Resenha (com spoiler) de ‘Meu Adorado Pedro’

Capa do livro Meu Adorado Pedro: romance baseado na vida de dona Leopoldina. © Arquivo Pessoal

O romance ‘Meu Adorado Pedro’ foi escrito pela carioca Vera Moll e publicado em 2001, pela Editora Bom Texto. A obra aborda a vida e as tristezas de Dona Leopoldina de Áustria, Imperatriz do Brasil (1797-1826), conhecida por ter sido a primeira esposa de Dom Pedro I (1798-1834) e uma figura chave no processo que culminou na Proclamação da Independência do Brasil.

A narrativa do livro de Vera Moll se inicia no ano de 1817 quando Dona Leopoldina, que já conta 20 anos de idade, toma conhecimento da notícia que um casamento dinástico lhe foi arranjado. O escolhido para ser seu esposo foi o herdeiro do riquíssimo Império Português, o Príncipe Dom Pedro de Bragança, filho mais velho do Rei Dom João VI de Portugal (1767-1826).

O futuro esposo é descrito pelo encarregado português de negociar o casamento, Dom Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho (c. 1775-1823), 6 º Marquês de Marialva, como o mais polido dos príncipes. O embaixador até mesmo chega a afirmar para a arquiduquesa, em seu primeiro encontro, que Dom Pedro era um entusiasta de mineralogia, um dos campos de estudo preferidos da jovem austríaca.

Tendo isso em mente, aliada a descrição extremamente positiva da aparência física do pretendente, não é de se espantar com o fato que Dona Leopoldina tenha caído de amores pelo homem que estava do outro lado do oceano antes mesmo de conhecê-lo. Após uma viagem de três meses pelo Oceano Atlântico, o encontro entre os cônjuges finalmente se deu em 05 de novembro de 1817, na Bahia de Guanabara, no Rio de Janeiro.

Em terras tupiniquins as ilusões que Dona Leopoldina havia fomentado ainda na Europa vieram água abaixo. Na realidade a Corte Portuguesa era um lugar hostil, marcado por intensas rivalidades cortesãs. Haviam até mesmo divisões e conflitos entre os membros da Família Real Portuguesa. Pelas tendências políticas liberais de Dom Pedro o Rei Dom João VI preferia depositar sua confiança na Princesa Dona Maria Teresa de Bragança (1793-1874), que compartilhava com o monarca o pensamento absolutista.

Porém, o Rio de Janeiro não decepcionou a protagonista. A paisagem da cidade era de tirar o fôlego da arquiduquesa. Realmente a sede da coroa portuguesa era tudo aquilo e muito mais do que lhe fora descrito pelos viajantes e exploradores. Além da paisagem exuberante o Brasil também era um paraíso para expedições cientificas devido a sua fauna e flora riquíssimas e ainda inexploradas. Ciente disso Dona Leopoldina não perdeu tempo e coletou diversas amostras de minerais que foram enviados a Europa.

Entretanto, também havia a parte negativa. Em uma corte que tinha a equitação e a música como as principais formas de entretenimento Dona Leopoldina, durante a narrativa, relata sentir falta de poder dançar uma valsa “de vez em quando”. A escravidão, os mosquitos, o calor e a falta de infraestrutura da Quinta da Boa Vista, onde residia a Família Real, também incomodavam a esposa de Dom Pedro de modo que tais assuntos sempre figuravam nas cartas que envia a irmã Maria Luísa de Áustria (1791-1847), a viúva de Napoleão Bonaparte (1769-1821). Mas o que mais incomoda – ou melhor – magoa a princesa eram as traições descaradas do marido com as mais diversas mulheres das mais variadas classes sociais.

Após setembro de 1822, data da Proclamação da Independência do Brasil, as atitudes de Dom Pedro em relação a esposa se tornaram mais arbitrárias. O agora imperador mandaria trazer de São Paulo Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), uma mulher de cabelos e olhos negros, com quem começa um duradouro relacionamento amoroso que resultaria no nascimento de diversos filhos ilegítimos que receberiam títulos e atenção por parte do monarca.

Um dos pontos que mais me agradou no livro foi o fato da autora ter inserido Domitila na narrativa já nos últimos capítulos. As cenas da paulista são poucas e breves, de modo que Dona Leopoldina se torna realmente a protagonista do romance. Isso também não cria um antagonismo excessivo entre as duas mulheres, algo muito comum de ser feito nos dias de hoje. O livro realmente se trata das alegrias e tristezas de Dona Leopoldina e não de um conflito entre duas mulheres pelo coração de um homem.

Outro ponto notável do livro é apatia de Dona Leopoldina, que até mesmo chega a irritar o leitor em determinados pontos. Numa tentativa de negar a realidade que a cercava Dona Leopoldina creditava as atitudes do marido as pessoas que rodeiam não o responsabilizando por seus atos inconsequentes. Vera Moll também é uma personagem do livro. Em diversas cenas do romance ela transportar-se do século XII para o século XIX e mantém diversos diálogos com a protagonista sobre a situação que a mesma se encontra e aborda a temática mencionada no primeiro paragrafo.

De uma maneira contundente, e até com palavras duras, Moll aconselha Dona Leopoldina a finalmente tomar um posicionamento, afirmando que o maior culpado daquela situação embaraçosa envolvendo a imperatriz e Domitila é o próprio imperador. Todavia, Dona Leopoldina reluta em aceitar os fatos. Em sua vã ilusão a personagem acredita que tudo aquilo passará. Até mesmo as dificuldades econômicas e as constantes críticas e fofocas das damas portuguesas da corte são suportadas com resignação.

A morte do pequeno Dom João Carlos, Príncipe da Beira (1821-1822), é um dos pontos mais marcantes do romance. Dom João Carlos foi o filho mais velho de Dona Leopoldina e Dom Pedro e morreu após um acesso de febre após o deslocamento de Dona Leopoldina para a Fazenda de Santa Cruz devido a distúrbios causados pelas tropas portuguesas nos incidentes que antecederam a Proclamação da Independência.

Porém, a morte mais comovente do livro é a morte da própria Dona Leopoldina. Em dezembro de 1826, aos 29 anos de idade, a primeira esposa de Dom Pedro I morreu em meio a delírios e febres na Quinta da Boa Vista, após viver uma vida dedicada a manutenção da boa imagem da coroa. Aquela que mulher de estatua mediana, corpulenta, de cabelos loiros, olhos azuis e pele clara, fora consorte imperial por escassos quatro anos, mas deixaria marcas indeléveis na história do Brasil.

Com um escrita simples, porém elegante e doce, ao ponto de tornar-se comovente, Vera Moll consegue captar a tristeza de Dona Leopoldina e os motivos de sua não-reação diante das humilhações que lhe são impostas dia após dia por seu marido. Sem sombra de dúvidas o livro ‘Meu Adorado Pedro’ é um romance de ótima qualidade que relatos os eventos públicos e privado da vida de Dona Leopoldina de maneira direta e concisa proporcionando uma leitura simples, mas ao mesmo tempo enriquecedora.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: