Bruno de Cerqueira, co-autor da obra ‘Alegrias e Tristezas’, fala sobre a Princesa Dona Isabel

Bruno de Cerqueira no lançamento de Alegrias e Tristezas, na Livraria da Vila, no Jardim Pamplona Shopping, em São Paulo, em 24 de outubro de 2019. © Saul Nahmias/Divulgação Linotipo Digital

Lançado em 2019 pela Linotipo Digital, em parceria com o IDII, a obra ‘Alegrias e tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil’ aborda os últimos 20 anos de vida da filha mais velha de Dom Pedro II conhecida por ter assinado a Lei Áurea.

Quem foi Dona Isabel de Bragança?

Em 1850, após as sucessivas mortes de seu irmãos Dona Isabel de Bragança se tornou definitivamente a herdeira do trono imperial brasileiro. Por ser mulher e candidata ao cargo de imperatriz, numa sociedade profundamente patriarcal, foi vista com desconfiança pelos homens de sua época.

Aos 25 anos, em 1871, Dona Isabel se tornou regente do Império do Brasil pela primeira vez em virtude de uma viagem do pai, o Imperador Dom Pedro II (1825-1891), a Europa. Nessa ocasião sua atuação foi algo discreta, mas cinco anos depois DonIsabel se viu no centro do palco novamente.

Porém, sem sombra de dúvidas, seu ato mais célebre aconteceu na chamada Terceira Regência quando assinou a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, concedendo a liberdade imediata e irrestrita a milhares de escravizados em todo o Brasil.

O livro Alegrias e Tristezas

Porém, a vida de Dona Isabel de Bragança não se restringe a sua atuação política durante a juventude e esta a proposta do livro ‘Alegrias e tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil’ escrito pelos historiadores e pesquisadores Bruno da Silva Antunes de Cerqueira e Maria de Fátima Moraes Argon.

Além de analisar os textos autobiográficos escritos pela princesa imperial durante o seu exílio na França, após a Proclamação da República, em 1889, a obra também aborda a historiografia envolta da personagem, e a escrita de si.

‘Alegrias e Tristezas’, publicado pela Linotipo Digital em parceria com o IDII, incluí em seu catalogo de imagens fotografias pouco conhecidas. Nos momentos finais de sua leitura também é possível conhecer a Cronologia isabelina e isabelista e uma tabela com todos os homens e mulheres que Dona Isabel nobilitou ao longo de sua vida.

A entrevista

Rainhas na História: Bruno de Cerqueira, primeiramente, muitíssimo obrigada pela sua disponibilidade em responder algumas perguntas para os nossos leitores. Vamos à primeira pergunta: Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Bruno de Cerqueira: Decidimos condensar grande parte de nossos estudos isabelinos e isabelistas numa obra de referência, que sirva a todos os pesquisadores sobre o Brasil-Império, história da Abolição e do(s) abolicionismo(s), do republicanismo e das relações raciais no Brasil, mormente na transição do século XIX para o XX, naquilo que concerne ao isabelismo.  

Trata-se da maior pesquisa já publicada sobre a personagem, que desfaz mitos, explica e esmiúça muitas informações erradas e contraditórias, desce a muitas minudências, tendo por base mais de 20 anos de pesquisas dos dois autores, cada um a seu modo, e os escritos autobiográficos da própria D. Isabel — conforme comentam em prefácio e contracapa as historiadoras  Teresa Malatian, da Unesp, e Lucia Paschoal Guimarães, da Uerj. 

O nome do livro é a tradução da própria forma como D. Isabel descreveu sua vida numa pequena autobiografia, em francês (Joies et Tristesses), escrita em 1908.  

Rainhas na História: Qual é o maior mito que se difunde sobre a princesa Dona Isabel na atualidade?

Bruno de Cerqueira: Há diversos mitos presentes na historiografia brasileira sobre a transição da Monarquia para a República. Neste sentido, o livro tenta desfazer alguns. Todos eles guardam relação com D. Isabel e o Terceiro Reinado malogrado. São eles:

  • A República, em 1889, não era querida pela maioria dos brasileiros. Foi um golpe de Estado não tanto contra D. Pedro II, mas sobretudo contra a filha dele e o “abolicionismo dinástico” que ela representava.
  • O Quinze de Novembro foi episódio em que o racismo contra os negros foi particularmente notável, mas a historiografia apagou isso.
  • Houve muitos mortos durante e após a “Proclamação da República”, sendo a imensa maioria negra, mas isto é desconhecido. 
  • P Terceiro Reinado não era rejeitado de modo absoluto, como a historiografia prevalente costuma asseverar, e possuía bases tanto entre nobres como entre comuns. 
  • O catolicismo da futura imperatriz (D. Isabel I) é a peça-chave para a compreensão não somente da inserção social e política dela como de boa parte dos que com ela se envolveram nas lutas a favor da Abolição e da futura cidadanização dos negros, no Pós-Abolição. 
  • Há diversos futuros no passado que devem ser muito mais explorados; embora o livro não pratique “contrafactualidade”, ele aponta a existência da “factualidade submersa”.
  • A própria expressão “Princesa Isabel” contém uma armadilha teórica para efeitos historiográficos, que permite o apagamento da personagem e a minimização de sua participação no processo da Abolição no Brasil, além de aniquilar com as lutas cidadãs dos negros isabelistas em todo o Brasil.

No mais, o livro traz curiosidades interessantes sobre o pós-Quinze de Novembro, ainda desconhecida da maior parte dos historiadores brasileiros, como por exemplo:

  • A corte isabelina no exílio existiu como uma espécie de “enclave” de brasileiros na França, circundando D. Isabel, o marido, os filhos e depois os netos, e essa corte foi reconhecida como particularmente artística e musical, recebendo comentários de literatos como Marcel Proust. 
  • O monumento ao Cristo Redentor, no RJ, é fruto de uma “promessa” (voto) de D. Isabel, em plena partida para o exílio, a bordo da nau Parnahyba, que depois, a partir de 1908, será idealizado por uma comissão de senhoras isabelistas no RJ, tendo à frente a filha do Almirante Tamandaré, D. Maria Euphrasia Marques Lisboa, dama do Paço e isabelista radical. 

Rainhas na História: Como você avalia a religiosidade de Dona Isabel?

Bruno de Cerqueira: D. Isabel era uma “ultracatólica”, que no seu tempo ganhava a pecha de “ultramontana”. Ela era uma cristã convicta, praticante e ativa no mundo. Entendia que ser princesa/governante cristã era algo querido por Deus para a melhoria/otimização social, entendida enquanto “santificação”, no léxico católico, de todos, tanto príncipes, como nobres ou comuns. Não era fanática religiosa; nem mesmo era uma hiper-religiosa. Isto é bastante elucidado no livro. Embora talvez se pudesse dizer que ela tinha germes de escrupulosidade e outros tipos de desvios na prática religiosa, que levam ao fanatismo e à idolatria, tratou-se da governante brasileira de maior consciência cristã em todo o nosso percurso histórico. 

Meu amigo Robert Daibert costuma dizer que a religião eram os óculos de D. Isabel. Sem dúvida. A cosmovisão dela era cristã plena. Embora fosse pessoa muito culta, tolerante com as diferenças e muitíssimo bem-humorada, era também uma mulher autoritária e ciosa, que não admitia crítica de seus próprios filhos, no exílio, à Lei Áurea. 

Existe uma possibilidade, embora ainda pouco concreta, de que ela venha a ser beatificada pela Igreja, o que de fato não seria contraditório, eclesiologicamente, tendo em vista aquilo que viveu e pelo qual lutou sempre: dignidade humana, liberdade, cidadania e harmonização social.

Rainhas na História: Dona Isabel era uma política hábil, na sua opinião o Terceiro Reinado seria viável?

Bruno de Cerqueira: Não sei dizer se era uma política hábil, mas certamente posso dizer que ela era uma mulher política. Entendia a política da maneira como a Doutrina Social da Igreja Católica (DSI) determina que ela seja: a mais alta forma de caridade. Essa política, a de P maiúsculo, que Pedro Calmon e Robert Daibert Junior chamaram em suas biografias isabelinas de “política do coração”, é bastante diferente da praticada em muitas nações, e a nossa não se encontra alheia a esse fenômeno. Bem ao contrário, a política tende a ser uma das facetas mais ignóbeis da realidade social brasileira. No XIX já éramos muito do que somos. A República, no lugar do Terceiro Reinado, sem dúvida aguçou os piores instintos naquilo que erradamente se costuma chamar de “elites políticas” do Brasil, visto que elite é uma classe dirigente composta do que os gregos chamavam de “aristoi”, ou seja, os melhores, os mais bem preparados, os que se dedicam ao Bem Comum, mesmo que não sejam integralmente desprovidos de interesses particulares. Embora tudo isso pareça mais apologética do que estudos de Ciência Política, sem dúvida homens e mulheres que se guiam por uma axiologia cristã, e no caso isabelino era claramente a cristã-católica, podem transformar muito mais o mundo em que vivem, se usando da política, do que mantê-lo igual ou torná-lo pior. 

O Terceiro Reinado seria absolutamente viável no Brasil, pois tínhamos Constituição e ordenamento jurídico político todo voltado à manutenção da Monarquia, e não à instauração de uma República. Boa parte da legitimidade sociopolítica do Terceiro Reinado estava assentada naquilo que hoje chamamos de “inclusão social” dos antigos escravizados e tudo isso era projetado pelos abolicionistas, que a essa obra denominavam “Redenção do Brasil”. Nabuco, Rebouças, Patrocinio, Dantas e muitíssimos outros depositavam as fichas nos governos que seriam montados no último decênio do XIX e dos quais fariam parte, claro. A transição para o Novecentos brasileiro poderia ter sido coisa absolutamente diversa da que ocorreu, com guerras civis, miserabilização e criminalização dos pobres, destruição de patrimônio histórico etc.

Rainhas na História: Qual é o fato mais inovador que a obra escrita por você, em parceria com a historiadora Fátima Argon, traz para o grande público?

Bruno de Cerqueira: Penso que AeT, como o chamamos, até pela abrangência dos temas tratados, é uma obra fundamental na análise dos temas que já colocamos anteriormente. O que sempre chamou a atenção, para Fátima e eu, é a ignorância historiográfica sobre ela e o isabelismo. Há dezenas de apontamentos no livro indicando erros, sem demonizar nenhum autor, evidentemente, quando se tentou esmiuçar o percurso da única brasileira que governou o País até a eleição de Dilma Rousseff, na década de 2010. 

Rainhas na História: Como foi a vida de Dona Isabel no exílio?

Bruno de Cerqueira: Uma vida tumultuada. Se por um lado a corte isabelina no exílio era-lhe fator de apoiamento, também o era de grande tensão. Exigia-se dela um comportamento belicista, que despossuía. Com o tempo, a restauração da Monarquia no Brasil passou a ser exclusivamente uma prédica para aquela mulher quinquagenária e depois sexagenária. 

Do ponto de vista religioso, que sempre é, também, político, o exílio de D. Isabel foi de intensa atividade caritativa. Ela presidiu inúmeras associações beneficentes francesas e tudo fazia pela Igreja do Brasil, mesmo estando fora do país. O abolicionismo ela nunca abandonou e foi presidenta – ela mesma grafava presidenta – do Comitê das Damas da Sociedade Antiescravagista da França, entidade que criava “vilas de libertação” no Magreb, livrando escravizados em meio aos muçulmanos. 

Rainhas na História: Nos fale um pouco sobre a suposta rivalidade existente entre Dona Isabel e seu sobrinho, Dom Pedro Augusto?

Bruno de Cerqueira: D. Pedro Augusto foi um rapaz brilhante em inteligência e por ser o neto mais velho de D. Pedro II, poderia ter sido o herdeiro do trono imperial caso D. Isabel não gerasse prole. Neste caso ele seria o sucessor dela, pois a mãe dele faleceu em Viena, em fevereiro de 1871. Mas em 1873, D. Isabel já engravidou e dessa vez não abortou. Nasceu-lhe uma menina, que foi morta no parto, D. Luiza Victoria. No ano seguinte, nasceu-lhe o almejado “varão”, D. Pedro de Alcântara. Depois disso, em 1878 e 1881, vieram mais dois meninos, D. Luiz e D. Antônio. Isto significa dizer que D. Pedro Augusto, que por apenas três anos foi herdeiro da tia, deixou de sê-lo muito rapidamente. O príncipe tinha, desde pequeno, episódios comportamentais estranhos. Tudo indica que ele se tornou esquizofrênico, embora a família dele não goste de divulgar os dados médicos. Rebouças foi professor dele na Politécnica e o descreve nos diários como um rapaz tão inteligente quanto desequilibrado. 

O que explicamos em AeT é que essas rivalidades, que foram reais e que foram usadas por um ou outro político contrário ao Terceiro Reinado, não abalavam em nada a sucessão imperial, que era constitucionalmente tutelada. 

Tudo que se especula em relação a isso tem a ver com o livro “O Príncipe Maldito”, da historiadora Mary del Priore, minha professora na PUC-Rio. Contribuí bastante com a escrita desse livro, uma vez que indiquei a Mary inúmeros caminhos para a pesquisa sobre o personagem. O livro não é, contudo, um trabalho historiográfico em termos clássicos. Aliás, dali em diante, todos os livros de Mary são de cunho romântico-histórico, se pudermos colocar nesses termos; não há notas explicativas e não se expõe nenhum debate historiográfico. O que em nada diminui o brilho da escrita da autora, menos ainda deslustra seu conhecimento histórico, que tem várias especificidades, como a vida privada na colônia luso-americana, a história das mulheres no Brasil etc. 

Rainhas na História: Por fim, mas não menos importante, nos informe onde podemos encontrar o seu livro. Se quiser, também deixe o seu contato:

Bruno de Cerqueira: O livro está disponível na loja virtual da editora com a qual o IDII fez a parceria para lançá-lo: https://www.linodigi.com.br/produto/alegrias-e-tristezas-29 

Quanto ao meu contato pessoal, é brunoantunesdecerqueira@gmail.com

Quanto aos contatos do IDII são: idisabel@idisabel.org.br e institutodonaisabel@gmail.com 

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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