Pesquisadores investigam retrato de Isabel Clara Eugênia, poderosa infanta espanhola

Isabel Clara Eugênia, trajando um habito de freira, em tela atribuída a Anthony van Dyck. Imagem extraída de Royal Collection Trust.

Cerca de meio século atrás, um jovem bibliotecário vagava dentro de uma pequena loja de antiguidades em Londres. Lá, entre móveis antigos e vasos de porcelana, estava um retrato de uma senhora austera e idosa com um hábito de freira preto.

Acreditando que a pintura fosse uma cópia de um artista desconhecido do “Retrato da Infanta Isabel Clara Eugênia”, do artista flamengo Anthony van Dyck, Chris Wright, o bibliotecário, comprou a pintura por £ 65 (cerca de US$ 88).

Um relatório recém-publicado do Courtauld Institute of Art “propõe provisoriamente” que a pintura não seja a cópia anónima que Wright acreditava que fosse. Em vez disso, sugere que o retrato é na verdade obra da oficina do pintor Anthony van Dyck – talvez até obra do próprio mestre.

Apesar de ter estudado a história da arte do século XVII, Wright nunca duvidou que a pintura pendurada acima de sua lareira fosse tudo menos uma boa imitação do retrato original de van Dyck de 1627 da Infanta Isabel Clara Eugênia.

A infanta foi uma das mulheres mais poderosas do seu tempo, co-governando Bruxelas com o marido durante 22 anos e governando por direito próprio durante 12 anos. Ela adotou o hábito da freira após a morte do marido, em 1621, como um ato de luto e piedade.

A pintura foi “descoberta” por Colin Harrison, curador sênior de arte europeia do Ashmolean Museum, viu algo diferente quando parou no apartamento de Wright em Londres para dar uma olhada em outra pintura da coleção de Wright em dezembro de 2018.

O olhar firme da infanta imediatamente chamou sua atenção. Harrison disse a Wright que a pintura realmente parecia um van Dyck. Depois disso, Wright cedeu a pintura ao Instituto Courtauld, pertencente a Universidade de Londres, em 2019 para uma “investigação adequada” da obra.

Uma das inúmeras versões existentes do retrato de Isabel Clara Eugênia com habito de freira. Esta pintura se encontra em exibição no Museu do Louvre. Imagem extraída de Wikimedia Commons.

A Courtauld, especializada em história da arte e conservação, selecionou o retrato como parte de seu projeto “Painting Pairs”. Ao longo de um ano, o estudante de conservação Kendall Francis e o estudante de história da arte Timothy McCall colaboraram em um estudo da pintura.

Enquanto Francis limpava a pintura, McCall pesquisava. Eles então sintetizaram sua análise em um relatório final e apresentação, onde concordaram com o palpite inicial de Harrison de que a pintura pode, de fato, ser da oficina de van Dyck.

McCall e Francis descobriram que a pintura foi criada com materiais consistentes com os que van Dyck usou em sua carreira posterior. A reflectografia infravermelha revelou esboços sob o retrato de Wright que também são consistentes com outros trabalhos de van Dyck do período.

Mas talvez a evidência mais convincente que McCall e Francis encontraram foi a representação das mãos e do rosto. Van Dyck provavelmente pintava as mãos de seus retratos por último, algo que McCall e Francis descobriram ser verdade no retrato da infanta de Wright. O rosto do retrato de Wright também compartilha a mesma “pincelada mais grosseira” com uma versão de oficina conhecida do retrato.

Quando ele ouviu os resultados, “minha reação foi de um prazer gentil”, diz Chris Wright, comprador da pintura. Ele já havia planejado emprestar a pintura ao Cannon Hall, um museu de artes plásticas e decorativas em Cawthorne, Inglaterra.

Agora quando o retrato for exibido em 21 de fevereiro, um “rótulo” explicará como a pintura pode ter vindo da oficina de van Dyck, diz Natalie Murray, curadora do museu.

Detalhe do artista Anthony van Dyck, por Peter Paul Rubens, obra datada de 1627–28. Imagem extraída de Wikimedia Commons.

Porém, mesmo que o retrato de Wright seja atribuído à oficina de van Dyck, os historiadores da arte provavelmente nunca saberão quanto do trabalho foi feito pelo próprio van Dyck e quanto foi feito pelos assistentes e aprendizes que ele empregou.

Em seus últimos anos, van Dyck teve uma equipe de pessoas ajudando-o a produzir centenas de pinturas. Eles faziam de tudo, desde preparar telas para pintar obras, copiando o original de van Dyck.


Esta matéria foi traduzida e adaptada para a língua portuguesa por Fernanda da Silva Flores diretamente do Atlas Obscura de maneira exclusiva para o Rainhas na História.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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