‘Novo Mundo’: a impressionante história real de Chalaça

Francisco Gomes da Silva, por Simplício Rodrigues de Sá, século XIX. O Chalaça (Romulo Estrela) em Novo Mundo. © Wikimedia Commons/Rede Globo

Muito mais que um simples alcoviteiro Francisco Gomes da Silva (1791-1852), o Chalaça, foi um homem de vida extraordinária. Amigo íntimo de Dom Pedro I do Brasil (1798-1834) testemunhou em primeira mão importantes acontecimentos históricos de finais do século XVII e início do século XIX. A seguir saiba o que é real e ficção na trama da Rede Globo envolvendo Chalaça.

Origem insólita e infância

Conhecido como Chalaça, Francisco Gomes da Silva nasceu em Lisboa, Portugal, em 22 de setembro de 1791. Sua origem é insólita. Ele era filho de Francisco José Rufino de Sousa Lobato, Visconde de Vila Nova da Rainha (1773-1830) com uma de suas criadas, uma jovem chamada Maria da Conceição Alves.

Aos 8 anos de idade, Chalaça foi enviado para o Seminário de Santarém, com a finalidade de se tornar padre. Nessa época um amigo de seu pai chamado Antonio Gomes da Silva o registrou como seu filho e passou a tutelá-lo.

Chalaça recebeu uma excelente educação no Seminário de Santarém. Além de estudar matérias como filosofia e latim, ele também aprendeu a falar fluentemente francês, inglês, italiano e espanhol. Sendo assim sua fama de incultura, tão difundida nos dias de hoje não procede.

Partida de Portugal

Em novembro de 1807 a vida de Chalaça mudou radicalmente. Aos 16 anos de idade e prestes a ser ordenado sacerdote da Igreja Católica Chalaça decidiu se juntar à frota que levaria a Família Real Portuguesa para o Brasil.

Nesse período os exércitos do Imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821) comandados pelo General Jean-Andoche Junot (1771-1813) estavam prestes a invadir Portugal, devido ao fato do país não ter aderido ao Bloqueio Continental imposto a Grã-Bretanha. Não se sabe ao certo como Chalaça conseguiu um lugar nos navios.

Especula-se que ele tenha se aproveitado do caos que reinava no momento do embarque no porto de Lisboa. Laurentino Gomes, em seu livro ‘1808’, afirma que “devido à pressa do embarque, a imensa maioria dos viajantes não foi registrada ou catalogada”.

Vida no Brasil

Após uma viagem de cerca de três meses de duração quando Chalaça chegou ao Rio de Janeiro, em março de 1808, deixou de lado todos os princípios que havia aprendido no seminário católico e passou a levar uma vida boêmia. Cogita-se a possibilidade de Chalaça ter conhecido o príncipe Dom Pedro de Bragança em algumas dessas ocasiões boemias, mas o que sabemos com relativa certeza é que ele deixou a casa de seu pai adotivo e passou a trabalhar como barbeiro.

Paulo Rezzutti, em seu livro ‘D. Pedro: a história não contada’, afirma que o cetro, a coroa e o espadim utilizados na aclamação de Dom João VI de Portugal (1767-1826), no Rio de Janerio, em 5 de fevereiro de 1818 foram produzidos na oficina do pai adotivo de Chalaça, que era ourives.

Entre anos anos de 1816 e 1820 Chalaça trabalhou como criado em uma das residências da Família Real Portuguesa, mas acabou sendo expulso por ter engravidado uma governanta da Fazenda de Santa Cruz. Graças a intervenção de seu pai adotivo Chalaça conseguiu voltar as boas graças de Dom João VI e acabou sendo nomeado funcionário do Tesouro Real.

Em abril de 1821 o jovem pretendia voltar com a Família Real para Portugal, o que desagradou profundamente seu amigo, o príncipe Dom Pedro, que havia sido nomeado regente do Reino do Brasil na ausência do pai.

O melhor amigo do imperador. “Romance” com a marquesa de Santos

Chalaça se reaproximou de Dom Pedro em meados do ano de 1822. Em agosto deste ano ele até mesmo acompanhou o príncipe regente a São Paulo, como membro de sua comitiva, na posição de secretário particular.

Na ocasião Dom Pedro visitava a cidade para apaziguar uma tensão política criada pela Bernada de Francisco Inácio de Souza Queiroz (1789-1830), um coronel de milícias e um dos mais ricos comerciantes de São Paulo, que optou por ficar ao lado do presidente do Governo Provisório da província de São Paulo, João Carlos Augusto de Oyenhausen-Gravenburg (1776-1838) em oposição aos irmãos Andrada. Além da guarda de honra e de Chalaça Dom Pedro estava acompanhado pelos seguintes homens:

  • o Coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo, Barão de Pindamonhangaba (1780-1863);
  • o Padre Belchior Pinheiro de Oliveira (1775-1856);
  • o secretário de Estado Luís de Saldanha da Gama Melo e Torres Guedes de Brito, Marquês de Taubaté (1801-1837);
  • o Major Francisco de Castro Canto e Melo (1799-1868)
  • o governador da Praça de Santos Joaquim Aranha Barreto de Camargo (1769-1844)
  • e os criados do Paço João Carlota e João de Carvalho Raposo.

Após a proclamação da Independência, do Brasil Chalaça se tornou uma pessoa influente na Corte Imperial e recebeu inúmeros favores do imperador. Ele foi nomeado Tenente, Capitão e acabou como Coronel-comandante do exército em 1827.

Ao contrário do que é mostrado na novela Novo Mundo, da Rede Globo, é altamente improvável a possibilidade de Chalaça ter mantido uma relação amorosa com Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos (1797-1867), a mais conhecida amante de Dom Pedro I.

Tal história surgiu por meio do livro de ficção ‘A marquesa de Santos’ escrito por Paulo Setúbal e publicado em 1925. Além disso um contemporâneo de Chalaça, Cipriano Barata (1762-1838), um liberal combativo que não simpatizava com o melhor amigo do imperador afirmou que Chalaça e Domitila de Castro eram amantes e desejavam extorquir o monarca.

Antônio Menezes Vasconcelos de Drummond (1794-1865) aliado dos irmãos Andrada, que por sua vez, não simpatizavam com Domitila de Castro também afirmou em suas memórias que Chalaça seria apaixonado pela marquesa de Santos.

Tendo isso em vista, o possível romance entre Chalaça e Domitila de Castro fica no campo da especulação e das intrigas palacianas. Tais afirmações devem ser vistas com cautela considerando a antipatia dos relatantes pelos protagonistas do suposto romance.

Feitos, exílio e reencontro com Dom Pedro I do Brasil

Além de prestar serviços privados para Dom Pedro I Chalaça também atuou na área política. Conta-se que ele redigiu alguns discursos do monarca e o ajudou a escrever artigos da Constituição do Brasil de 1824.

Em 1830 Chalaça partiu do Brasil rumo à Europa. A partir de então atuaria como embaixador plenipotenciário do Brasil nas Duas Sicílias e no Reino Unido.

Conta-se que ele foi exilado devido a influência de Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta, o Marquês de Barbacena (1772-1842), dos irmãos Andrada e do chamado Partido Nativista que não viam com bons olhos a influência dos portugueses sobre o imperador do chamado Gabinete Secreto.

Chalaça se reencontrou com Dom Pedro I em Portugal no ano de 1833, após o primeiro abdicar da coroa brasileira em 7 de abril de 1831. Dom Pedro na ocasião lutava em nome de sua filha, a rainha Dona Maria II de Portugal (1819-1853), pelo trono português, que havia sido usurpado pelo irmão, o príncipe Dom Miguel de Bragança (1801-1866).

Após vencer a Guerra Civil, Dom Pedro acabou contraindo tuberculose e faleceu em 24 setembro de 1834, no Palácio de Queluz, no mesmo local onde havia nascido. A partir de então, Chalaça passaria a atuar como secretário particular de Dona Amélia de Leuchtenberg (1812-1873), a segunda esposa de Dom Pedro I.

Finalmente em 30 de dezembro de 1852, Francisco Gomes da Silva morreu em Lisboa, no Hotel Bragança, aos 61 anos de idade, após protagonizar uma vida repleta de aventuras e intrigas.

De acordo com Otávio Tarquínio de Sousa em ‘História dos fundadores do Império do Brasil: A vida de D. Pedro I – Tomo 2’ Chalaça era um homem talentoso e:

“acima de tudo sabia servir ao seu senhor, não o contrariando jamais, solícito no desempenho de todas as incumbências, de todos os papéis, de todos os recados. Oficial de gabinete, secretário, escriba. E também espia, delator, alcoviteiro”.

Fontes:

GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. 1°. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2010.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° ed. São Paulo: Leya, 2015.

SOUSA, Otávio Tarquínio de. História dos fundadores do Império do Brasil: A vida de D. Pedro I – Tomo 2. – Senado Federal V. 209-B: Brasília, 2015.


Revisão textual: Elias Lima

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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