‘Novo Mundo’: quem foi Dona Leopoldina na vida real?

D. Leopoldina (Letícia Colin) em Novo Mundo. Retrato de D. Leopoldina por Joseph Kreutzinger, 1815. © Rede Globo/Wikimedia Commons

Letícia Colin roubou a cena em Novo Mundo com sua interpretação de Dona Leopoldina de Áustria (1797-1826). A primeira esposa de Dom Pedro I do Brasil (1798-1834) é uma das personagens mais amadas do maior país América Latina. Figura chave para a Proclamação da Independência, sua vida foi uma verdadeira mescla de força, resignação e sentido de dever.

Nascimento e educação

Dona Leopoldina nasceu em 22 de janeiro de 1797 no Palácio de Schönbrunn. Ela foi a quinta dos doze filhos do imperador Francisco I da Áustria (1768-1835) e sua segunda esposa Maria Teresa de Nápoles e Sicília (1772-1807), que faleceu em 13 de abril de 1807, quando a arquiduquesa tinha apenas 10 anos de idade.

Logo depois Francisco I voltou a se casar. A escolhida foi Maria Luísa de Áustria-Este (1787-1816) com quem Dona Leopoldina criou laços profundos. Maria Luísa desempenhou um papel importante na corte vienense. A nova imperatriz era uma figura carinhosa e assumiu difícil função de cuidar da educação de seus enteados.

Assim Dona Leopoldina cresceu no requintando ambiente da corte vienense e recebeu uma excelente educação. Ela estudou línguas incluindo alemão, italiano, francês e inglês e matérias como dança, desenho, pintura, história, geografia, música, matemática, literatura, física, canto e também trabalhos manuais.

Durante boa parte da infância e adolescência de Dona Leopoldina a Áustria esteve que guerra com a França expansionista de Napoleão Bonaparte (1769-1821). Uma solução, ainda que humilhante para a Áustria, foi casar a princesa Maria Luísa (1791-1847) com o imperador francês em 1810.

Casamento com Dom Pedro I do Brasil

Em 1817 chegou a vez de Dona Leopoldina subir ao altar. Nesta altura Dom João VI (1767-1826), rei de Portugal, que vivia no Rio de Janeiro com sua corte, buscava por meio de uma aproximação com a Áustria sair da esfera de influência dos britânicos através de uma noiva politicamente vantajosa para o seu herdeiro.

Tendo em vistas as vantagens políticas da união, o imperador Francisco I, pai de Dona Leopoldina, aceitou a proposta do governo português. Em 13 de maio de 1817 a arquiduquesa loira, de olhos azuis, foi casada por procuração com Dom Pedro de Bragança (1798-1834) na Igreja de Santo Agostinho numa cerimônia luxuosa.

Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho (1775-1823), o Marquês de Marialva, foi o encarregado de finalizar as negociações diplomáticas, e chegou até mesmo a dizer para Dona Leopoldina que seu futuro marido era um apaixonado pelo estudo de botânica. O que, de fato, não condizia com a realidade.

O Marquês de Marialva é conhecido por não ter poupado esforços para impressionar a corte de Viena. Após a cerimônia de casamento ele proporcionou a corte uma grande festa aos nobres austríacos, onde não faltava bebidas e comidas.

Conta-se que até mesmo as louças, onde as refeições eram servidas, eram feitas de ouro. O plano deu certo, as comemorações impressionaram tanto os europeus que durante boa parte do século XIX a expressão casamento brasileiro era sinônimo de ostentação entre a elite.

Vida no Brasil

Apesar de ser uma jovem que nunca havia se separado da família e que partia para um mundo totalmente desconhecido Dona Leopoldina se comportou da melhor maneira possível quando partiu de Viena. A julgar pelas cartas que a jovem escreveu para parentes ela estava muito entusiasmada com a empreitada.

Ao contrário do que é mostrado na telenovela Novo Mundo Dona Leopoldina não teve nenhuma professora de português chamada Anna Millman. Ela já embarcou no navio Dom João VI falando a língua de sua família de adoção com notável desenvoltura.

Apesar de inicialmente se pensar na possibilidade de Dona Leopoldina em dentro de três anos passar a residir em Portugal ela nunca voltou para a Europa. Em 5 de novembro do mesmo ano ela desembarcou na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Sua recepção foi apoteótica.

Durante os primeiros anos de casamento Dona Leopoldina foi feliz ao lado do marido. Os jovens, que ocupavam uma ala na Quinta da Boa Vista, passeavam pela Floresta da Tijuca ou passavam as tardes lendo juntos. Frequentemente a princesa também acompanhava Dom Pedro no piano.

Porém, em dentro de pouco tempo Dom Pedro deu os primeiros sinais de sua personalidade difícil. Menos de um ano depois do casamento ele já tinha amantes, e mesmo antes da chegada da consorte havia deixado a atriz Noémi Thierry, com quem tinha um caso, grávida.

Ainda em março de 1818, as damas austríacas de Dona Leopoldina e sua babá Francisca Annony foram dispensadas, provavelmente devido ao ciúmes do marido. As pessoas mais próximas dela na corte eram o sogro Dom João VI de Portugal e a cunhada, a Princesa Dona Maria Teresa de Bragança (1793-1874), que logo foram embora.

Imperatriz do Brasil e influência política

Finamente em abril de 1821 Dom Pedro assumiu uma função de peso na política. Após a partida do rei Dom João VI e sua corte para a Europa Dom Pedro foi nomeado Príncipe Regente do Brasil. Dona Leopoldina permaneceria ao seu lado.

Enquanto isso na Europa, após pressionaram o monarca português a jurar uma Constituição liberal, as Cortes Portuguesas, que virtualmente governavam Portugal, temendo uma emancipação política por parte do Reino do Brasil decidiram promulgar uma série de medidas que diminuíam o poder do regente.

De acordo com Paulo Rezzutti em D. Leopoldina: a história não contada, inicialmente Dom Pedro preferiu não contrariar as Cortes Portuguesas, porém Dona Leopoldina percebeu que Portugal “já estava perdido para eles e que o Brasil jazia ainda como uma tela em branco”, ou seja, seria mais vantajoso para o casal real e para Dinastia de Bragança advogar pela independência do Brasil que poderia se tornar “uma potência futura, muito mais relevante que a velha metrópole”.

Ao lado de José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), e seus irmãos Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845) e Martim Francisco Ribeiro de Andrada (1775-1844), a princesa foi uma figura de peso no processo que culminou na Proclamação da Independência em 7 de setembro de 1822.

Conta-se que quando Dom Pedro cogitou a possibilidade de regressar a Portugal Dona Leopoldina se recusou a partir alegando que a travessia pelo Atlântico poderia causar algum mau a ela ou a criança que carregava. Ela estava grávida de seu sexto filho.

Finalmente em 9 de janeiro de 1822 Dom Pedro concordou em continuar no Brasil se recebesse apoio das províncias e da população, algo que, de fato, aconteceu. Em março Dona Leopoldina deu à luz a Princesa Dona Januária (1822-1901), e em setembro as margens do Rio Ipiranga o marido deu o célebre grito “Independência ou Morte”.

Vida após a Independência

Após a Proclamação da Independência a influência de Dona Leopoldina sobre o marido diminui significantemente, embora ela seguisse sendo uma importante figura da corte, sendo adorada principalmente pela população. Ela seria eclipsada por Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), a Marquesa de Santos, a mais célebre amante do agora imperador.

Por mais estranho que possa parecer a atitude passiva da imperatriz diante do caso escandaloso do marido tinha uma motivação política. Paulo Rezzuti argumenta que Dona Leopoldina “estaria pronta a suportar humilhações para não desprestigiar a Coroa perante o povo”.

Decadência e falecimento

Sendo assim no início de 1826 Dona Leopoldina sofreu a maior humilhação de sua vida pública. A imperatriz se viu obrigada a tolerar a presença da Marquesa de Santos no navio que levava a corte a Salvador, a capital da Bahia. Chegando a província a imperatriz recebeu aposentos inferiores aos da amante.

Apesar dos pesares Dona Leopoldina não se abalou e manteve sua dignidade intacta. Através de seus contatos ela trabalhou pelo reconhecimento da Independência brasileira, incentivou a imigração alemã para o Brasil e recrutou soldados para o Exército Imperial.

Entre novembro e dezembro de 1826 a jovem imperatriz caiu enferma. Pela segunda vez ela atuava como regente, devido a audiência de Dom Pedro I que estava em viagem ao Rio Grande do Sul, onde pretendia vistoriar as tropas que atuavam na Guerra da Cisplatina.

Em dia 2 de dezembro um feto do sexo masculino foi abortado naturalmente pela imperatriz. Era a sua nona gestação. A hipótese mais provável é que ela tenha sido vítima de uma infecção generalizada. Na época Dona Leopoldina contava com 29 anos de idade e seu quadro clínico incluía dores, tosses, febres altas, convulsões e delírios.

Finalmente em 11 de dezembro de 1826 Dona Leopoldina partiu para a eternidade causando uma grande comoção no Rio de Janeiro, chegando ao ponto de quase ter início uma revolta popular. Nesse momento o ódio da população se voltou contra a Marquesa de Santos e a Família Castro. Tal evento causou a volta imediata de Dom Pedro I a capital para apaziguar as coisas, mas sua imagem nunca iria se recuperar.

Atualmente Dona Leopoldina é reverenciada com carinho pelos brasileiros, cujo a memória é motivo de culto. Seus restos mortais inicialmente repousaram em dois conventos, até serem transferidos, em 1954, para o Monumento do Ipiranga, em São Paulo, onde repousa ao lado de Dom Pedro I do Brasil e IV de Portugal.

Fontes:

GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. 1°. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2010.

GOMES, Laurentino. 1808. Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil é um livro de história do Brasil e Portugal. 1° ed. São Paulo: Globo, 2007.

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.

REZZUTTI, Paulo. Domitila: a verdadeira história da marquesa de Santos. 2° ed. São Paulo: Geração Editorial, 2017.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

4 comentários em “‘Novo Mundo’: quem foi Dona Leopoldina na vida real?

  1. Dona Leopoldina, sendo imperadora, juntamente com a sua neta, depois, a princesa Isabel, sendo também uma regente, tenho certeza de que o Brasil ainda seria monarquia, e estaríamos em condições políticas, sociais, etc … muito melhores!

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