‘Novo Mundo’: o que é real e ficção no romance de Domitila de Castro e Dom Pedro I do Brasil

Domitila de Castro (Agatha Moreira) e D. Pedro I do Brasil (Caio Castro) em Novo Mundo. © Rede Globo

Com a reprise da telenovela ‘Novo Mundo’ a personagem Domitila de Castro (1797-1867) e seu romance com o Imperador Dom Pedro I do Brasil (1798-1834), um dos protagonistas da produção, voltou a ser um tema polêmico. Saiba o que é real e ficção no caso amoroso que abalou o Brasil na primeira metade do século XIX.

O início do romance

Tudo começou em agosto de 1822 quando Dom Pedro de Bragança, então nomeado Príncipe Regente do Brasil, após a partida da Família Real Portuguesa para Lisboa, e sua comitiva, chegaram a cidade de São Paulo devido aos distúrbios causados pela Bernada de Francisco Inácio.

Nesta época Domitila de Castro Canto e Melo buscava se divorciar do marido, o Alfares Felício Pinto Coelho de Mendonça (1790-1833), que após se estabelecer com a esposa e os filhos em Minas Gerais se mostrou um homem agressivo, que batia em Domitila, enquanto gastava o dinheiro da família em jogos e bebedeiras.

Cansada da situação Domitila tomou uma decisão incomum para a época, pegou seus filhos, seus poucos pertencentes e tratou de voltar para São Paulo onde, por milagre, foi recebida de volta pela família, que também não passava por uma situação muito boa.

Nesse período o pai de Domitila, o Tenente-coronel João de Castro Canto e Melo (1740-1826), apesar de ter solicitado sua reforma do exército em abril de 1822, estava há meses sem receber o seu soldo, o que atualmente chamamos de salário, assim como a maioria dos militares portugueses do período.

Agora haviam mais dois problemas: o divórcio de Domitila e a guarda de seus dois filhos: Francisca Pinto Coelho de Mendonça e Castro (1813-1833) e Felício Pinto Coelho de Mendonça e Castro (1816-c. 1838). Porém, a vinda de Dom Pedro a cidade representava uma oportunidade de sanar os problemas familiares, já que um dos acompanhantes de Dom Pedro era Major Francisco de Castro Canto e Melo (1799-1868), irmão de Domitila.

Existem duas versões para o primeiro encontro de Domitila e Dom Pedro. A primeira afirma que ele a conheceu durante um passeio de liteira e a segunda que ambos foram apresentados por Francisco de Castro na residência da Família Castro, a Chácara dos Ingleses, no Bairro da Liberdade, próximo ao Cemitério dos Aflitos.

De qualquer maneira foi amor a primeira vista. Na época Domitila tinha 25 anos de idade, sendo um ano mais mais velha que o príncipe. Embora o conceito de beleza varie de acordo com a época podemos descrever a jovem como atraente e divertida, apesar de todas as dificuldades pelas quais havia passado.

Dom Pedro, por sua vez, era um homem de porte atlético, bronzeado e amante de cavalgadas e banhos de mar. Dono de um gênio impetuoso seu humor variava com frequência, mas de maneira geral era um homem simpático e preocupado com os problemas alheios. Não era incomum o encontrar conversando com plebeus na rua.

De acordo com as cartas que Dom Pedro enviou a Domitila o caso amoroso teve início em 29 de agosto, sendo está a primeira das muitas noites que passaram juntos. Em 7 de setembro o príncipe proclamou a Independência do Brasil, e após uma semana regressou ao Rio de Janeiro deixando a amante grávida.

A partir de então o imperador se dedicou aos assuntos de Estado, mas voltou a dar atenção a Domitila em novembro, após a sua aclamação. Enquanto isso parte da Família Castro já se encontrava no Rio de Janeiro. Francisco de Castro e seu pai João de Castro e o seu cunhado Boaventura Delfim Pereira (1789-1829) acompanharam Dom Pedro em sua viagem de volta a capital.

Especula-se que finalmente em maio de 1823 Domitila de Castro tenha se estabelecido na capital. Ela estava acompanhada de sua mãe Escolástica Bonifácia de Oliveira Toledo Ribas (1765-1859) e de seus dois filhos, que inclusive tiveram sua educação custeada pelo imperador. A partir de então a vida da paulista mudou radicalmente.

Vida no Rio de Janeiro e humilhações públicas

Quando Domitila chegou ao Rio de Janeiro sua irmã Maria Benedita de Castro Canto e Melo (1792-1857) estava grávida. Domitila não sabia, mas a criança era fruto dos amores de Dom Pedro com sua própria irmã. O menino seria batizado como Rodrigo Delfim Pereira (1823-1891) e nasceria no final daquele ano, em 4 de novembro.

Porém, engana-se quem pensa que a vida de Domitila seria fácil. Além de se adaptar as novidades ela encontrou um poderoso inimigo em José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1833). O político santista e seus irmãos Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845) e Martim Francisco Ribeiro de Andrada (1775-1844) a responsabilizaram pelo fim das investigações em torno da Bernada de Francisco Inácio.

Não sabemos se Domitila interteceu diante do imperador em favor de seus conterrâneos, que impediram Francisco Ribeiro de Andrada de tornar-se governador da província de São Paulo, criando assim uma contenda política. Mas sabemos que ela sofreu duas grandes humilhações quando passou a fazer parte da Corte Imperial.

Em setembro de 1824, da mesma maneira que é representado na telenovela Novo Mundo, Domitila foi barrada na entrada do Teatrinho Constitucional São Pedro. O motivo? Apenas pessoas com convites especiais e associados ao estabelecimento tinham o direito de entrar. Porém, este não o caso de Domitila.

Em represália Dom Pedro mandou que Teatrinho fosse fechado. Os artistas foram despejados e seus trajes e cenários foram queimados numa fogueira no meio da rua. Logo depois Domitila assistiu a missa sozinha na Capela Imperial, pois as damas se sentiram insultadas com sua presença e saíram.

Acensão na Corte Imperial

Em 4 de abril de 1825 Domitila foi nomeada Primeira Dama Camarista da Imperatriz Dona Leopoldina (1797-1826), que segundo os relatos contemporâneos se comportou de maneira serena ao se confrontar com a amante do marido. Quando Domitila de Castro beijou sua mão a imperatriz permaneceu sossegada.

A partir de então a ascensão de Domitila foi meteórica. Com o cargo de Primeira Dama Camarista ela passou a frequentar a Quinta da Boa Vista pelo menos uma semana por mês e acompanhava a imperatriz em todos os lugares, tendo um lugar de honra após os imperadores em ocasiões públicas.

Em 12 de outubro de 1825 Domitila de Castro feita Viscondessa de Santos. Um ano depois, também em 12 de outubro, teve o título elevado a Marquesa de Santos. Entre janeiro e fevereiro de 1826 acompanhou a corte em viagem Salvador, na Bahia. Apesar de não ser bem vista pela população recebeu um excelente tratamento por parte das autoridades.

Ainda em 1826 Domitila recebeu de presente do imperador Dom pedro I a Casa Amarela, uma mansão em estilo neoclássico, que ficava próxima da Quinta da Boa Vista. Anteriormente ela estava instalada num casarão em Mata-Porcos. Na nova residência passou a receber membros da corte e diplomatas.

É inegável: Domitila de Castro lucrou muito com o seu caso com o imperador. Recebeu de presentes joias, vestidos requintados, uma mansão e o seu salário como servidora da imperatriz era invejável. Recebia 60 mil-reis por mês.

É importante frisarmos um fato. Domitila foi a amante mais duradoura de Dom Pedro I do Brasil, mas nunca foi a única. A sua rival mais importante foi a francesa Adéle Bonplad (1773-1858), uma jovem de traços delicados que era esposa de um naturalista. Porém, o caso foi passageiro e Adéle logo foi descartada por Dom Pedro I.

O golpe fatal no relacionamento

Em 11 de dezembro de 1826 Dona Leopoldina faleceu devido a uma infecção generalizada. Acusando a favorita de envenenar a soberana a população carioca revoltada apedrejou a casa de Domitila de Castro. O seu cunhado também foi alvejado por um tiro na ocasião.

Temendo pela própria vida Domitila escreveu cartas implorando pela volta do imperador que estava no Rio Grande do Sul, cuidando dos esforços da Guerra da Cisplatina. Porém, está não foi a primeira confusão na qual a marquesa se viu envolvida.

Em 23 de agosto de 1827 a carruagem de sua irmã Maria Benedita foi atingida por dois tiros na ladeira da Glória. Todos acusaram Domitila de tentar matar a irmã, pelo fato das duas não se darem bem. Conta-se que Domitila tinha ciúmes de Dom Pedro com Maria Benedita.

Especula-se que nesta época Domitila tenha descoberto a verdade sobre paternidade de Rodrigo Delfim Pereira. Por um momento o imperador chegou a decretar o exílio da amada acreditando em sua culpa, mas acabou voltando atrás convencido de sua inocência.

Todavia, a relação já havia esfriado. O Dom Pedro, que outrora ficava com uma luneta apontada para o palacete da amante vigiando o movimento em sua residência, por ciúmes, agora mantinha uma postura mais distante da amante paulista.

Em 1829 o imperador tomou uma decisão drástica; buscaria uma noiva na Europa. O encarregado das negociações foi o Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta, o Marquês de Barbacena (1772-1842). Diversas pretendentes recusaram o pedido de casamento temendo receber o mesmo tratamento que Dona Leopoldina.

Para melhorar a sua imagem Dom Pedro em setembro do mesmo ano demitiu a mãe de Domitila e a outra irmã da amante paulista, Anna Cândida de Castro do Canto e Melo (1795-1847), de seus cargos como damas do Paço Imperial, enquanto os homens da família, com exceção de Francisco que já estava em São Paulo, deveriam ir para a Cisplatina.

Domitila resistiu em deixar a corte, mas acabou cedendo. Após um breve período em sua terra natal ela acabou voltando para a corte, em maio de 1830, a pedido do próprio imperador. Passaram um breve período juntos, e ela novamente retornou a São Paulo.

O seu triunfo foi curto. Apesar de muitos chegaram a especular que Domitila finalmente se tornaria imperatriz do Brasil, mas Dom Pedro I surpreendeu a todos. A exilou e se casou novamente. Ele morreria na Europa em 24 de setembro. Domitila de Castro viveria mais trinta e três anos, morrendo em 3 de novembro de 1867.

Fontes:

GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. 1°. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2010.r que arquitetou a Independência do Brasil. 1° ed. São Paulo: Leya, 2017.

REZZUTTI, Paulo. Domitila: a verdadeira história da marquesa de Santos. 2° ed. São Paulo: Geração Editorial, 2017.

PRIORE, Mary del. A carne e o sangue. A imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro e Domitila, a marquesa de Santos. 1°ed. Rio de
Janeiro: Rocco, 2012.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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