aos poucos. Em 1824 ela foi oficialmente apresentada a imperatriz e em abril do mesmo ano foi nomeado sua dama camarista passando a convier com a soberana no Palácio da Quinta da Boa Vista. Sem perder tempo em outubro do mesmo ano ela foi feita foi feita viscondessa de Santos, passando a ser nobre.

Não existem testemunhos que descravam como era a convivência das duas mulheres, mas podemos deduzir que tudo transcorria com tranquilidade entre as duas. Dona Leopoldina era extremamente ciente da importância de sua posição política e social evitando assim protagonizar escândalos ao confrontar a favorita real em público para não prejudicar a imagem da Coroa Imperial do Brasil e da Dinastia de Bragança.

De qualquer modo Dona Leopoldina e Domitila de Castro, que seria nomeada Marquesa de Santos em outubro de 1826, conviveram pouco tempo juntas. Em 11 de dezembro de 1826 Dona Leopoldina faleceu vítima de infecção generalizada que não pode ser retratada pelos médicos da corte. Não se sabe se nesse momento passou na cabeça de Domitila a possibilidade de tornar a próxima esposa de Dom Pedro, apesar do caso de ambos continuar até 1829 ela acabou sendo expulsa da corte para a chegada de uma nova imperatriz: Dona Amélia de Leuchtenberg (1812-1873).

Fontes:

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: a história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2015.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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