“Dar à luz não é tão difícil como eu esperava”: o nascimento da Infanta Isabel Clara Eugênia

Retrato de Isabel Clara Eugênia, infanta de Espanha, em 1615, por Peter Paul Rubens. © Wikimedia Commons

O ano de 1566 foi vivido com muita expectativa pela corte espanhola. Neste ano a Rainha Isabel de Valois (1545-1568) estava gravida novamente. Após dois abortos e de muito tempo de espera todos aguardavam o nascimento de um filho varão que assegurasse a continuidade da Dinastia de Habsburgo, mas não foi exatamente isso o que aconteceu.

Casamento de Felipe II de Espanha com Isabel de Valois. A necessidade de um filho.

A princesa francesa Isabel de Valois se casou com o Rei Felipe II de Espanha (1527-1568) por motivos políticos. Uma grande derrota francesa na Batalha de São Quintino em 10 de agosto de 1557 forçou o rei Henrique II de França (1519-1559) a entregar a mão de sua filha mais velha mediante a promessa de paz por parte dos espanhóis.

Na altura Isabel de Valois contava com apenas 14 anos de idade enquanto o seu futuro marido já estava com 32 anos. Devido a pouca idade da princesa o casamento só foi consumado um ano depois, mas a partir desse momento as pressões sobre a rainha aumentaram, pois ela se encontrava no centro das atenções. Era sua tarefa produzir um filho varão.

Apesar do rei já ter um filho varão, o Príncipe Dom Carlos de Astúrias (1545-1568), fruto de seu primeiro casamento com a infanta Maria Manuela de Portugal (1545-1545) que havia morrido logo após o parto, a instabilidade mental do jovem aliada a sua saúde frágil colocavam em perigo a sucessão do trono espanhol.

O parto de Isabel Clara Eugênia

Após dois alarmes falsos de gestação e de sofrer o aborto de um feto e outro aborto de um casal de gemêos em 1566 Isabel de Valois finalmente conseguiu levar uma gestação adiante. A gravidez foi vivida com muita expectativa tanto pela corte quanto por Felipe II. Para alcançar o seu objetivo Isabel de Valois havia decidido transportar desde a França o corpo de Santo Eugênio.

Até hoje não se sabe se foi um milagre, mas Isabel estava profundamente convencida de que sua gestação bem sucedida se tratava de uma operação milagrosa e como forma de retribuição pela graça alcançada a soberana decidiu que sua filha seria batizada com o nome Eugênia.

Após uma gravidez marcada por tranquilidade e por muitos mimos pela parte do marido a rainha finalmente entrou em trabalho de parto no dia 12 de agosto de 1566 no Palácio del Bosque em Valsaín, Segóvia, que inclusive era o palácio preferido de Felipe II.

Em seu primeiro parto Isabel de Valois foi assistida pelo médico francês Montguyon, que fora enviado por sua mãe Catarina de Médicis (1519-1589). Isso era incomum na corte espanhola, onde os partos eram assistidos por uma parteira. Mas o mais surpreendente é o fato de Felipe II ter estado presente nos aposentos, não era um mero espectador, mas como uma personagem atuante pois ele segurou a mão da consorte durante todo o tempo.

Além de segurar a mão de Isabel Felipe II também ofereceu a esposa palavras de incentivo. Conta-se também que Felipe II permitiu que a rainha ingerisse uma mistura enviada por sua sogra Catarina de Médicis para aliviar as dores da filha. Claro, o conteúdo é desconhecido até os dias de hoje.

Porém, sabemos que o parto foi rápido para a alegria da mãe, que comentou aliviada com suas damas de companhia: “Graças a Deus, dar à luz não é tão difícil como eu esperava”. Porém, para a decepção de todos a criança era uma menina. Ela foi chamada de Isabel Clara Eugênia. O nome Isabel foi uma homenagem a sua mãe, Clara foi em referência ao dia e, como já citamos, Eugênia em honra a Santo Eugênio.

Poucos sabem, mas antes do nascimento Isabel de Valois se encarregou de escrever o seu testamento, como era costume na corte espanhola. Por mais estranho que esse costume pareça o fato era que o parto no século XVI representava uma grande risco de vida tanto para a parturiente quanto para o feto. Sendo assim se a rainha morresse a distribuição de seus bens seria mais fácil de ser feita posteriormente.

Apesar de se tratar de uma menina o nascimento da pequena infanta acabou sendo bem recebido, pois a recém-nascida foi descrita como uma criança robusta. Isso provava que Isabel de Valois era capaz de levar uma gestação até o fim e de trazer ao mundo um bebê saudável. Além disso Isabel Clara Eugênia tinha os olhos negros da mãe e a pele branca do pai. O seu lábio inferior era proeminente, tipo dos Habsburgos.

O batizado da infanta

A criança logo ganhou o afeto de Felipe II e no dia 25 de agosto do mesmo ano teve lugar a sua cerimônia de batizado. A pequena infanta foi batizada pelo futuro Papa Urbano VII (1521-1590), que na época atuava como Núncio Apostólico em Espanha, tendo ela uma das poucas princesas a ter essa honra ao longo da história.

Para a ocasião Felipe II teria treinado durante muitas horas em sua câmara privada com uma boneca feita de pano feita com as mesmas medidas de sua filha. O objetivo era o monarca fazer uma performance impecável no grande dia, mas como acreditou que não se sairia bem o suficiente delegou a função ao seu irmão Dom João de Áustria (1547-1578).

Isabel Clara Eugênia cresceu para se tornar uma formidável infanta espanhola. Apesar de perder a mãe muito cedo, com apenas 2 anos de idade, ela contou com a companhia de sua irmã caçula a infanta Catarina Micaela de Áustria (1567-1597). Isabel Clara Eugênia era tão querida por seu pai que ele permitiu que ela trabalhasse com ele no despacho real como sua tradutora de italiano.

Fontes:

ESPINOSA, Paula Usó. Isabel de Valois: el gran amor de Felipe II. Disponível em: < http://repositori.uji.es/xmlui/bitstream/handle/10234/78028/forum_2008_12.pdf%3Fsequence%3D1&ved=2ahUKEwj1usTuiJbrAhXsJrkGHR4pADwQFjAAegQIAxAC&usg=AOvVaw3azG5BdR7OGSJ5N1LDu72 >- . Acesso em: 11. ago. 2020.

Reyes, Reinas, Príncipes y Princesas. Isabel de Valois. Parte VII. Disponível em: < https://www.portalsolidario.net/ocio/visu/anecdota.php?rowid=617&anecdotas=Reyes,%20Reinas,%20Pr%EDncipes%20y%20Princesas. > . Acesso em: 12. ago. 2020.

La infanta que nasció em Valsaín y gobernó los Países Bajos. Disponível em: < http://www.cronicasgabarreras.com/00/html/personalidades00_02.htm > . Acesso em: 12. ago. 2020.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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