Como Catarina de Aragão lidava com Ana Bolena?

Catarina de Aragão (Charlotte Hope) e Ana Bolena (Alice Nokes) em The Spanish Princess. © Starz

Um dos tópicos mais interessantes da Dinastia Tudor é o relacionamento envolvendo Catarina de Aragão (1485-1536) e sua maior rival, Ana Bolena (c. 1500-1536). As duas mulheres por quase uma década batalharam pelo coração do Rei Henrique VIII de Inglaterra e pela posição de rainha do país.

Quem foi Catarina de Aragão?

Catarina de Aragão é quase uma santa para a maioria das pessoas, especialmente para os católicos ingleses. Isso é compreensível, é quase impossível não sentir pena desta mulher que foi esposa de Henrique por quase 24 anos e que nunca deixou de acreditar que ela era a única e verdadeira esposa do monarca.

Catarina de Aragão era filha dos Reis Católicos, Dona Isabel I de Castela (1451-1504) e Dom Fernando II de Aragão (1452-1516). Ela cresceu em Espanha e recebeu uma refinada educação por ordem de sua mãe, que é considerada a primeira grande rainha da Europa.

Sem sombra de dúvidas Isabel I de Castela foi o maior exemplo de vida de Catarina de Aragão. Com determinação e garra a rainha garantiu o trono de Castela após uma guerra civil contra a sobrinha, Joana de Trastâmara (1462-1530), e finalizou o processo de reconquista da Península Ibérica iniciada séculos antes por seus antecessores.

Catarina de Aragão se tornou noiva de Arthur Tudor, Príncipe de Gales (1486-1502) aos 3 anos de idade. Foi um casamento político. A jovem infanta chegou a Londres aos 16 anos. Era descrita como ruiva, de pele clara e rechonchuda – o que era um sinal de fertilidade no século XVI.

Viuva após seis meses de casamento Catarina de Aragão passou por um período de dificuldades econômicas que durou sete amargos anos. Sem pretendentes e recursos se viu num limbo angustiante.

Seus problemas chegaram ao fim em 1509 quando Henrique VIII (1491-1547) ascendeu ao trono após a morte de seu pai. Descrita como uma mulher digna e religiosa, ao longo de todo o seu casamento Catarina fez vista grossa as constantes infidelidades do marido e lidou com diversas gravidez, abortos espontâneos e nascimento de bebês natimortos. Especula-se que a rainha tenha passado por cerca de sete a dez gestações ao longo de seu período fértil.

Em suma Catarina era uma rainha tradicional que aceitava sua “sorte na vida” e sabia o que era esperado dela como Rainha Consorte de Inglaterra. Ela também era consciente que não era incomum que um rei tivesse amantes e também sabia que seu dever era ignorar estas mulheres e continuar tentando fornecer um herdeiro masculino ao trono.

Porém, Catarina deve ter ficado com o coração partido quando ficou óbvio que isso não aconteceria, mas para piorar a situação essa tristeza deve ter sido ampliada quando ela percebeu que sua própria dama de companhia Ana Bolena (c. 1500-1536) começou a receber demasiada atenção do rei.

Relacionamento de Catarina de Aragão com Ana Bolena

Existem poucos documentos contemporâneos abordando a relação entre Catarina de Aragão e a nova favorita de seu marido. George Cavendish (1497-c. 1562), em sua biografia sobre o Cardeal Thomas Wolsey (1473-1530) (citada na biografia de Eric Ives (1931-2012), o maior biógrafo de Ana Bolena, nos faria acreditar que o comportamento de Catarina em relação a sua dama de companhia era impecável e que ela demonstrou nada menos do que indiferença a Ana Bolena.

Diz-se também que quando suas damas, numa determinada ocasião, começaram a falar mal de Ana Bolena, Catarina as repreendeu dizendo: “Ore por ela, porque chegará o tempo em que você terá pena e lamentará o caso dela.” A rainha nunca esteve tão certa.

Parece que Catarina só percebeu a verdadeira ameaça que Ana Bolena representava para ela quando foi informada dos planos de Henrique de anular o seu casamento no ano de 1527. Em uma carta a Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico e também rei de Espanha como Carlos I (1500-1558), ela implora que ele pleiteie o seu caso junto ao Papa Clemente VII (1478-1534) para que seu casamento com Henrique seja mantido e chama Ana Bolena de “o grande escândalo da cristandade”. Esta é a primeira vez que ouvimos falar de Catarina dizendo uma palavra dura sobre Ana.

Catarina de Aragão ficou obviamente angustiada com sua nova situação, mas mesmo assim se mostrou digna e ainda possuía força de caráter para defender a sua posição e a posição de Maria Tudor (1516-1558), sua única criança que sobreviveu a infância.

Catarina estava profundamente convencida de que era a verdadeira esposa de Henrique e seguia afirmando que o seu casamento com o irmão de Henrique, o Príncipe Arthur, nunca havia sido consumado e que Levítico 20:21, portanto, não se aplicava ao seu caso. Esta determinada passagem da Bíblia basicamente afirma que um homem que se casou com sua ex-cunhada tinha o casamento visto como inválido pelos olhos de Deus.

Durante os sete anos que o processo de divórcio entre Henrique VIII e Catarina de Aragão durou o grande momento da rainha teve lugar em 18 de junho de 1529, quando um Tribunal Legatino se reuniu em Blackfriars, em Londres, para determinar a validade da união entre ambos.

Quando Catarina de Aragão foi chamada para expor a sua defesa em vez de decidir argumentar ela se aproximou dramaticamente do rei, caindo de joelhos diante dele e fazendo o seguinte discurso emocionado que apelava para os sentimentos do monarca:

“Senhor, eu te suplico, por todo o amor que houve entre nós, e pelo amor de Deus, peço que eu tenha justiça e direito. Tenha pena e compaixão de mim, pois sou uma mulher pobre estrangeira, nascida fora de seu domínio. Não tenho aqui nenhum amigo seguro e muito menos um conselho indiferente. Eu busco por você como o chefe da justiça neste reino.

Ah, senhor, onde eu o ofendi? Ou em qual ocasião eu lhe desagradei, o que pretende ao me afastar de você? Tenho a Deus e a todos como testemunha que tenho sido para você uma verdadeira, humilde e obediente esposa, sempre conforme a sua vontade e prazer. Fiquei satisfeita e contente com todas as coisas em que você teve prazer e alegria. […] Há mais de vinte anos tenho sido sua verdadeira esposa, e através de mim você teve vários filhos, embora tenha agradado a Deus chamá-los para fora deste mundo, o que não foi culpa minha. E quando vocês me teve no início, eu considero Deus como meu juiz, eu era uma verdadeira donzela, sem toque de homem […]”

Após seu discurso uma triunfal Catarina se levantou e saiu do salão, apesar dos protestos dos juízes, que clamava por sua permanência.

Catarina de Aragão poderia ter aproveitado o momento, que proporcionava uma grande audiência, para denunciar o relacionamento de Henrique VIII com Ana Bolena e suas intenções em se casar com a jovem, mas, em vez disso, Catarina optou por falar de si própria e decidiu defender a legitimidade de sua posição.

Sendo assim Catarina de Aragão, até onde sabemos, nunca difamou Ana Bolena ou falou sobre a traição que ela deve ter sentido tanto de seu marido quanto de sua dama de companhia em público.

Em 1533 cansado de esperar uma resposta do Vaticano, que no final foi favorável à Catarina de Aragão, Henrique VIII se declarou chefe da recem-criada Igreja Anglicana e acabou se casando com uma Ana Bolena grávida.

Como se isso ainda não bastasse Catarina foi destituída do título de “Rainha” e recebeu o título de “Princesa viúva de Gales”. Ela também foi expulsa da corte e ficou inpossibilida de ver sua filha, e se viu obrigada a devolver as joias da coroa.

Os últimos três anos de vida de Catarina de Aragão foram terríveis, ela viveu uma vida solitária sendo atendida com um número cada vez menor de criados e em estado de pobreza. Ela finalmente faleceu em 7 de janeiro de 1536 vítima de câncer de coração.

Mesmo em sua carta final Catarina de Aragão não mencionou Ana Bolena, ela preferiu expressar a sua preocupação pelas últimas atitudes do rei em relação ao Catolicismo e ao destino de sua alma.

Mas este mesmo destino parece quer teimar em unir Catarina de Aragão e Ana Bolena. Em 29 de janeiro do mesmo ano, coincidentemente no dia funeral da primeira esposa de Henrique VIII, Ana Bolena abortou uma criança de três mês descrita como sendo do sexo masculino.

Aquela perda minou as esperanças de Henrique VIII em relação a sua segunda consorte. Convencido que Ana Bolean teria o traído com outros e homens ele ordenou a sua prisão e decapitação na Torre de Londres. Ana Bolena cometeu a mesma falha de Catarina de Aragão: ela não gerou um filho homem que vivesse para se tornar Rei de Inglaterra.

Fonte:

Anne Boleyn and Catherine of Aragon – Part 1. Disponível em: <https://www.theanneboleynfiles.com/anne-boleyn-and-catherine-of-aragon-part-1/https://www.theanneboleynfiles.com/anne-boleyn-and-catherine-of-aragon-part-1/>. Acesso em 30. Nov. 2020.

FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento E Silva. 2ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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