A inacreditável história de Eugenia Martínez Vallejo

Estátua em bronze de Eugenia Martínez Vallejo, obra de Amado Fernández Hevia “Favila”, na cidade de Aviles, Espanha. © Wikimedia Commons

Eugenia Martínez Vallejo (1674-1699) é uma das personagens mais interessantes da historia espanhola do século XVII. Devido a sua aparência diferenciada causada por seu sobrepeso, decorrente de uma doença, ela viveu na corte do Rei Carlos II de Espanha (1661-1700) e foi uma verdadeira sensação entre os cortesãos.

Eugenia Martínez Vallejo nasceu em 1674 após sua mãe Antonia de la Bodega, sentir as primeiras contrações de maneira inesperada durante a celebração de uma missa. Não houve tempo para transportar Antonia até sua casa, sendo assim ela deu à luz no meio da igreja, algo que foi considerado um sinal de boa sorte.

Durante os seus primeiros meses de vida Eugenia cresceu robusta e saudável. Porém, os problemas começaram a surgir quando a menina fez um 1 de idade. Nesta época ela já pesava vinte e cinco quilos e aos 6 anos chegou a pesar mais de setenta e cinco quilos, deixando todos a sua voltaram impressionados.

Nem mesmo uma dieta mais rigorosa conseguiu a façanha de diminuir o peso da menina. Com o passar do tempo Eugenia acabou sendo motivo de chacota dos vizinhos e foi discriminada pelas outras crianças, sendo excluídas das brincadeiras infantis. Para evitar maiores problemas os pais de Eugenia decidiram manter a criança trancada dentro de casa. Porém, sua fama já havia se estendido e chegou à Corte Real.

Interessado pela menina o Rei Carlos II de Espanha ordenou que Eugenia fosse transportada desde Bárcena, onde vivia com a família, até Madri, capital da Espanha. Ela acabou sendo selecionada para integrar um seleto grupo conhecido como gente de placer e passaria a viver na corte espanhola para entreter os cortesãos.

A gente de placer era composta por indivíduos com problemas mentais, nanismo ou deformidades físicas. O peculiar grupo era mantido na corte espanhola desde meados do século XVI remontando ao reinado do Imperador Carlos V (1500-1558), que inclusive tinha um anão que o acompanhava em todos os lugares.

Embora essa prática parece cruel e vergonhosa nos dias de hoje devemos levar em conta o contexto da época, quando esse tipo de comportamento era considerado normal, tendo em vista que noções sobre Direitos Humanos e bullying ainda não haviam sido formuladas. De acordo com a mentalidade da época a gente de placer não possuía maldade, pois suas deficiências eram frutos da vontade divina. Sendo assim a gente de placer não teria inclinações relacionadas ao poder ou ao dinheiro, se revelando verdadeiros amigos dos soberanos espanhoís.

De fato, a gente de placer não era remunerada financeiramente por “seus serviços” aos cortesãos, mas em troca recebiam acomodações nos palácios, muitas vezes próximas dos aposentos reais, roupas luxuosas e alimentação gratuita. Eles também possuíam livre acesso aos soberanos quando muitos nobres esperavam semanas por uma breve audiência.

Eugenia Martínez Vallejo foi um verdadeiro sucesso na corte de Carlos II de Espanha e foi exibida em muitas festas palacianas. A pequena também posou para inúmeros retratos ao lado de muitas damas da corte. Todavia, as obras mais famosas onde Eugenia figura foram aquelas pintadas pelo artista Juan Carreño Miranda (1614-1685).

Na década de 1680 a pequena se tornou musa de Miranda sendo retratada em duas telas, que atualmente estão em exposição no Museu do Prado, o mais renomado museu espanhol. Na obra Eugenia Martínez Vallejo vestida, a menina segura em sua mão esquerda uma maçã, o símbolo universal da tentação, que pode nos remeter a ideia de sua fome constante. Já na segunda obra Eugenia Martínez Vallejo nua, a menina sustenta na mão esquerda um cacho de uvas, cujas folhas cobrem suas região íntima, sendo representada como o deus Baco.

As teorias médicas modernas apontam para a possibilidade de Eugenia ser portadora da Síndrome de Prader-Willi. Uma das principais características dessa síndrome é a fome constante, levando à obesidade. Deficiência intelectual e baixa estatura também estão presentes no quadro clínico.

Apesar de ser relativamente famosa sabemos poucas dados concretos do cotidiano de Eugenia Martínez Vallejo que morreu em 1699, aos 25 anos de idade. Seu desaparecimento deve ter causado uma grande tristeza em Carlos II, a quem ela era muito chegada. O rei, que também padecia de alterações genéticas, morreria no ano seguinte em 1 de novembro de 1700. Após sua morte teve lugar a Guerra de Sucessão Espanhola.

Fontes:

MORENO, César Cervera. Los Austrias: El imperio de los chiflados. 1° edição. Madri: La esfera de los livros, 2016.

Las estatuas de Avilés amanecen con carteles por la diversidad sexual. Disponível em: <https://www.elcomercio.es/aviles/estatuas-aviles-amanecen-20190616131440-nt.html?ref=https:%2F%2Fwww.google.com%2F>. Acesso em 15. mai. 2020.

MARTÍN, Jaime Luis. Eugenia Martínez Vallejo. Disponível em: <https://www.lne.es/aviles/2014/03/02/eugenia-martinez-vallejo/1550827.html>. Acesso em 14. mai. 2020.

ALONSO, José Ramón. La “Monstrua” y el síndrome de Prader-Willi. Disponível em: <https://jralonso.es/2013/11/23/la-monstrua-y-el-sindrome-de-prader-willi/>. Acesso em: 14. mai. 2020.

Eugenia Martínez Vallejo, la llamada ‘niña monstrua de los Austrias’. Disponível em: <https://www.antrophistoria.com/2018/01/eugenia-martinez-vallejo-la-llamada.html?m=1>. Acesso em: 15. mai. 2020.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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