Sultana Kösem: a mulher mais poderosa do Império Otomano

Sultana Kösem (Beren Saat) em ‘Muhteşem Yüzyıl: Kösem’. Sultana Kösem retratada com seu filho Murad IV I ou Ibrahim I, por artista desconhecido, segunda metade do século XVII. © Pinterest/Christie’s

Sultana Kösem (c. 1589-1651) tem uma incrível trajetória de vida. Ela viveu no caos político do século XVII e se recusou a ser apenas mais uma viúva na corte imperial otomana. Com personalidade e força de vontade alcançou o posto de regente, algo extraordinário no Império Otomano para uma mulher.

Primeiros anos e filhos

Sultana Kösem nasceu por volta do ano 1589. Ela provavelmente era originária da Bósnia, Grécia ou Moréia e chegou ao harém imperial do Palácio de Topkapı, em Istambul, aos 15 anos de idade. Ela provavelmente foi capturada como escrava em meio a algum conflito.

Logo depois de chegar ao harém a jovem recebeu o nome de Mahpeyker, que significa rosto de lua em persa por sua grande beleza. Porém, após se tornar favorita do Sultão Ahmed I (1590-1617) passou a se chamar Kösem, que significa em turco antigo ovelha liderando o rebanho.

Estima-se que Kösem tenha dado à luz a pelo menos nove crianças, sendo uma das mais proliferas sultanas otomanas. Curiosamente a maior parte de sua prole tiveram destinos trágicos.

Seus filhos homens foram: os Sultões Murad IV (1612-1640) e Ibrahim I (1615-1648), que ascenderam ao trono otomano consecutivamente. Além destes varões Kösem também deu à luz aos príncipes Mehmed (1605-1621), Kasim (1614-1638) e Solimão (1615-1635). O primeiro foi estrangulado sob às ordens do Sultão Osmã II (1604-1622), o enteado de nossa biografada.

Os Príncipes Mehmed (Burak Dakak) e Kasim (Doğaç Yıldız) em ‘Muhteşem Yüzyıl: Kösem’. © Twitter

Já os Príncipes Kasim e Solimão tiveram os mesmos destinos, mas foram executados por afogamento por seu próprio irmão, o Sultão Murad IV, conhecido por sua rigidez. Com certeza tais mortes encheram a sultana Kosem de tristeza, mas tais eventos não eram anormais na corte otomana.

Devido ao fato do Estado otomano carecer de uma lei que estabelecesse parâmetros para a sucessão imperial qualquer filho varão de um sultão se tornava apto a ascender ao trono. Sendo assim os irmãos ou meio-irmãos dos soberanos otomanos eram ameaças em potencial enquanto respirassem, criando um tema de tensão e competitividade em Istambul.

Sultana Haseki e influência política

Porém, o que realmente permitiu a Sultana Kösem a ascender na hierarquia do harém imperial foi o exílio da Sultana Safiye (c. 1550 – 1619), a avó paterna de Ahmed I em janeiro de 1604, e a morte da Sultana Handan (-1605) logo depois em novembro de 1605.

Hamdan era mãe do Sultão Ahmed I e havia sido nomeada nomeada Sultana Valide, ou seja, ela era autoridade suprema do harém imperial. Já Safiye havia sido detentora de uma grande influencia política, inclusive em 1596, quando o seu filho, o Sultão Mehmed III (1566-1603), partiu para uma campanha militar na Hungria decidiu deixá-la no comando do tesouro do Império Otomano.

Sultana Safiye (Hülya Avşar) e Sultana Handan (Tülin Özen) em ‘Muhteşem Yüzyıl: Kösem’. © Twitter

Com o desparecimento de duas grandes personagens da corte Kösem, a mulher mais amada pelo sultão acabou ganhando mais influência. Segundo as fontes contemporâneas Kösem viveu em relativa paz durante seu reinado como Sultana Haseki, título dado as favoritas imperais. Ela também recebia 1.000 aspers por dia.

Sultana Valide e regência

A vida de Kösem mudou radicalmente em 22 de novembro de 1617 quando o Sultão Ahmed I morreu, aos 27 anos de idade, vítima de febre tifóide. Com a acensão de Osmã II (1604-1622), filho de Ahmed I com a Sultana Mahfiruz (c. 1590-1620), ao trono imperial Kösem perdeu o seu cargo no Palácio de Topkapi e passou a residir no Palácio Antigo.

Ela voltou ao cenário político otomano no ano de 1623 quando o seu segundo filho Murad IV, de apenas 12 anos de idade, foi aclamado o novo sultão. Devido a escassa idade do monarca Kosem acabou sendo nomeada Sultana Naib-i, ou seja, regente do Império Otomano.

Porém, engana-se quem pensa que o seu governo foi tranquilo. Durante esse período o Império Otomano passou momentos difíceis incluindo conflitos externos, rebeliões de províncias e casos endêmicos de corrupção que fragilizavam os cofres do governo que já se viam afetados por sucessivas crises econômicas.

Sultão Ahmed I (Ekin Koç) em ‘Muhteşem Yüzyıl: Kösem’. Ahmed I do Império Otomano por artista desconhecido, século XVIII. © Geece/Wikimedia Commons

Kösem podia ser versada nas intrigas palacianas da corte otomana, mas era inexperiente em temas governamentais de grande porte, mas podemos considerar que a sultana lidou com a situação da melhor maneira que pode, e mesmo depois da maioridade de Murad IV seguiu participando das reuniões de Conselho de Estado por trás de uma cortina, como mandava a tradição otomana.

Porém, sem sombra de dúvidas a restruturação do Império Otomano se deve aos feitos de Murad IV, que em linhas gerais foi um governante eficiente que lançou mão de medidas drásticas para fazer a lei prevalecer. Ele também liderou campanhas militares bem-sucedidas para recuperar a glória do Império.

Reinado de Ibrahim I

Infelizmente Murad IV acabou falecendo de cirrose, com apenas 32 anos de idade, em 8 de fevereiro de 1640. Apesar de ter ordenado, em seu leito de morte, a execução do Príncipe Ibrahim, o seu irmão caçula Kosem entrou novamente em ação e impediu que a ordem fosse levada a cabo, garantindo assim a ascensão de outro filho seu ao trono imperial.

Sultão Murad IV (Metin Akdülger) em Muhteşem Yüzyıl: Kösem. Murad IV do Império Otomano por artista desconhecido, século XVIII. © Pinterest/Wikimedia Commons

Porém, ela logo iria descobrir se havia cometido um grande erro tanto a nível pessoal quanto político. Ao contrário do antecessor İbrahim I, com o passar do tempo, colocou Kösem em segundo plano, não permitindo que ela tivesse demasiada influência nos assuntos de Estado. Em breve de pouco tempo o seu estado de saúde mental também se agravou.

O reinado de Ibrahim I pode ser descrito como nada menos do que caótico. Infelizmente, o sultão que ganhou a alcunha de “O Louco”, se deixou levar por tendências extravagantes e comportamentos sexuais inapropriados para um sultão que chocaram a todos. Embora parte dos boatos não possam ser confirmados é quase certo dizer que Ibrahim era um governante incompetente.

Além de ser incompetente ele também rompeu os protocolos do Palácio de Topkapi. Se conta que ele era obcecado com mulheres acima do peso e orientava seus oficiais a encontrar as mulheres mais gordas de seu império para ele manter relações sexuais. Ele também elevou oito concubinas à posição de Sultana Haseki, quando a regra era apenas uma mulher ocupar tal posição para evitar atritos no harém imperial.

Ibrahim I (Rîdvan Aybars Düzey) em Muhteşem Yüzyıl: Kösem. Murad IV do Império Otomano por artista desconhecido, século XVIII. © Pinterest/Wikimedia Commons

Em dentro de pouco tempo os janízaros e ulemás se revoltaram contra o seu governo, que graças as extravagancias do monarca, se viu afetado por uma grande crise econômica. Em 18 de agosto de 1648 Ibrahim foi executado por estrangulamento.

“Toda a sociedade está em ruínas. Faça com que ele seja removido do trono imediatamente”, teria afirmado a Sultana Kosem após dar o seu consentimento para a queda de seu filho, em troca de ter sua vida poupada.

A queda de Sultana Kosem

Ibrahim I foi sucedido por seu filho, o Sultão Mehmed IV (1642-1693), que contava com apenas 7 anos de idade quando chegou ao trono imperial. Kösem apresentou o menino ao Divã, o equivalente a Conselho de Estado, e foi declarada regente novamente.

Porém, a situação não estava mais tão favorável a ela. Enquanto uma parcela do Exército Otomano, os janízaros, se posicionou ao lado de Kösem parte dos burocratas do Palácio de Topkapı apoiaram a Sultana Turhan Hatice (c. 1627-1683), a mãe do novo soberano.

O conflito entre sogra e nora estava instalado. Ironicamente a Sultana Turhan Hatice havia sido enviada a Istambul como um presente do Khan da Crimeia para a Sultan Kösem, que inclusive foi a responsável por presentá-la ao Sultão Ibrahim.

Turhan Hatice tomou conhecimento que Kösem pretendia destronar Mehmed IV, e substituí-lo por outro jovem neto, através das fofocas de uma escrava chamada Meleki Hatun, que fazia parte do séquito de Sultana Valide. Com o intuito de salvar a própria pela e a posição do filho a jovem tramou a morte de sua sogra.

Detalhe de um retrato de Mehmed IV do Império Otomano, por artista anonimo, c. 1682, em exposição no Ptuj Ormož Regional Museum. © Wikimedia Commons

Na noite de 2 de setembro de 1651 a Sultana Kösem foi surpreendida e estrangulada em seus aposentos. A toda-poderosa sultana contava com cerca de 61 anos após de idade. O apoio do Kizlar Agha, título que significa chefe dos eunucos negros, que se chamava Uzun Süleyman e do grão-vizir Melek Ahmed Pasha (c. 1604–1662) foram essenciais para o sucesso do Golpe de Estado.

A Sultana Kosem foi sepultada na tumba de seu marido, o Sultão Ahmed I, na Mesquita Azul ou Mesquita do Sultão Ahmed, que fora construída entre os anos de 1609 e 1616. A mesquita é um dos principais pontos turísticos da Turquia nos dias de hoje.

Além de sua grande inteligência, perspicácia política e enorme poder a Sultana Kösem também é lembrada na história turca por suas obras de caridades. Ela construiu dezenas de mesquitas, escolas, banheiros públicos e fontes de água para a população usufruir.

Fontes:

ZEIDAN, Adam. Kösem Sultan. Disponível em: < https://www.britannica.com/biography/Kosem-Sultan >. Acesso em 30. ago. 2020.

KLIMCZAK, Natalia. Kosem Sultan – The Last Influential Female Ruler of the Ottoman Empire. Disponível em: < https://www.ancient-origins.net/history-famous-people/strength-kosem-sultan-last-influential-female-ruler-ottoman-empire-006178 >. Acesso em 1. set. 2020.

Kösem Sultan bio. Disponível em: < https://ottoman.ahya.net/node/276 >. Acesso em 2. set. 2020.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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