Felipe II de Espanha: a dolorosa morte do rei mais poderoso da Europa

‘Últimos momentos de Felipe II’, de Francisco Jover Casanova, 1864. © Wikimedia Commons

O Rei Felipe II de Espanha (1527-1598) foi o homem mais poderoso de sua época e protagonizou uma vida extraordinária. Entre 1597 e 1598 após um movimentando reinado de quase quatro décadas, período no qual governou a Espanha com afinco e dedicação, se viu reduzido a um estado lastimável de saúde. Faleceu após um longo sofrimento.

Desde quando começou a governa a Espanha em 1547 Felipe II foi um trabalhador incansável lidando com rebeliões, conspirações e inimigos poderosos, que buscavam a destruição da Espanha a qualquer custo. Enquanto lutava para manter um império afetado por sua própria magnitude ficou viúvo quatro vezes e assistiu a morte de inúmeros filhos com grande tristeza.

Porém, a perda que mais lhe afetou, sem sombra de dúvidas, foi a morte de sua filha caçula com sua terceira esposa. Catarina Micaela de Áustria (1567-1597), Infanta de Espanha, faleceu em 6 de novembro de 1597, em Turim, na Itália, onde residia desde 1585, data de seu casamento com o Carlos Emmanuel I (1562-1630), Duque de Saboia. Aos 30 anos de idade a jovem foi vítima de seu décima parto.

“Nem a morte de filhos, nem a de suas esposas, nem a perda da Armada, nem qualquer outra coisa foi tão sentida como está”. Foi assim que o escritor e humanista Jean Lhermite (1560 -1622), que também atuava como ajudante de câmara de Felipe II, descreveu a reação do soberano quando o mesmo recebeu a notícia da morte da filha caçula.

Para entendermos a morte de Felipe II de Espanha é necessário olharmos para o seu histórico médico. Durante a maior parte de sua vida a saúde de Felipe foi um tema sensível para todos que estavam ao seu redor. Desde a sua tenra idade o monarca foi cercado de inúmeros cuidados e sabemos que sua mãe, Isabel de Portugal, Imperatriz Romano-Germânica (1503-1539), era tomada de um grande pavor toda a vez que o filho adoecia.

Entretanto, Felipe II não demonstrou nenhum problema de saúde grave até os 36 anos de idade quando foi vítima de seu primeiro ataque de gota, enfermidade comum entre a elite da época, caracterizada por dor e inflamação nas articulações, decorrente de uma alimentação desiquilibrada.

Porém, a partir dos 40 anos o quadro médico de Felipe II se agravou e o monarca manifestou crises de asma, artrite e fortes dores de cabeça. Desarranjos intestinais também eram comuns. É também muito provável que o rei tenha contraído malária em algum momento devido às suas febres constantes e sede insaciável que sentia.

Após a morte da filha Catarina Micaela aparentemente Felipe II perdeu a vontade de viver. Na altura contava 71 anos de idade. Para piorar a situação a perca de mobilidade, que as severas crises de gota nas pernas lhe impunham, Felipe II começou a ser afetado por úlceras. Em julho de 1598, já instalado no Monastério do Escorial, Felipe passou a sofrer com febres altas. Além disso sinais de hidropsia começaram a surgir. Inchaço no abdômen, nas pernas e nos músculos tiveram lugar em dentro de pouco tempo. Uma sede insaciável também se iniciou.

Logo depois Felipe II também perdeu a capacidade de ingerir alimentos. O dia 8 de setembro foi a última ocasião na qual o rei comungou por recomendação médica, pois temia-se que ele morresse engasgado com o comunhão. Mesmo afetado por úlceras, dores, inchaços, febres e uma grande sede Felipe II ainda recebia visitas de seus secretários que lhe colocavam a par dos últimos acontecimentos governamentais. Quando já não era mais capaz de assinar os documentos de Estado escutava os mesmos serem lidos em voz alta, enquanto Felipe III (1578-1621) os assinava.

Conta-se que o odor que emanava da cama do monarca era quase insuportável, devido as chagas e a incontinência urinária das quais era vítima. A sua situação também impedia que Felipe II tomasse banhos, algo que o desgostava profundamente, devido ao seu impecável histórico de higiene pessoal. Finalmente no começo da madrugada de 13 de setembro Felipe II entrou em coma. Antes do sol nascer, no entanto, o monarca despertou e exclamou: “Já é hora”.

Com um crucifixo e uma vela na mão, os mesmos objetos que sua mãe Isabel de Portugal e seu pai, Carlos V (1500-1558), Sacro Imperador Romano, portavam no momento de seus mortes o rei mais poderoso do mundo fez a sua passagem para o outro lado. Felipe II faleceu às 05:00 da manhã de um domingo. Sua agonia havia durado cinquenta e três dias. Felipe II foi sepultado no Panteão dos Reis no Escorial, edifício que ordenou a construção, num caixão feito de madeira portuguesa.

Fontes:

CERVERA, Cesar. El mito de los piojos asesinos del Rey: la agónica muerte de Felipe II. Disponível em: <https://www.abc.es/espana/20150702/abci-felipe-piojos-muerte-201507012057.html>. Acesso em 13. set. 2020.

BRAUN, Martina. La leyenda de la muerte de Felipe II: ¿destruyeron unos simples piojos al rey español?. Disponível em: <https://www.elespanol.com/cultura/historia/20190923/leyenda-muerte-felipe-ii-destruyeron-simples-espanol/431457042_0.html>. Acesso em 13. set. 2020.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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