Toda a verdade sobre Elizabeth Bathory (1560-1614)

Retrato de Elizabeth Bathory, provavelmente do século XVII. Anna Friel como a condessa húngara no filme Bathory, de 2008. © Wikimedia Commons/Pinterest

Entre os séculos XVI e XVII uma mulher pretensamente inofensiva aterrorizou o reino da Hungria. Seu nome era Elizabeth Bathory (1560-1614) e suas atividades aparentemente eram bastantes obscuras. De acordo com a lenda ela torturou e matou indiscriminadamente as suas jovens criadas. Mas seria tudo isso verdade? Ela matou 630 mulheres? Descubra a seguir.

Primeiros anos e noivado

Elizabeth Bathory nasceu em 7 de agosto de 1560, em Nyírbátor, Hungria em uma das inúmeras propriedades de poderosa família. Seu pai era George VI Bathory (1534-1570) e sua mãe Anna Báthory (1539–1570). Tanto seu pai quanto sua mãe eram aparentados com voivodas da região. Além disso sua família governava a Transilvânia como um principado praticamente independente da Hungria no século XVI acumulando muitas terras e riquezas.

Durante a infância a futura condessa foi vítima de epilepsia, que possivelmente era fruto da consanguinidade de seus pais, que eram primos. Apesar de seus problemas de saúde Elizabeth foi uma aluna aplicada aprendendo a falar fluentemente latim, eslovaco, alemão e grego, além disso ela também lia e escrevia, o que colocava a sua instrução intelectual acima da média.

Sem sombra de dúvidas Elizabeth também aprendeu o que toda mulher de classe alta aprendia na época: ser uma boa esposa, uma mãe dedicada, ser conhecedora das regras de etiqueta, das normas de conduta consideradas apropriadas e saber como administrar grandes propriedades durante as ausências do futuro marido para resguardar corretamente as posses da família.

Como era costume na época Elizabeth ficou noiva ainda muito jovem, quando tinha apenas 10 anos de idade. O homem escolhido para ser seu marido foi o Conde Ferenc II Nádasdy (1555-1604), um nobre e militar húngaro que ficaria conhecido por seus feitos valentes em campo de batalha. A partir do noivado Elizabeth se estabeleceu na residência da família de Nádasdy para completar a sua educação, como era o costume.

Vida de casada e filhos

Segundo uma lenda durante esse período Elizabeth teria dado à luz uma filha, que foi fruto de um amor proibido com um camponês. Nádasdy ao descobrir a traição teria castrado o homem e o jogado aos cães selvagens como forma de punição. Após a morte do amado Elizabeth teria sido forçada a se separar da criança, que foi entregue aos cuidados de um casal de camponeses.

Seja isso verdade ou não o fato é que Elizabeth, aos 14 anos, se casou com Ferenc II Nádasdy, na altura com 19 anos, em meio a uma grande cerimônia no Castelo de Varannó em 8 de maio de 1575, que contou com a participação de 4500 convidados incluindo a nobreza e cortesãos do reino da Hungria em peço.

Mesmo casada Elizabeth tomou uma decisão incomum na época. Manteve o sobrenome de sua família pelo fato do clã Bathory ser mais célebre do que o cão de seu marido. Durante os primeiros anos de casamento o jovem casal morou nos Castelos de Nádasdy, de Sárvár e de Csetje. Todavia, Elizabeth passava a maior parte do tempo sozinha devido as constantes atividades militares do marido que estava nos campos de batalha impedindo que os turcos otomanos invadissem a Hungria, e consequentemente a Europa. Em 1578 ele se tornou o principal comandante das tropas húngaras.

Isso não impediu, embora tenha atrasado, o nascimento de filhos. A primeira filha do casal Ana, nasceu em 1585. Ela foi seguida por Ursula em 1590, por Catarina em 1594, por András em 1596 e por Paul nascido em 1598. Algumas crônicas também indicam que Bathory teve outros dois filhos Miklós e George, que teriam morrido durante a infância.

Supostas torturas

Segundo a versão mais conhecida usada para explicar a origem da violência de Elizabeth se conta que ela aprendeu métodos de tortura que seu marido usava nos inimigos turcos. É praticamente um consenso geral entre os historiadores: foi o próprio marido que a ensinou técnicas de tortura por cartas.

Solitária e com um poder limitado sobre os seus servos Elizabeth começou a empregar punições corporais severas sobre aqueles que desobedecessem suas regras como forma de passatempo. Consequentemente a condessa acabou se tornando mais cruel. A partir de um determinado momento qualquer coisa poderia chateá-la.

Talvez um dos principais fatores que tenha levado Elizabeth a perder a mão era o sentimento de impunidade que reinava entre a nobreza, que era protegida pela legislação. Além disso Matias II do Sacro Império Romano-Germânico (1557-1619), que também reinava sobre a Hungria, devia ao casal uma astronômica soma de dinheiro que havia tomado emprestado para custear a guerra contra o Império Turco Otomano.

Segundo o livro Lady Killers: Assassinas em Série, escrito por Tori Telfer, Nádasdy ensinou a esposa a “enrolar um pedaço de papel oleado, colocá-lo entre os dedos dos pés de uma criada desobediente e, em seguida, incendiar o papel”. Elizabeth também usava uma luva com garras afiadas para cortar a carne de suas servas desobedientes. A partir de então as torturas só aumentaram.

A condessa também passou a colocar fogo nos pelos pubianos das jovens, e durante o inverno ordenava que elas ficassem nuas e se banhassem com água gelada no meio dos campos de suas propriedades. No verão a modalidade de tortura mudava. As jovens eram despidas e então untadas com mel para serem picadas por insetos até suas carnes ficarem mutiladas. Mordidas em seios e rostos se tornaram coisas corriqueiros. As servas também eram vítimas de queimaduras com ferro em brasa e moedas quentes.

Quando alguma mulher errava um ponto de costura Elizabeth também costumava inserir agulhas em baixo das unhas das mesmas como punição. Num determinado momento Elizabeth passou a espancar pessoalmente as suas criadas. Em 1601 uma misteriosa mulher chamada Anna Darvulia, e com fama de bruxa, aparece na história. Segundo o que se conta Elizabeth se tornou mais sombria e adepta de rituais místicos devido a sua influência.

Viuvez e encerramento

Em 4 de janeiro de 1604 Ferenc Nádasdy morreu e Elizabeth se viu viúva aos 44 anos de idade. Antes de partir sabemos que o militar pediu ao seu primo George Thurzó (1567-1616) que cuidasse do bem-estar de sua esposa e filhos. Ironicamente seria Thurzó quem lideraria a investigação dos supostos crimes cometidos por Elizabeth.

Após a morte de Nádasdy a situação se tornou insustentável. O desaparecimento de criadas não passava despercebido nos povoados que cercavam os castelos da condessa e as suas criadas eram vistas machucadas com frequência. Nem mesmo as desculpas de epidemias e suicídios convenciam mais. Para piorar a situação Elizabeth se tornou descuidada. As covas onde as jovens eram enterradas eram tão rasas que continuamente os cachorros apareciam com pedaços de carne humana.

Como Bathory não conseguia mais contratar servas por causa de sua má fama ela decidiu abrir uma escola, chamada de Gynaeceum, para treinar jovens damas da nobreza. Além de fornecer um bom lucro financeiro para a condessa a escola também fornecia novas vítimas. Mas o projeto se revelou um grande erro, pois matar filhas de nobres não era uma boa ideia. Após o desaparecimento das jovens as autoridades finalmente decidiram agir. Convencido das atividades macabras de Bathory o Imperador Mathias II ordenou o início de uma investigação em fevereiro de 1610.

Quando Thurzó e seus homens chegavam as propriedades de Bathory encontravam os camponeses acuados, enterros acontecendo e perceberam que os castelos eram fortemente protegidos. Conforme as investigações prosseguiam vieram à tona relatos sobre a violência de Elizabeth. Em 30 de dezembro do mesmo ano Thurzó adentrou no Castelo de Csetje e encontrou criadas em estado lastimável. Elizabeth alegou inocência, mas no dia seguinte foi recluída em seus aposentos.

Anteriormente Thurzó havia debatido como proceder com a condessa com o filho da mesma, Paul, e seus dois genros. Inicialmente os homens pensaram em colocar Elizabeth num convento, mas finalmente optaram por prisão domiciliar para evitar um escândalo ainda maior. A condessa não compareceu ao seu julgamento, mas seus ajudantes sim. A ex-enfermeira de seus filhos Ilona Jó, a bruxa Dorotta Szentes, que subsistiu Darvulia após a morte da mesma, e o anão Ficzkó receberam a pena de morte.

As duas mulheres tivéramos seus dedos arrancados e foram jogadas na fogueira. Ficzkó foi decapitado e também teve o corpo queimado. Catarina, uma jovem lavadeira que também teria participados dos crimes, foi posta na prisão. Por sua vez Elizabeth Bathory foi encontrada morta em 21 agosto de 1614 em seus aposentos no Castelo de Csejthe, aos 54 anos de idade, não demonstrando arrependimento pelo o que havia feito.

Fato e mentira

Qual foi a origem de tanta violência? Não sabemos. Algumas lendas afirmam que Elizabeth Bathory testemunhou eventos terríveis durante a infância, algo que a teria marcado profundamente, mas não temos nenhum respaldo histórico para embasar essas lendas. Também devemos nos atentar ao fato de que as histórias envolvendo os supostos banhos de sangue que a condessa tomava para rejuvenescer surgiram um século depois de sua morte, e foram baseadas em relatos folclóricos de camponeses locais.

Aparentemente tais relatos surgiram como uma maneira de encontrar uma força motriz que explicasse o porquê de tanta crueldade numa mulher bonita e de aparência inofensivas. É bastante plausível que talvez Elizabeth Bahory só tenha perdido a mão com as suas punições corporais. Afinal, nem toda maldade tem uma explicação.

Porém, a pergunta que não quer calar é: quantas pessoas Elizabeth assassinou ao total? Os números mais extravagantes chegam a seiscentas e trinta mulheres, mas novamente nos deparamos com um sério problema: não existem documentos históricos que comprovem essa afirmação. O suposto diário que conteria o nome de seiscentas e trinta pessoas pessoas nunca foi encontrado e parece ser mais lenda do que a realidade.

Tendo isso em vista atualmente os historiadores calculam que Elizabeth Bathory tenha matado cerca de cento e cinquenta ou duzentas pessoas. O que já é um número bastante vultuoso. Após sua morte Elizabeth Báthory foi sepultada em Ecsed, na cripta da família Báthory. A localização do seu corpo hoje é desconhecida.

Fontes:

TELFER, Tori. Lady Killers: Assassinas em Série. Tradução de Daniel Alves da Cruz. 1° ed. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2019.

SHERMAN Elizabeth. The Disturbing True Story Of Elizabeth Bathory, The Blood Countess. Disponível em: <https://allthatsinteresting.com/elizabeth-bathory-true-story>. Acesso em: 22. jun. 2020.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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